Marte
é, sem dúvida, o planeta que mais atraiu a curiosidade
humana. Por ter algumas características físicas semelhantes
à Terra, as primeiras observações telescópicas
desse planeta criaram a expectativa de que ele, de fato, seria habitado.
No ano de 1935, uma série de mensagens mediúnicas
- reunidas na forma de um livro - chamou a atenção
na forma de relatos de uma visita feita por um Espírito desencarnado
da Terra aquele mundo distante. Na época, é importante
que se ressalte, o conhecimento científico (2)
acreditava que Marte poderia ser habitado e que sua superfície
seria riscada por uma rede de canais, talvez criados por algum tipo
de civilização extraterrestre que habitasse o planeta.
Interpretava-se as diferenças de albedo da superfície
marciana como oriundas da presença de água no planeta
ou mudanças de tons na vegetação, ressaltando-se
a presença de calotas polares que mostravam variações
típicas de mudanças de estação.
O texto atribuído à Maria João de Deus
"Paisagem de Marte", do livro "Cartas
de uma Morta" (3), tem
uma seção que descreve a paisagem marciana como observada
pelo Espírito e interpretada pela mediunidade de Chico Xavier.
É importante ressaltar que o livro quase que inteiramente
traz observações feitas por um Espírito desencarnado
e, portanto, não tratam da contraparte "corpórea"
de seu ambiente. Para quem lê o livro com conhecimento espírita,
está bastante claro que as descrições são
desse ambiente espiritual imediato. Além disso, essas descrições
não são as de um geógrafo: trata-se de uma
mente "não acadêmica", tentando relatar o
que viu, sem os rigores esperados de um cientista. Se no desenvolvimento
das ciências comuns dificilmente levamos em consideração
observações de "pessoas comuns" com relação
à fatos científicos, o estado de emancipação
que goza a alma desencarnada não faz dela um cientista também
com relação a esses fatos e, menos ainda, aqueles
que nos são desconhecidos. Temos aqui o primeiro obstáculo
na tentativa de se utilizar os Espíritos como testemunhas
para geração de conhecimento científico relacionado
às ciências materiais.
Por falta dessa compreensão mais dilatada, muito se tem falado
sobre a adequação desse texto ao conhecimento moderno,
com base na visita de recentes sondas espacias que foram até
aquele planeta. Em particular, mentes céticas e sem o conhecimento
espírita interpretam o texto ao "pé da letra"
e imputam um caráter de fantasia a ele (4).
Ignorando o obstáculo que descrevemos anteriormente, admitem
que mensagens espíritas devem conter revelações
científicas em pé de igualdade com os rigores dos
desenvolvimentos e metodologias do campo científico da matéria.
Um exemplo disso pode ser lido no texto (5),
onde seu autor declara:
"As sondas não
mostraram nada de oceanos, canalização, vegetação
e muito menos homens alados em Marte. Por ironia, lá descobriram,
porém as maiores montanhas do Sistema Solar. Ninguém
esperava por isso no século XIX, porque se supunha que
Marte era um planeta “velho”, desgastado pela erosão."
Além disso, ao se comparar
as descrições do Espírito em (3)
com o conhecimento material da questão, temos outro problema.
Apenas por paralelos é que se pode tentar inferir o que um
Espírito desencarnado percebe de sua vizinhança à
descrição dessa mesma vizinhança por um encarnado.
Ora, no estado de liberdade, a sensibilidade e percepção
do Espírito é muito maior (5b)
do que a de um encarnado. Portanto, rigorosamente, não se
pode tomar as impressões de um Espírito como equivalentes
à sua sensibilidade quando encarnado. Temos aqui assim um
segundo obstáculo para o uso das mensagens espíritas
como representando impressões sensíveis equivalentes
a de um encarnado. Em termos simples: se um Espírito e um
encarnado fosse colocados em um mesmo ambiente, eles descreveriam
a cena e os fenômenos nela de forma completamente diferente
e, portanto, dificilmente poderíamos tomar as duas descrições
como equivalentes (6).
Nosso objetivo aqui é fazer uma análise mais adequada
do texto em (3) com referência
ao que era conhecido no século XIX (o texto, porém,
é do ano 1935) e que contrasta com essas análises
céticas apressadas que pregam a inverdade dos textos mediúnicos.
Para isso, utilizaremos alguns trechos de (3)
e referências da rede, tanto da época como atuais,
para demonstrar como é possível dizer que (3)
contém, de fato, mais pontos de revelação e
acordo do que contradições. Isso será feito
levando-se em consideração esses problemas de tradução
e sensibilidade que podem ser encontrados nas mensagens espíritas.
Um comparação
cuidadosa
(Trecho
1)
Percebi, perfeitamente, a existência
de uma atmosfera parecida com a da Terra, mas o ar, na sua composição,
afigurava-se-me muitíssimo mais leve. Assegurou-me então
o Mestre, que me acompanhava, que a densidade em Marte é
sobremaneira mais leve, tornando-se a atmosfera muito rarefeita.
