É incrível como os espíritas da atualidade
são idênticos aos religiosos de todos os tempos,
advogando uma moral necessária e uma obediência
(cega) aos “ditames” de suas crenças. É
por isso que não sou religioso. Não tenho religião!
Não preciso de uma!
Sim, sou espírita desde 1981.
Era dezembro, e a insatisfação com a “falta de
respostas” do frei franciscano da igreja em que eu frequentava,
por herança familiar, em Florianópolis (SC) apressou
a busca e o encontro de uma nova filosofia (até então,
para mim, religiosa). Eu e meus parentes mais próximos migramos
da Igreja de Santo Antônio para um Centro Espírita (a
Sociedade Espírita de Assistência e Promoção
Social Tereza de Jesus). As respostas para as muitas perguntas de
um adolescente de 12 anos foram, pouco a pouco, sendo encontradas
na filosofia (e, talvez, na “religião”) espírita.
Tudo era “divino e maravilhoso”.
As palestras, os passes, os estudos, os livros, os encontros, as reuniões
mediúnicas… Durante anos a fio, eu estava “completo”.
Respirava Espiritismo vinte e quatro horas por dia, ainda que fosse
um jovem normal, que estudava, trabalhava, jogava futebol e basquete,
videogame, futebol de botão e ia a festas, namorava e me integrava
com as “coisas” do meu tempo. Se fui feliz? Penso que
sim! Ainda que uma felicidade moldada na “crença”
daquilo que me era dito como espírita e em face da “leitura
tradicional” do que era (ou não) Espiritismo.
Depois, as minhas buscas passaram a ser outras. Passei a questionar
o “status quo”, o tradicionalismo e o dogmatismo das (nas)
práticas ditas espíritas, sobretudo porque dirigentes
e expositores – muito mais experientes e com maior idade que
eu – me apontavam como OBRIGATÓRIOS o pensar, o falar
e o escrever dentro de certos “paradigmas”. Assim é,
até hoje, com raras exceções. Os “diferentes”,
aqueles que ousam pensar numa contracultura espírita –
entendida esta como a natural vivência kardequiana, do livre
pensar e do entender as verdades espirituais e espíritas conforme
o próprio raciocínio – são objeto de oposição,
contrariedade e repulsão por parte dos espíritas tradicionais,
os que não desejam sair de suas zonas de conforto e lógica
pré-estabelecida.
O Espiritismo enquanto movimento de pessoas e
ideias se igrejificou, completamente. Tornou-se “morno”,
na exata definição do Homem de Nazaré. Perdeu
a capacidade de empolgar e endereçar seus adeptos às
mudanças necessárias, como o sal da parábola
nazarena. Cristaliza-se, em posicionamentos impositivos, como um remendo
novo em roupa velha, igualmente recordando do dizer daquele Carpinteiro
Sublime. Essas três passagens, portanto, revisitadas, dão
maior significado à plenitude e permanência dos ensinos
de Jesus – não o Jesus das Igrejas, não o Jesus-Cristão,
personagem favorito dos centrinhos espíritas, mas o Jesus de
carne e osso, talvez bem mais aproximado ao desenho feito por Benítez
em sua vasta obra de ficção paranormal e ciência
astronáutica.
Não me apraz, não me cativa, não me atrai a imensa
maioria dos “ambientes” espíritas da atualidade,
como, também, não me preenchem os livros, revistas,
jornais, sites e as palestras dos medalhões ou dos seus seguidores
– ou clones, na mais das vezes. Não me sinto nem um pouco
interessado em “debater” com os espíritas da atualidade,
seja os que estejam federados, seja os que não se agreguem
no rol das entidades filiadas e, até mesmo, entre os que se
supõem ser independentes, não-religiosos, laicos, científicos
ou qualquer outra denominação que se lhes atribuam,
os próprios membros ou outrem.
Prefiro – quando necessário
ou sob convite, e, também, de modo voluntário e sem
“encomenda”, como agora – falar e escrever sobre
o meu modo de entender a Doutrina Espírita, expressão
que para mim simboliza o próprio exercício diário
de Rivail, quando encarnado, no dia-a-dia de sua vivência espírita.
