Professor aposentado do Departamento
de Psicologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
da UFMG
Jornal de Estudos Espíritas
2, 010201 (2014).
https://sites.google.com/site/jeespiritas/
publicado em 08 de Janeiro 2014
Resumo:
Éthos e visão de mundo são dois conceitos de
destaque na obra de Clifford Geertz, importantes no debate da construção
e reconstrução da identidade frente a fenômenos
de sincretismo em movimentos religiosos. Partindo deles, discute-se
a proposta Kardequiana de éthos do espiritismo e sua inserção
histórica no Brasil, a partir do século XIX. Aponta-se
nesta trajetória os conflitos internos do movimento espírita
e as novas instituições filosófico-religiosas
que surgiram deles. As tensões entre tendências oriundas
do positivismo na cultura brasileira e do cristianismo se reproduzem
na história do movimento espírita brasileiro. O autor
propõe um quadro para a síntese do éthos e
da visão de mundo encontradas na obra de Kardec e discute
quatro novos pontos de tensão contemporâneos apontados
ou não por autores da antropologia, desafiando a identidade
do espiritismo no Brasil.
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(Início)
I ÉTHOS, SINCRETISMO
E IDENTIDADE
A Antropologia, face às mudanças
culturais em curso no cenário de globalização
(Velho, 1997; Offe, 1999) tem redobrado suas atenções
com a religião. Offe (1999) entende que diante da globalização
cultural, as religiões se tornam um elemento identitário
importante, uma instância de um grupo social que, ao lado
dos elementos universalizantes da globalização, afirma
sua identidade social, em um esforço de manter-se particular.
Otávio Velho (1997) constata uma certa pentecostalização
da religião, uma erosão do seu caráter racional,
substituído pelo carisma das novas designações
religiosas em ascensão.
Clifford Geertz (1989), antropólogo norte-americano, ficou
conhecido por seus estudos de culturas muito diferentes da americana,
empregando métodos etnográficos, e por sua abordagem
não apenas descritiva, mas interpretativa destas culturas.
Ao abordar uma cultura estranha, ele buscava a visão dos
“nativos” e como davam sentido ao que faziam. Encontra-se
em seus trabalhos uma preocupação com o éthos
(1), a visão de mundo (2)
das pessoas nestas sociedades, como um caminho que permite a compreensão
mais ampla dos atos considerados ingênuos, primitivos ou irracionais
aos olhos dos estrangeiros.
Não se confunde éthos ou êthos com ética.
O éthos é um termo empregado pela Antropologia para
o estudo da moral de uma comunidade ou grupo, não importando
se a mesma é ou não justificada racionalmente ou miticamente.
A Ética é uma disciplina da Filosofia que estuda a
moral, os valores, os costumes e as razões que se emprega
para justificá-los. Pode-se dizer que há um éthos
espírita (a moral, os valores, os costumes que se observa
na comunidade espírita ou em um segmento dela) e uma ética
espírita (o pensamento filosófico que justifica a
moral, os valores e os costumes). Pode haver algum afastamento entre
o éthos e a ética espírita.
O sincretismo religioso brasileiro, que é uma mescla de elementos
de religiões diferentes, é bastante conhecido e discutido
(Sanchis, 2001; Paiva, 1999, 2004), e não se nega a sua presença
no movimento espírita, mas há que se fazer algumas
ressalvas.
Primeiramente há que se acentuar a existência de instituições,
identidades e visões de mundo e de homem diferentes entre
espíritas, católicos, evangélicos, umbandistas,
membros de cultos africanos e de religiões orientais.
Em segundo lugar, há algum contato ou trânsito entre
estas religiões, seja em sua origem, seja em sua trajetória.
Católicos, evangélicos e espíritas são
religiões cristãs, no sentido de valorizarem de alguma
forma os evangelhos, os ensinos de Jesus Cristo e de seus apóstolos
e discípulos. São diferentes manifestações
culturais do Cristianismo. O Candomblé tem suas origens no
culto africano dos orixás, sendo passível de alguma
mimese com elementos do catolicismo, explicada pela imposição
do catolicismo aos escravos pelo colonizador português e,
posteriormente, pelos donos de escravos brasileiros. A Umbanda é
uma religião que se fundou a partir de uma fusão de
elementos dos cultos africanos, do Espiritismo, do Catolicismo e
dos cultos indígenas (Amorim, 1993), sendo, portanto, fruto
de sincretismo.
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