Não há dúvida
que vivemos numa época de grandes inovações
tecnológicas. A começar pelo uso de recursos de imagem
e som e de manipulações de elementos desse tipo, o
que é hoje parte da grande indústria cinematográfica.
Mas, poderiam imagens serem usadas como evidência da realidade
de fenômenos insólitos?
Nossa principal tese neste texto é demonstrar
que a alegação cética que rejeita a proposição
de fotos ou imagens para demonstrar a existência de fenômenos
paranormais (transporte de objetos, telecinese, materializações
etc) também pode ser usada com objetivo oposto: a de negar
a validade da argumentação cética que consideram
tais fenômenos como fraude. Nesse assunto, a solução
não é tão simples como proponentes ou críticos
frequentemente imaginam. A base ou fundamento de nossa tese é
uma concepção apropriada de imagens, filmes e sons
no contexto em que são muitas vezes apresentados.
Veja que não estamos a propor que não existem fraudes.
Mas, diante da complexidade que a Natureza exibe, com uma diversidade
de fenômenos e interações, será que o
'método cético' é realmente eficiente? Será
que ele realmente leva a conhecer a verdade? Será que devemos
apenas acreditar naquilo que nossos sentidos aprovam? Reiteramos
que não é razoável insistir em teorias de fraude
com certas evidências para desqualificar fenômenos considerados
insólitos, que requerem condições especiais
de ocorrência. Justamente por ser muito fácil 'fraudar'
uma evidência, esse tipo de prova não pode ser usada
para se negar um determinado fenômeno, embora seja possível
usá-las para se afirmar dentro de determinadas circunstâncias.
Do ponto de vista lógico, assim, muitos céticos não
percebem que as condições que pregam para 'validar'
o que considerariam contra-evidências, extrapola certos aspectos
lógicos não explícitos em cada caso, tornando-se
uma tentativa condenada desde o princípio.
Prova fotográfica
Para começar, analisemos o que é uma 'prova' fotográfica.
Uma vez que recursos técnicos podem ser usados para múltiplas
imagens, as mesmas considerações que fazemos aqui
para fotos também valem para filmes. A fig.1 abaixo mostra
uma imagem razoavelmente compreensível de um evento singular.
Trata-se da imagem de um avião 'tentando' decolar mas demonstrando
certa dificuldade, talvez na iminência de um desastre total.
Se nos perguntarmos sobre a 'validade' dessa imagem, uma pesquisa
feita com a maioria das pessoas não demonstraria nenhuma
dificuldade em aceitar que se trata, realmente, de um avião
tentando decolar com dificuldade, com parte de sua asa quebrada
etc. Em suma, um flagrante de um acidente.

Fig. 1 Um avião na iminência de
um desastre?
Entretanto, essa imagem é uma fotomontagem
(isto é, uma fraude). Ela é o produto de alterações
feitas por um programa de computador que é capaz de manusear
parcelas da imagem e integrá-las de forma a constituir um
todo final convincente.
Uma imagem está assim longe de ser uma evidência autosuficiente.
Há algo mais, externo à foto que deve existir para
que seja considerada verdadeira. O que é isso? Uma pista
para conhecer esse algo mais é se questionar sobre onde esse
algo fica. A resposta simples é que ele fica na cabeça
de quem vê a imagem. Por causa disso, uma imagem ou reprodução
fotográfica de um objeto externo não existe por si
mesma:
I) Uma imagem ou filme é,
em essência, uma representação de um objeto
que só existe na mente de quem o contempla.
É importante que esse 'algo'
realmente 'exista', onde por 'existir' entendemos a noção
interna de quem observa, que obrigatoriamente teve uma experiência
sensorial com o objeto representado. Podemos clamar sobre a existência
de outros tipos de entidades não sensoriais, que existem
sem nenhuma relação com nossos sentidos. Mas, então,
o que seria uma imagem ou foto de uma entidade desse tipo? Quanto
mais próximo a representação dessa 'coisa'
estiver da experiência sensorial, tanto mais realística
será a impressão causada, tanto maior será
a 'força' expressiva da representação, tanto
maior será a crença na validade da representação.
Alguns fatos validam essa noção:
- Uma vez que as crianças - principalmente com menos de
5 anos de idade - ainda não tem experiência sensorial
plenamente formada, elas tendem a ver o mundo de forma diferente
dos adultos. A 'representação da realidade' para
as crianças não precisa ter os mesmos detalhes de
um adulto. Desenhos simples ou bonecos já são suficientes
para se manipular conceitos e idéias na mente infantil;
- A busca pelo realismo incentiva o desenvolvimento de novas
tecnologias, como a do cinema ou televisão 3D;
- Ilusões de óptica: a existência de imagens
dúbias e mutantes sugere que o que se vê está
mais dentro da mente do que fora;
Exemplo de Ilusões de
óptica: o que se vê depende do que estamos acostumados
a ver.
Esta imagem não é um 'gif' animado.
Onde está a verdade então
sobre a foto que analisamos? Sendo a representação
de um objeto externo, não temos dificuldades em identificar
do que se trata. Ainda que não tenhamos contemplados fisicamente
decolagem de aviões, já os temos visto muitas vezes
em outras ocasiões, seja na tv ou e filmes de cinema ou internet
que também são representações assertivamente
válidas no contexto em que são apresentadas.
Surge assim o segundo elemento importante em nossa análise:
II) O contexto de uma imagem
ou filme é o segundo elemento que determina a escolha que
o observador faz internamente sobre a validade
da representação (imagem ou vídeo).
Em outras palavras, não é
razoável que duvidemos de toda e qualquer foto ou filme de
desastre de avião só porque mostramos um exemplo forjado.
Nosso princípio I não é suficiente para garantir
a validade da representação apresentada como imagem.
Desastres de avião são eventos raros e mais rara ainda
é a chance de se registrar um evento desse tipo. O fato de
ser fácil forjar imagens de desastres de avião utilizando
tecnologia de ponta não significa que tais desastres não
ocorram ou que seja impossível registrá-los.
Esse é um exemplo clássico que demonstrar a dificuldade
de se utilizar evidências de foto ou filme em determinados
casos. Imagine que, se para 'demonstrar' que desastres de aviões
existem, tivéssemos que reproduzir essa ocorrência
em seus mínimos detalhes para convencer os céticos
desses desastres.
Aplicação para fenômenos
insólitos

Fig. 2 'Raio verde'. Fenômeno raro que pode
ocorrer durante o ocaso ou nascer do sol.
No que segue, por 'fenômenos
supostamente insólitos' não nos referimos apenas aos
fatos registrados na fenomenologia psíquica. Um fenômeno
supostamente insólito parece ter as seguintes características: