Neste artigo argumento que a forma
correta de referenciar as obras de Allan Kardec em publicações
espíritas ou sobre o Espiritismo deve ser a mesma utilizada
internacionalmente no meio acadêmico para as obras clássicas
de qualquer área do saber.
Essa forma é a que deriva das próprias obras, em suas
edições acadêmicas padrão, que em geral
já incluem sistemas internos para a identificação
de capítulos, seções, parágrafos ou mesmo
linhas, em alguns casos. Mostro a completa inadequação
das práticas de referência que têm sido adotadas
ultimamente em artigos e livros espíritas, bem como em artigos
acadêmicos de análise histórica, conceitual ou
teórica, que aplica de modo acrítico o modelo “Autor,
ano de publicação”, ou, pior ainda, o modelo de
números sequenciais que remetem à lista de referências
no final do texto.
In this paper I argue that the correct
system of reference to be adopted for the works of Allan Kardec should
be essentially the same as that standardly used for referencing the
classical works in all areas of scholarship, according to which the
references derive from the internal subdivisions in the works themselves,
such as introduced by the authors or by their classical editors. This
natural, universally adopted system for classical books, contrasts
with the current practice in certain academic publications on Kardec’s
works, which unwisely adopt the form of “author, year”,
designed for scientific areas in which the usual focus are papers
published recently.
Departamento de Filosofia, IFCH,
Unicamp, Campinas, SP

INTRODUÇÃO
É auspicioso o crescente interesse nas obras de Allan Kardec
por parte de acadêmicos de diversas áreas, como a história,
a filosofia, a teoria literária, a ciência da religião,
etc. Paralelamente, a própria literatura espírita tem,
nos últimos tempos, mostrado maior preocupação
com rigor analítico e correta identificação de
fontes bibliográficas. Isso contrasta positivamente com décadas
de indiferença ou descuido com relação aos aspectos
paratextuais da produção de trabalhos espíritas.
Era comum, até recentemente, que referências a autores
e obras sendo comentadas, entre as quais as próprias obras
fundantes do Espiritismo, ou seja, as de Allan Kardec, fossem feitas
sem nenhuma identificação das fontes, e mesmo sem o
uso de aspas em citações, ou ainda com identificações
claramente inadequadas, como por exemplo ao número de página
da obra, muitas vezes sem sequer se identificar a tradução
e edição utilizada. É evidente que, para qual
quer estudo sério, tais práticas eram altamente indesejáveis,
não permitindo a leitor conferir por si próprio o texto
em análise.
Com o aparecimento, nas últimas poucas décadas, de trabalhos
acadêmicos sobre o Espiritismo, essa situação
começa aos poucos a se modificar para melhor. A própria
literatura espírita, na figura de autores e editores, tem,
em vários casos, refletido essas melhorias. Muito trabalho
existe pela frente, porém.
Primeiro, o novo espírito de rigor e transparência acadêmicos
está ainda longe de ser incorporado satisfatoriamente pela
maioria dos autores e mesmo editores espíritas. Ainda é
bastante comum a acomodação às velhas práticas
de redação, focadas mais na exposição
de ideias próprias do que na análise crítica
dos fundamentos do que é proposto, para o que remontar adequadamente
às fontesteóricas do Espiritismo é absolutamente
necessário. Depois, mesmo no campo espírita e acadêmico-espírita
há, como apontei no parágrafo precedente, um trabalho
importante a ser feito, no sentido de evitarem-se formas de referência
inadequadas e de convencer autores e editores espíritas a adotar
os padrões acadêmicos internacionais para as obras clássicas,
principalmente as de Allan Kardec.
Obras são consideradas clássicas
quando têm papel importante em fundar uma área de estudos,
ou desenvolver significativamente uma área, aprofundando
ou reformulando seus conceitos, teorias e aplicações.
Tais obras estão presentes em todas as áreas do saber:
filosofia, ciência, literatura, história, etc. Tipicamente,
eles têm várias ou muitas edições e são
traduzidas em muitos idiomas. A comunidade acadêmica faz,
ao longo do tempo – de anos e décadas a séculos
e milênios – estudos críticos dessas obras, comenta-as
extensa e aprofundadamente, compara-as com outras obras, examina
seus fundamentos e implicações, constituindo isso
parte importante para os profissionais da área. Neste artigo
darei exemplos de clássicos filosóficos e científicos.
Variando a amostra, a Divina Comédia, de Dante, Os Lusíadas,
de Camões, as obras de Shakespeare, o Quixote, de Cervantes,
etc. são clássicos da literatura, não apenas
por seu imenso valor literário mas também por terem
contribuído para o próprio estabelecimento dos idiomas
nacionais em que foram escritos.
Neste artigo proponho-me a oferecer
subsídios paraque tais objetivos sejam mais pronta e eficazmente
alcançados. Na seção II, identifico as razões
pelas quais os sistemas de referência comuns hoje em dia na
área acadêmico-espírita são inadequados.
Forneço, depois, na seção III, alguns exemplos
de argumentações na literatura acadêmica que vão
justamente na direção que tenho proposto no meio espírita
e acadêmico espírita, sem resultados visíveis,
com uma louvável exceção, a ser oportunamente
indicada. Apresento ao leitor alguns exemplos acadêmicos, de
áreas consolidadas de análise de clássicos, bem
como uma amostra de obras recentes de editoras de alto nível.
Por último, na seção IV, explicito minha própria
proposta, específica para as obras de Kardec, cobrindo sistema
de referência, abreviaturas e considerações adicionais
relativas à forma das publicações espíritas
ou sobre o Espiritismo.
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