Consegui na internet uma tradução
para o português do livro Apologia (feita por José
Fernandes Vidal e Luiz Fernando Karpss Pasquotto), escrito por Tertuliano
no ano 197. O autor é citado por Léon Denis no seu
Cristianismo e Espiritismo, pela proximidade de algumas
ideias com o espiritismo. Ele foi mestre de Orígenes, que
defendeu abertamente a preexistência das almas, como forma
de explicar a justiça divina, entre outras posições
que lhe valeram, no futuro, a acusação por heresia.
Tertuliano era de Cartago, no continente africano.
"e exercia a profissão de advogado quando se converteu".
Nos primeiros capítulos de
sua Apologia, Tertuliano faz uma peça de defesa contra o
"crime de ser cristão", que é encantadora.
Neste texto se vê o que já li em Amélia Rodrigues
e outros autores espirituais, que bastava ao cristão negar
ser cristão publicamente, e sacrificar aos deuses, para ser
absolvido.
Tertuliano desenterrou um texto
de Plínio, o moço, no qual ele questiona ao imperador
Trajano por que perseguir os cristãos, que, em suma, nada
de mal faziam ao império, a não ser não sacrificar
aos deuses. Trajano afirma que não deveriam ser perseguidos,
mas se fossem trazidos diante dele, deveriam ser punidos.
O advogado cartaginês vai
apontar passo a passo todas estas contradições do
discurso imperial, comparando o cristão ao criminoso comum.
Ele mostra que o criminoso comum costumava ser torturado até
admitir seu crime, enquanto o cristão, entregava-se imediatamente
se questionado. - "Sou cristão". Ao contrário
do criminoso, iniciava-se toda uma manobra para que ele mentisse
em público e fosse inocentado.
Usando de ironia, ele escreve:
"Assim, o nome odiado é
usado preferencialmente a uma reforma de caráter. Alguns
até trocam seus confortos por este ódio, satisfazendo-se
em cometer uma injúria para livrarem sua casa dessa sua
mais odiosa inimizade. O marido, agora não mais ciumento,
expulsa de sua casa a esposa, agora casta. O pai, que costumava
ser tão paciente, deserda o filho, agora obediente. O patrão,
outrora tão educado, manda embora o servo, agora fiel.
Constitui grave ofensa alguém reformar sua vida por causa
do nome detestado."
O texto, longe de ser monótono,
é muito interessante. Ressalvada a intenção
do autor, que é de defesa do cristianismo, um texto desta
época é um documento importante para conhecermos
melhor o que aconteceu com o cristianismo em sua trajetória.
Com certeza, há uma diferença marcante entre os
cristãos dos primeiros séculos descritos pelo cartaginês,
e os clérigos renascentistas ironizados por Boccaccio em
Decamerão.