(3, p. 127)

Fig. 2 Imagem da "Mars Global Surveyor"
(2005) mostrando poucas nuvens em Marte.
Usamos aqui apenas os trechos em (3)
que parecem descrever o ambiente físico (a "aerografia")
de Marte. O exemplo do texto acima é desse tipo, embora a
percepção da atmosfera que um Espírito possa
ter seja bastante diferente daquela de um encarnado. Apenas por
um paralelo - comparando-se a impressão de um Espírito
da atmosfera terrestre com a de Marte - é que poderíamos
sugerir que se trata de uma descrição da densidade
atmosférica daquele planeta. Guardando-se essa cautela, concluímos
que a descrição apresentada é correta. A diferença
é imensa em relação a um encarnado: na Terra
podemos respirar perfeitamente, enquanto que em Marte não.
O fato de a atmosfera de Marte ser menos densa do que a da Terra
era conhecida desde o século XIX (6b)
porque Marte é um planeta menor do que a Terra, tendo, portanto,
uma gravidade menor, que não consegue manter sua atmosfera
na mesma densidade que a terrestre.
Com relação à questão da água
e dos canais, é relevante este trecho em (3,
p. 128):
(Trecho
2)
Vi oceanos apesar da água se me afigurar
menos densa e esses mares muito pouco profundos. Há ali
um sistema de canalizações, mas não por obra
de engenharia de seus habitantes, e sim por uma determinação
natural da topografia do planeta que põe em comunicação
contínua todos os mares.
Esse trecho em particular foi usado
em (5) para desqualificar a comunicação.
Acontece que, ainda na década de 1930, a questão dos
canais em Marte era bastante conhecida, estando a opinião
acadêmica não decidida com relação a
sua natureza (2) e existência.
A maior parte das opiniões era favorável à
existência dos canais, que se apresentavam regularmente nas
oposições de Marte e que podiam ser observados (conforme
mostramos em (2)) sob condições excepcionais
de observação. O astrônomo Carl Sagan (1934-1996)
em seu livro "Cosmos" (1980) acreditava que ainda existia
um segredo relacionado aos canais marcianos, mesmo com as visitas
não tripuladas aquele planeta. A comunicação,
entretanto, caracteriza os canais como uma "determinação
natural da topografia", o que deve ser comparado a diversas
imagens recentes (Fig. 3) mostrando
a existência de rios antigos ou canalizações
em Marte. Ressaltamos que tais estruturas eram impossíveis
de serem vistas em 1935 por qualquer tipo de telescópio.
É importante ressaltar: por suas dimensões, esses
leitos de rios não correspondem aos supostos canais marcianos,
popularmente conhecidos até a década de 1960, quando
as missões espaciais revelaram uma nova "aerografia".
Fig. 3 Imagens recentes (ver referências
7a a 7c) mostrando a presença do que parecem ser leitos de
antigos rios em Marte. Essas estruturas eram inobserváveis
com telescópios em 1935 e não correspondem aos supostos
canais marcianos popularmente conhecidos na época.
Mas não há água em
Marte...
Não obstante a visão
de oceanos em Marte, o seguinte trecho traz uma observação
diferente (3, p. 128):
(Trecho 3)
As águas são muito raras.
As chuvas quase que se não verificam, mostrando-se o céu
geralmente sem nuvens. Afirmou-me o protetor que grande
parte das águas desse planeta desapareceram nas infiltrações
do solo, combinando-se com elementos químicos
das rochas, excluindo-se da circulação ordinária
do orbe.
(grifo nosso)
A que se deve a diferença entre o Trecho 2 e 3? Há
várias hipóteses possíveis. Uma delas nos leva
ao terceiro problema relacionado à interpretação
literal de textos mediúnicos: a influência do médium.
É possível que o Trecho 2 tenha sofrido com essa influência,
contrastando com a afirmação da inexistência
de água em Marte. Outra possibilidade é imaginar
que o Espírito interpretou as regiões de menor albedo
da superfície do planeta com sendo oceanos. Isso era, de
fato, o que acreditavam alguns astrônomos até meados
da década de 1960, quando as primeiras sondas espaciais mostraram
que as regiões escuras não eram oceanos. De qualquer
forma, lembrando das ressalvas em relação ao segundo
problema com as comunicações mediúnicas, é
possível que a água descrita no Trecho 2 não
se trate de água no sentido material. Considerando a afirmativa
do Trecho 3, a conclusão é que, em 1935, tínhamos
uma revelação que afirmava a inexistência de
água na superfície de Marte, fato que não estava
de acordo com o que se observava na época - lembrando que
a presença de calotas polares observáveis ao telescópio
indicava que o gelo poderia se converter em vapor d'água
ou água líquida.
