"Acho que o mais importante defeito dele...
era que quase tudo nele era falso."
A. J. Ayer, principal defensor do Positivismo lógico
na Inglaterra, sobre o Positivismo lógico
Muita gente acha que filosofia é
perda de tempo, um conhecimento que serve a 'gente metida' ou intelectuais
com pouco senso prático. Na verdade, todas as nossas ações
e decisões se baseiam em motivações interiores
que, muitas vezes, são derivadas de crenças e suposições
que são objeto de estudo da filosofia. Uma vez que tomamos
contato com as várias doutrinas filosóficas que existem,
podemos compreender melhor porque as pessoas agem de determinada
maneira, e até mesmo, prever seu comportamento.
Esse é o caso do pseudoceticismo
ou ceticismo dogmático que tem sido objeto de nossas análises
aqui. Podemos nos perguntar: quais são os seus fundamentos
filosóficos? A resposta não pode ser outra: o positivismo
lógico e o indutivismo ingênuo.
Os positivistas lógicos descrevem
o mundo como derivado dos sentidos. Para eles só há
sentido em estudar aquilo que esteja diretamente acessível
aos sentidos humanos, fornecendo uma visão de mundo essencialmente
fundamentada no 'empirismo'. Acreditamos que o positivismo lógico
foi uma resposta ao excesso de cuidados com conceitos e ideias que
não tem suporte empírico, mais particularmente contra
aqueles objetos da teologia dogmática. Historicamente, sabemos
que o positivismo lógico (nascido no assim denominado 'círculo
de Viena' na década de 1920) foi uma resposta à filosofia
de Hegel.
Um positivista lógico acredita
que evidência observacional é indispensável
para uma descrição correta do mundo. Na verdade, ele
vai mais além e só acredita naquilo em que se possa
fornecer uma evidência empírica. Portanto, a descrição
positivista do mundo é uma descrição necessariamente
pública que despreza entidades que não sejam publicamente
acessíveis.
Essa visão positivista tem
reflexo imediato nas decisões de investimentos de pesquisa.
Uma vez que recursos são escassos, é razoável
que o modo 'positivista' de ver o mundo tenha maior influência,
já que ele acaba por significar risco menor ao investimento.
Parece ser muito menos arriscado investir dinheiro em pesquisas
sobre objetos que sejam diretamente acessíveis aos sentidos
(que se pode ver, tocar, ouvir ou perceber) do que com aqueles que
não são.
Hoje em dia, o positivismo lógico
originalmente criado no círculo de Viena não é
mais defensável. A física moderna, a genética
e outros ramos da Ciência demonstraram que, para que teorias
científicas tenham sucesso, é preciso postular a existência
de entidades que não são diretamente acessíveis
aos sentidos. Se tais entidades existem ou não é outro
problema, bem mais complexo, que o leitor pode aprender buscando
por textos sobre o 'realismo científico'. Por isso, o positivismo
se transformou, e antes o que era tomado como 'necessidade de evidência
dos sentidos' é hoje substituído por 'evidências
empíricas' dentro do chamado 'método científico'.

No desenvolvimento e justificação desse método,
os neopositivistas são guiados pelo indutivismo,
que se tornou outro fundamento para o ceticismo dogmático.
Por 'indutivismo' queremos dizer uma postura filosófica que
aceita que o conhecimento pode ser gerado a partir do amontoado
de evidências ou observações de fatos singulares.
Acredita-se que conhecimento científico genuíno e
altamente confiável possa ser criado a partir da observação
de um número finito de fatos, desprezando-se o papel que
teorias têm na orientação e condução
de experimentos ou proposição de observação
de fatos. Para o indutivista, as teorias são, na verdade,
o resultado do processo de fazer ciência e não tem
outro papel a desempenhar. Embora tal postura já tenha sido
conclusivamente rejeitada, ela tem grande influência na maneira
como o processo de se fazer ciência é defendido popularmente,
embora seja duvidoso que tenha qualquer influencia na maneira
como Ciência de qualidade é gerada.
