Assim,
tudo é povoado no Universo.
A vida e a inteligência estão por toda
parte:
em globos sólidos, no ar, nas entranhas da
Terra,
e até nas profundezas etéreas.
(A. Kardec, Revue Spirite, 1858)
Imaginemos um Universo
repleto de vida tanto quanto podemos entender materialmente esse conceito.
Vida animal, vegetal, inumeráveis seres, todos eles existindo
conosco no mesmo espaço e tempo. Composição bioquímica
semelhante aos seres vivos que conhecemos. Temperatura, densidade
e mistura da atmosférica, se diferentes, não muito das
condições que existem em nosso planeta.
Um cosmo cheio de vida quase em tudo semelhante à terrena.
Civilizações que chegaram à idade da razão
há muitos bilhões de anos. Todas evoluidas tecnologicamente
ao ponto de vencerem as distâncias imensas que separam as estrelas.
Outros mundos em que as viagens interestelares se tornaram plenamente
possíveis.
Com um Universo tão grande, é razoável imaginar
que essas civilizações antigas levaram muito tempo para
'explorar' inúmeras estrelas, tanto na proximidade dos sistemas
estelares onde floresceram, como em todos os outros. Por maior que
o Universo seja, a multiplicidade de 'habitats' da vida é tão
grande que é inevitável concluir que essas civilizações
entraram em contato entre si. Formando vastas redes de vida inteligente
entre as estrelas, essas civilizações avançadíssimas
eventualmente também encontraram a Terra...
Para eles esse planeta, perdido em algum ponto de seu sistema solar,
é um repositório retardatário de vida, onde seres
ainda pouco avançados sonham em galgar os mesmos passos dos
mundos mais elevados.
Se assim é, então porque a existência desses outros
mundos não foi definitivamente provada? O Paradoxo de Fermi
resume esse quadro como
"a aparente contradição
entre as altas estimativas de probabilidade de existência
de civilizações extraterrestres e a falta de evidências
para, ou contato com, tais civilizações."
[1]
De nada adianta leitores mais convictos
da visita de extraterrestres afirmarem que o Paradoxo já foi
resolvido com as evidências providas pela Ufologia, que é
imensamente rejeitada por acadêmicos. O Paradoxo de Fermi afirma
que, se o Universo estivesse repleto de vida como a nossa, hoje
estaríamos cercados por eles, a ponto de nossa vida e a deles
ser uma coisa só. Esse é o ponto essencial do paradoxo
que também guarda a chave para sua solução.
Como a validade do Paradoxo se fundamenta em determinados princípios,
o mais fundamental deles, o de que a vida (terrena) tenha evoluído
de forma 'onipresente' no Universo, não pode ser válido.
O materialismo, entretanto, pode conduzir a uma negação
muito forte da possibilidade de vida, que é a razão
para que muitos céticos da vida extraterrestre afirmarem que
a Terra é o único planeta habitado no Universo. O argumento
contrário já foi bem explorado por Kardec:
Por que a Terra, pequeno globo imperceptível
na imensidade do Universo, que não se distingue dos outros
planetas nem por sua posição, nem por seu volume,
nem por sua estrutura, pois nem é a maior, nem a menor, nem
está no centro, nem nos extremos, por que, dizia eu, entre
tantas outras, seria ela a única residência de seres
racionais e pensantes? [2]
Como a estatística rejeita
a unicidade da vida terrena, uma resposta possível seria enfraquecer
outros principios auxiliares do paradoxo. Talvez a vida extraterrestre,
desenvolvida tecnologicamente até certo ponto, tenha eliminado
a si mesma em algum grande conflito estelar [3].
Talvez as inúmeras civilizações tenham se aniquilado
quando se encontraram. Ou talvez vida exista, mas o único planeta
onde ela desenvolveu alguma tecnologia para viagens espaciais foi
a Terra.
A resposta do Paradoxo pode assim ser dada enfraquecendo-se uma série
de suas suposições.
Um novo conceito de vida
A revelação espírita,
entretanto, afirma de forma categórica que todos "os globos
que se movem no espaço são habitados":
55. São habitados todos
os globos que se movem no espaço?
“Sim e o homem terreno está longe de ser, como supõe,
o primeiro em inteligência, em bondade e em perfeição.
Entretanto, há homens que se têm por espíritos
muito fortes e que imaginam pertencer a este pequenino globo o privilégio
de conter seres racionais. Orgulho e vaidade! Julgam que só
para eles criou Deus o Universo.”
que esclarece, conforme os própros
Espíritos, as palavras atribuídas a Jesus:
Não se turbe o vosso coração.
– Credes em Deus, crede também em mim. Há muitas
moradas na casa de meu Pai; se assim não fosse, já
eu vo-lo teria dito, pois me vou para vos preparar o lugar.
(João 14, 1-2)
A afirmação não
só confirma a existência de vida disseminada no Universo,
mas também o seu caráter inteligente. Isso reforça
algunas das hipóteses do Paradoxo de Fermi.
Entretanto, o problema maior é o próprio conceito
de vida. Limitados às expressões materiais da Terra,
a vida orgânica é apenas um subconjunto das possibilidades
de ambientes onde a consciência pode se manifestar. E, obviamente,
a extensão do conceito de vida (que é algo ainda a ser
plenamente aceito) atua como obstáculo para entender porque
"supercivilizações alienígenas" teriam
qualquer interesse em explorar sistemática e materialmente
a Terra.
Assim, o primeiro óbice é entender que, constatada a
existência desencarnada, com suas infinitas possibilidades de
manifestação, faz pouco sentido imaginar que civilizações
avançadas teriam interesse em 'explorar materialmente' a Terra.
O planeta, dependente de inúmeros recursos delicadamente arranjados
para que a vida orgânica possa existir, é mais um vasto
mas restrito ambiente para o aprendizado de criaturas materiais em
um estágio muito limitado de evolução - o que
inclui inclusive os animais da Terra (desde bactérias até
o homem).
A existência de vida em formas "não observáveis"
não só garante infinitas possibilidades de vida, mas
permite sua coexistência espacial e temporal conosco. Assim,
o espaço em que vivemos é também a morada de
inúmeros seres que não podemos ainda perceber. As 'moradas'
de que fala o evangelista não se referem apenas a outros planetas,
mas também a outros 'planos' de existência paralelos
ao nosso.
Dito isso, de forma alguma fechamos uma conclusão de que apenas
criaturas invisíveis ou não observáveis formam
vida alienígena. Vida material como a nossa também evoluiu
conforme o quadro que descrevemos no início deste texto. Só
que ela, tendo ultrapassado a fronteira da razão e se dirigido
à angelitude, provavelmente compreende que não há
nenhum sentido na dominação em massa de mundos materiais
que lhe são mais atrasados e que cumprem a lei universal da
evolução estabelecida por Deus, que elas bem sabem preside
a tudo. Assim, é bem possível que evidências de
sua presença entre nós já existam, porém,
acomodadas muito bem a sua própria linha evolutiva e segundo
conceitos de fraternidade Universal, ocultam-se no concerto de forças
naturais que nos rodeiam, sem quaisquer pretenção em
se mostrarem exaustivamente a nós.