Menos conhecida ainda era a possibilidade de que água líquida
teria fluido em Marte, mas desaparecido no solo. De fato, apenas
muito recentemente é que imagens de alta resolução
(como as da Fig. 3) foram obtidas da superfície marciana,
indicando que, há muito tempo atrás, água líquida
existia na superfície de Marte. Portanto, a afirmação
grifada no Trecho 3 é algo verdadeiramente revelador. Dado
o tamanho de Marte, sua gravidade e as condições físicas
necessárias para que água líquida exista em
sua superfície (pressão, densidade e temperatura),
até hoje há quem acredite que água nunca existiu
em Marte. Não obstante a pequenez desse planeta, cientistas
recentemente têm revisto suas teorias. Por exemplo, em (7c),
que data do ano de 2013, podemos ler:
O time da Mars Express
da ESA diz que esse rio fluiu com muita água há
cerca de 3,5 a 1,8 bilhões de anos, durante o período
Hesperiano. Depois disso, a era Amazoniana se iniciou, fazendo
com que o Vale Reull fosse invadido por uma geleira. Essa geleira
moldou o vale onde o rio estava, empurrando dejetos e gelo e criando
os lados bem definidos com se pode ver nessas imagens.
A imagem referenciada é a
da Fig. 3(7c). Portanto, M. J. de Deus parece ter revelado em 1935
algo que apenas recentemente (8) foi
conhecido. Ressaltamos adicionalmente que, na época datada
para a existência de oceanos em Marte (há aproximadamente
3 bilhões de anos), a Terra era um planeta inóspito
e sem vida. Com o passar do tempo, a água que existia se
infiltrou no solo e se combinou com os materiais da superfície,
dando ao planeta a aparência avermelhada (presença
de ferro nas rochas). Essa descrição, entretanto,
só foi conhecida pelos meios científicos depois que
os primeiros robôs pousaram na superfície de Marte.
Em (9), por exemplo, podemos ler:
'Essa é uma evidência
poderosa de que a água interagiu com rochas e mudou a química
e a mineralogia de forma dramática', afirma Steve Squyres
da Universidade de Cornell ao jornal New York Times. Ele é
lider técnico de um time científico da missão
Oportunity. Essa é a evidência mais forte encontrada
de um ambiente marciano passado que pôde ter abrigado vida.
Não há montanhas em Marte...
Se um alienígena fosse trazido
à Terra e deixado em alguma região do deserto do Saara,
acreditaria que nosso planeta não tem montanhas. Isso é
o que provavelmente aconteceu ao Espírito de M. J. de Deus
em (3), conforme se deduz desse outro trecho contendo uma "observação
geográfica" (3, p. 128)
(Trecho
4)
Não vi montanhas, sendo notáveis
as planícies imensas onde os felizes habitantes desse orbe
desempenham suas atividades consuetudinárias.
O Espírito apenas afirma
não ter visto montanhas em Marte. De fato a imagem
da Fig. 1, capturada pelo robô "Spirit" da NASA
confirma essa visão. Descobertas recentes descrevem Marte
essencialmente como um planeta com poucas montanhas. Do ponto de
vista geofísico, montanhas são formadas por obra de
forças tectônicas ou por vulcanismo, não sendo
quaisquer elevações de terreno consideradas como montanhas.
Em Marte, a maior parte das montanhas (mons) tem origem
vulcânica, sendo o terreno descrito como majoritariamente
plano (se comparado à Terra). Por exemplo, Vastitas
Borealis é o nome dado a uma grande planície
que cobre quase que metade de Marte e que se acredita ter sido leito
raso de um antigo oceano (9). Portanto,
não é difícil para alguém deixado aleatoriamente
em algum ponto da superfície de Marte não registrar
a presença dessas estruturas geológicas.
Conclusões
O espírito de prevenção,
má fé ou má vontade pode interpretar literalmente
qualquer texto. No caso das mensagens espíritas - quando
não destinadas a notas sobre a moral e a ética - podem
sofrer de pelo menos três problemas que impedem sua interpretação
literal. Além do problema de interferência mediúnica,
o pouco conhecimento especializado do comunicante aliado a sua alta
sensibilidade podem resultar em descrições que apenas
em alguns trechos são comparáveis ao que esperaríamos
de observações científicas das ciências
da matéria.
Vamos finalmente relembrar que as ciências
da matéria se escoram em teorias para realizar a descrição
dos fenômenos. Essas teorias tem um vocabulário próprio,
com semântica altamente específica. Apenas aqueles
que detêm conhecimento dessa semântica podem descrever
fenômenos físicos aproveitáveis para quem faz
ciência da matéria. Seria muito esperar que um comunicante
espiritual, desprovido desse vocabulário pudesse trazer descrições
que competissem com nossos maiores cientistas. Mesmo assim, algumas
conclusões que fizemos parecem indicar que algo foi revelado
no que diz respeito a aspectos puramente materiais de Marte em (3).
Outras considerações tecidas
pelo cético da referência
(5) também merecem mais comentários,
o que faremos oportunamente em um próximo artigo.