Analisemos, por exemplo, a frase
abaixo, traduzida de seu original em inglês. Essa frase foi
tirada da 'rationalwiki' um site semelhante à enciclopédia
wiki mas que se auto intitula 'racional':
Em geral, fenômenos paranormais
colocam-se fora do que seria normalmente esperado ocorrer no mundo
real. Além disso, tais fenômenos não podem
ser reproduzidos sob condições controladas e, portanto,
não podem ser investigados pelo método científico.
Por essa razão, eles são classificados como pseudociência.
(em http://rationalwiki.org/wiki/Paranormal)
Por que a ênfase na reprodutibilidade
e controle? Porque o indutivista acredita que o processo
de indução só funciona sob determinadas condições,
a mais importante delas é a necessidade de um grande
número de observações.
Vejamos um exemplo:

Bares noturnos são lugares ideais para
se comprovar a tese
de que muitos brasileiros são bêbados.
Suponhamos que alguém todas
as sextas-feiras, em determinado horário à noite visitasse
grande quantidade de bares ou casas noturnas em uma grande metrópole
no Brasil e verificasse a presença de pessoas embriagadas.
Ele então visitaria outras capitais, sempre à noite,
aos sábados e verificaria ainda mais pessoas embriagadas.
De acordo com o processo indutivista de fazer ciência, seria
autorizado a esse pesquisador enunciar a lei:
"Os brasileiros
são bêbados em geral".
Note que, para que a afirmação tenha valor, não
é suficiente observar um grupo pequeno de brasileiros se
embriagando, mas muitos, talvez milhares, o que é facilmente
atingido ampliando a 'base de dados' ou pesquisa de campo.
Além disso, faz parte da
crença indutivista pensar que os dados
ou os fatos contem em si tudo o que é necessário para
se chegar ao enunciado final ou teoria. Assim, de acordo
com tal princípio de 'objetivação dos fatos',
o pesquisador não pode fazer qualquer consideração
adicional (como, por exemplo, sobre as razões para pessoas
beberem em bares à noite) sob pena de ser acusado de parcialidade
ou de ser 'tendencioso' em sua pesquisa.
Por que essas considerações
são importantes? Porque na defesa de explicações
para a fenomenologia dos chamados 'eventos paranormais' (quer dizer,
fenômenos espíritas), somos constantemente bombardeados
com acusações pseudocéticas da necessidade
de 'reprodutibilidade' de experimentos. Isso acontece justamente
por influência da crença indutivista que, não
tendo papel a desempenhar no desenvolvimento da Ciência
(como mostram estudos em História) é invocada para
invalidar os fatos ou negar o status de ciência a qualquer
teoria ou explicação para esses fatos (que transcendam
às explicações populares de embuste ou fraude).
Os fenômenos espíritas
(a maioria girando em torno das faculdades mediúnicas) são
eventos que exigem condições especiais para ocorrência.
Tais condições singulares são apreendidas quando
a teoria desses fenômenos é compreendida. Somente assim
é possível 'desenhar' experimentos que possam ser
repetidos até certo ponto. A confirmação de
resultados no campo da pesquisa dos fenômenos espíritas
é possível, sem a necessidade de um número
arbitrário de repetições. Tais confirmações
foram feitas no passado e apontam para a excelência das explicações
que sustentam a continuidade da existência para além
do corpo físico, e postulam a existência de entidades
não observáveis de forma muito mais direta que muitas
teorias da física ou da biologia o fazem para determinados
fenômenos raros e inacessíveis ao laboratório.
Quanto mais próximos estivermos
da verdade com relação às origens e causas
desses fenômenos, tanto mais aptos estaremos para reproduzí-los
e aproveitá-los de forma coerente e responsável. Isso
explica porque, em um ambiente onde prevaleça o ceticismo,
a descrença e o deboche dessas ocorrências, elas dificilmente
poderão ser observadas e, muito menos, explicadas.