
Júlia Gyimesi, psicóloga húngara
Recentemente a psicóloga Júlia
Gyimesi publicou um artigo em língua inglesa no qual faz uma
síntese de seus estudos de história da psicologia e
do espiritismo em seu país: a Hungria.
Pode parecer preciosismo estudar a
história do espiritismo na Hungria, mas a trajetória
que a autora nos apresenta tem muitas similaridades com a do espiritismo
no Brasil, e põe em questão algumas afirmações
que autores da antropologia francesa atribuem ao espiritismo com relação
à cultura brasileira.
O espiritismo na Hungria
Gyimesi nos mostra que o espiritismo
chegou à Hungria na década de 1860. Ele teve por iniciadores,
o médico János Gárdos, o médico Adolph
Grünhut e a baronesa Adelma Vay.
Adelma era católica, avessa
ao espiritismo por questões religiosas, mas desenvolveu uma
enxaqueca e procurou o Dr. Grünhut, que sugeriu que ela desenvolvesse
a escrita automática. Adelma começou a psicografar o
espírito Tamás, que promete deixa-la livre de sintomas.
Ela desenvolve a faculdade, e Julia narra um caso em que ela diagnostica
e prescreve tratamento correto para um paciente de seu médico.
Rompendo com a igreja católica, que não aceita uma médium
entre seus adeptos, em 1869 ela publica o livro “Espírito,
Poder e Matéria”.

Adelma Vay
Grünhut irá ser um dos
fundadores da Associação dos Investigadores Espíritas
de Budapeste, com o seguinte objetivo:
“Pesquisar os fenômenos
das revelações espirituais e examiná-las à
luz das ciências éticas, históricas, psicológicas
e físicas. Seu propósito é examinar a doutrina
do espiritismo e provar a ressurreição pessoal da psique
humana /espírito/ após a morte do corpo; seu objetivo
indicado é a perfeição moral dos seres humanos”.
(p. 7)
A principal influência teórica
desse grupo é a obra de Allan Kardec. Júlia explica
que o espiritismo húngaro acabou tendo uma grande influência
religiosa e moral, mais que científica. A associação
fala em “espiritismo evangélico” e considera seu
objetivo primário “o autodesenvolvimento em uma fé
cristã unificada, seguindo os ensinamentos do Cristo”.
(p. 8)
As duas primeiras revistas da associação
foram publicadas em alemão. A primeira se chamava “Reflexões
sobre o mundo espiritual” (1873-1876) e a tradução
da segunda parece ser “Folha da reforma” (1878-1880).
O conteúdo desses periódicos era composto principalmente
de comentários de passagens evangélicas, pelos espíritos
dos evangelistas e de Paulo de Tarso, se entendi bem o texto.
A década de 1880 trouxe estudos
experimentais com Adelma Vay, feitas pelo Barão Von Hellenbach.
Na década de 1890, a Associação publicou a primeira
revista em húngaro, cuja tradução do título
seria “Luz Celestial”. O jornalista responsável
era Titusz Tóvölgyi, a revista foi publicada entre 1898
e 1944 e seu conteúdo era composto de mensagens mediúnicas
e artigos teóricos.
Com o fim da segunda guerra mundial
e a influência soviética na Hungria, os espíritas,
que lutavam com diferenças internas no grupo, começaram
a sofrer restrições do regime comunista e, em 1949,
tiveram sua sede desapropriada pelo Ministério do Interior
(ou de Assuntos Internos) húngaro.
O espiritismo entre o Brasil,
a Península Ibérica, a França e a Hungria
Ao acompanhar a linha histórica
entre a Hungria e o Brasil, a primeira semelhança que encontramos
é a influência do pensamento de Allan Kardec nos primeiros
grupos. O mesmo aconteceu na França e na Península Ibérica.
Ao contrário do que afirmam
alguns autores da antropologia francesa e brasileira, a influência
do cristianismo estudado pelo espiritismo, está em todos esses
lugares. Como vimos na biografia de Allan Kardec, a moral cristã,
independente da leitura católica ou protestante, era vista
como a referência ética de todas essas sociedades. A
ética cristã era estudada na França como a referência
ética da formação dos cidadãos, mesmo
após a revolução francesa. “O evangelho
segundo o espiritismo” possivelmente influenciou todos os espíritas
que estudaram os livros de Allan Kardec.
Esse texto nos traz novas luzes sobre
o desenvolvimento do espiritismo na Europa. A Hungria também
sofreu influência do período experimental, e possivelmente
dos estudos ingleses e franceses das décadas de 1880-1890.
Esta influência, contudo, se justapôs a um movimento já
existente, com influência doutrinária kardequiana, o
que significa um interesse pelo estudo dos evangelhos.
Possivelmente houve algum estranhamento
interno dos interesses, mas não algo que justificasse uma autofagia
do movimento espírita europeu.
A outra questão que o texto
nos traz é a relação do espiritismo com os regimes
totalitários. Na península ibérica, a história
do espiritismo começa em franco conflito com a influência
da igreja na política. A queima de livros espíritas
em Barcelona, sob as ordens de um bispo, é apenas um dos incidentes
do movimento com o governo espanhol. A desapropriação
de imóveis aconteceu em Portugal e na Espanha, e agora vemos
o regime comunista húngaro proceder da mesma forma. Externas
ao movimento espírita, surgiram pressões de governos,
especialmente no campo ideológico.
O pensamento espírita, ao não
se alinhar com o fascismo nem com o comunismo, em regimes de exceção,
tornou-se um incômodo relativamente fácil de ser eliminado.
Toma-se o patrimônio e, no caso Ibérico, proíbem-se
as reuniões. Júlia Gyimesi não se aprofunda nas
relações entre o governo e os espírita húngaros,
mas seria bem útil à compreensão da história
do movimento espírita europeu.
No caso francês, temos três
eventos importantes. O ruidoso caso do “processo dos espíritas”,
que foi além da punição de um suposto médium
que possivelmente produzia fraudes, a rejeição sumária
do meio acadêmico ao pensamento e evidências espíritas,
e, por fim falta ainda entender melhor o papel da ocupação
nazista durante a segunda guerra mundial no movimento espírita.
Houve retirada de documentos, como dizem de oitiva os amigos de Canuto
Abreu?
Quanto às semelhanças,
temos o catolicismo em todos esses países, o que deve ter facilitado
a aceitação de trabalhos como “O evangelho segundo
o espiritismo” e a consequente valorização do
estudo dos textos evangélicos. Temos também um periódico
húngaro com a ideia de reforma, em seu título, assim
como o Reformador, da Federação Espírita Brasileira,
não sei se com o mesmo intuito (o das reformas do homem e da
sociedade?).
O aspecto religioso e cristão
do espiritismo não é uma invenção brasileira.
O espiritismo nasceu cristão na obra kardequiana, e se não
se manteve assim na Europa, além dos conflitos internos do
movimento espírita, há um fator ligado à política
europeia e aos conflitos ideológicos que ainda não se
encontra devidamente esclarecido.
Fonte Bibliogáfica
GYIMESI, Júlia. Between religion and
science: spiritualism, science and early psychology in Hungary. International
psychology, practice and research. 2014, v. 5, p. 1-23.