A maioria absoluta dos espiritualistas está sempre disposta
a investir (este é o termo exato) em obras assistenciais, mas
revela o maior desinteresse pelas obras culturais. Apegam-se os religiosos
de todos os matizes à tábua de salvação
da caridade material, aplicando grandes doações em hospitais,
orfanatos e creches, mas esquecendo-se dos interesses básicos
da cultura. Garantem os juros da caridade no após-morte, mas
contraem pesadas dívidas no tocante à divulgação,
sustentação e defesa de princípios fundamentais
da renovação da cultura planetária.
A imprensa, a literatura, o ensaio,
o estudo, a fixação das linhas mestras da nova cultura
terrena ficam ao deus-dará. Falta uma tomada de consciência,
particularmente no meio espírita, da responsabilidade de todos
na construção e na elaboração da Nova
Era, que é trabalho dos homens na Terra. Ninguém ou
quase ninguém compreende que sem uma estruturação
cultural elevada, sem estudos aprofundados no plano cultural, que
revelem as novas dimensões do mundo e do homem na perspectiva
espírita, o espiritismo não passará de uma seita
religiosa de fundo egoísta, buscando a salvação
pessoal de seus adeptos, precisamente aquilo que Kardec lutou para
evitar.
A finalidade do espiritismo, como
Kardec acentuou, não é a salvação individual,
mas a transformação total do mundo, num vasto processo
de redenção coletiva. Proporcionar aos jovens uma formação
cultural apoiada na mais positiva e completa base espiritual, que
mostre a insensatez das concepções materialistas e pragmatistas,
dando-lhes a firmeza necessária na sustentação
e defesa dos princípios doutrinários, não é
só caridade, mas também realização efetiva
dos objetivos superiores do espiritismo nesta fase de transição.
Sem esse trabalho não poderemos avançar com segurança
e eficácia na direção da Era do Espírito.
Temos de dar às novas gerações a possibilidade
de afirmarem, diante do desenvolvimento das ciências e do avanço
geral da cultura, como disse Denis Bradley: “Eu não creio,
eu sei!” Porque é pelo saber, e não pela crença,
pela fé racional e não pela fé cega, pelo conhecimento
e não pelas teorias indemonstráveis, que o espiritismo,
como revelação espiritual, terá de modelar a
nova realidade terrena, apoiado na confirmação científica,
pela pesquisa, dos seus postulados fundamentais. A revelação
humana confirma e comprova a revelação divina.
Esse é o problema que ninguém
parece compreender. Todos sonham com o momento em que a ciência
deverá proclamar a realidade do espírito. Mas essa proclamação
jamais será feita, se a ciência espírita não
atingir a maioridade, não se confirmar por si mesma, podendo
enfrentar virilmente, no plano da inteligência e da cultura,
a visão materialista do mundo e a concepção materialista
do homem. Por isso precisamos de universidades espíritas, de
institutos de cultura espírita dotados de recursos para uma
produção cultural digna de respeito, de laboratórios
de pesquisa psíquica estruturados com aparelhagem eficiente
e orientados por metodologia segura, planejada e testada por especialistas
de verdade, capazes de dominar o seu campo de trabalho e de enfrentar
com provas irrefutáveis os sofismas dos negadores sistemáticos.
É uma batalha que se trava, o bom combate de que falava o apóstolo
Paulo, agora desenvolvido com todos os recursos da tecnologia.
Chega de pieguice religiosa, de palestras
sem fim sobre a fraternidade impossível no meio de lobos vestidos
de ovelhas. Chega de caridade interesseira, de imprensa condicionada
à crença simplória, de falações
emotivas que não passam de formas de chantagem emocional. Precisamos
da Religião viril que remodela o homem e o mundo na base da
verdade comprovada. Da caridade real que não se traduz em esmolas,
mas na efetivação da fraternidade humana oriunda do
conhecimento de nossa constituição orgânica e
espiritual comuns, ou seja, da inelutável igualdade humana.
De exposições sábias e profundas dos problemas
do espírito, nascidas da reflexão madura e do estudo
metódico e profundo. Temos de acordar os dorminhocos da preguiça
mental e convocar a todos para as trincheiras da guerra incruenta
da sabedoria contra a ignorância, da realidade contra a ilusão,
da verdade contra a mentira. Sem essa revolução em nossos
processos não chegaremos ao mundo melhor que já está
batendo, impaciente, às nossas portas.
Não façamos do espiritismo
uma ciência de gigantes em mãos de pigmeus. Ele nos oferece
uma concepção realista do mundo e uma visão viril
do homem. Arquivemos para sempre as pregações de sacristão,
os cursinhos de miniaturas de anjos, à semelhança das
miniaturas japonesas de árvores. Enfrentemos os problemas doutrinários
na perspectiva exata da liberdade e da responsabilidade de seres imortais.
Reconheçamos a fragilidade humana, mas não nos esqueçamos
da força e do poder do espírito encerrado no corpo.
Não encaremos a vida cobertos de cinzas medievais. Não
façamos da existência um muro de lamentações.
Somos artesãos, artistas, operários, construtores do
mundo e temos de construí-lo segundo o modelo dos mundos superiores
que explendem nas constelações.
Estudemos a doutrina aprofundando-lhe
os princípios. Remontemos o nosso pensamento às lições
viris do Cristo, restabelecendo na Terra as dimensões perdidas
do seu Evangelho. Essa é a nossa tarefa.