Pensar livremente, falar sem amarras, escrever sem formalidades, viver
intensamente o SEU espiritismo pessoal, mas respeitadas, é
claro, como premissas, as bases filosóficas doutrinárias,
puras, sem o “achismo” que é comumente visto de
Sul a Norte de nosso Brasil, ou em outros países onde o espiritismo
brasileiro foi colonizador filosófico.
A motivação deste texto é a formidável
declaração atribuída ao Nobel da Paz, Desmond
Tutu, sobre seu desejo (pessoal) de MORRER EM PAZ. Aos 85 anos, padecendo
em uma enfermidade grave e incurável (câncer de próstata)
e suas complicações, ele afirmou: “não
desejo continuar vivo a qualquer custo”. E conclui: “Espero
ser tratado com compaixão e que me permitam passar para a próxima
fase dessa jornada da vida da maneira como eu escolher”.
Ao dogmatismo espírita estas
afirmações soam como blasfêmia. Simbolizam o “inconformismo”
diante dos “desígnios” de Deus, que “tudo
vê e tudo sabe”. Dizem os dogmáticos espíritas
que a VIDA é “dom de Deus” e que “somente
ele” pode “dar e tirar” a vida. Dizem isso para
a eutanásia e também para o aborto. São os mesmos
que apedrejaram àquela mulher em praça pública,
a partir de sua canhestra e obtusa moral “única”.
E se apegam – tais como escribas e fariseus da época
daquele Pescador de Almas – às letras, não mais
das Escrituras, mas d’O Evangelho, d’O livro dos espíritos,
etc.
Senhor, afasta de mim esse cálice!
– digo, eu. É incrível como os espíritas
da atualidade são idênticos aos religiosos de todos os
tempos, advogando uma moral necessária e uma obediência
(cega) aos “ditames” de suas crenças. É
por isso que não sou religioso. Não tenho religião!
Não preciso de uma! E, ademais, para deleite e êxtase
daqueles que me leem como censores, repito: se é este o Espiritismo,
dito como seguidor de Kardec, eu prefiro NÃO SER (MAIS) ESPÍRITA.
Mas, como teimoso que sou e como estudioso que continuo sendo de tudo
o que me apareça pela frente tido ou alcunhado como espírita,
repito, também: – Não, este não é
o Espiritismo de Kardec!
Kardec jamais “proibiria” ou “chancelaria
negativamente” as escolhas humanas. Kardec jamais cravaria como
SIM ou NÃO as condutas dos homens. Kardec jamais buscaria um
dos excertos de suas obras (versículos bíblicos de hoje,
não?) para apontar dedos de censura ou admoestação
para seus irmãos homens. Kardec, por fim, não apregoaria
uma ÚNICA MORAL, um ÚNICO MODO DE ENTENDIMENTO, uma
FÓRMULA SOLITÁRIA de entendimento das diversas situações
da vida…
Tutu eu estou contigo! Eu já
escrevi sobre eutanásia, sobre aborto e tantos outros temas,
em abordagens “À LUZ DO ESPIRITISMO”, sem me considerar
o único bom entendedor das Leis Espirituais, mas com o dever
de consciência de debater, apresentar razões, discutir
e buscar ampliar o entendimento, não reduzi-lo.
Confesso que, por vezes, sinto falta
de muitas daquelas ambiências de convívio que, por mais
de 30 anos, foram rotina nos meus dias. Mas, do mesmo modo que sinto
falta da gente reunida “em torno” do Espiritismo, sinto
tranquilidade em dizer que não me faz falta o verniz da (pretensa)
superioridade moral e da (falsa) sabedoria dos eventos e reuniões
espíritas, onde para “tudo” se teria resposta e
onde “tudo” poderia ser explicado e entendido pelas “lógicas
de plantão”.
Prefiro permanecer, como dizem, obsedado.
Obsedado por Kardec e pela luz da busca e da permanente maiêutica.
Me afasto – cada vez mais – das explicações
fáceis, das respostas codificadas, das pregações
ilustradas e da aparência de santidade. Como Jesus, eu diria:
prefiro a companhia das meretrizes e dos ladrões!
(*)
Marcelo Henrique Pereira, Mestre em Ciência Jurídica,
Presidente da Associação de Divulgadores do Espiritismo
de Santa Catarina e Delegado da Confederação Espírita
Pan-Americana para a Grande Florianópolis (SC)