Encarando-o por uma perspectiva puramente
cultural, o Espitismo é filho da era científica. No
plano religioso, ele se apresenta como o desenvolvimento histórico
do Cristianismo. Numa visão espiritual, é a III Revelação
do processo judeu-cristão, prometida pelo próprio Cristo,
para quando os homens estivessem em condições de compreendê-lo.
Esta colocação do problema espírita é
suficiente para mostrar sua complexidade e, ao mesmo tempo, revelar
a leviandade dos que procuram denegrí-lo sem o conhecer. Proponho-me
a tratar aqui do problema específico da Ciência Espírita,
essa desconhecida. Mas, como é natural em se tratando de doutrina
tão complexa e admiravelmente estruturada, serei obrigado,
de vez em quando, a me referir aos problemas de outras áreas,
que se ligam à questão científica.
Muitas pessoas me perguntam, quando me refiro a essa questão:
"Que ciência é essa?" Em geral, considera-se
o espiritismo como uma espécie de seita religiosa. Entre os
próprios espíritas, fala-se muito em Ciência Espírita,
mas ninguém sabe explicar do que se trata. É natural
que isso aconteça, num país em que só agora o
nível cultural do povo está se elevando, o que não
permitiu o real desenvolvimento dos estudos espíritas, sempre
realizados de maneira canhestra, sem o método e o rigor ncessários.
Mas, o tempo chegou, e nele estamos, em que as imprecisões
e as confusões devem ser superadas o mais depressa possível.
Não tenho a pretensão de ser mestre no assunto, mas
estou seguro de conhecê-lo o suficiente para corresponder à
confiança do amigos do Jornal Espírita, que me convidaram
a tratar do assunto. Tudo farei para acertar e me considerarei muito
feliz, se os leitores quiserem me ajudar com suas sugestões
e suas correções, no caso de algum deslize. No Espiritismo,
somos todos aprendizes e devemos ajudar-nos mutuamente, sem vaidade
e sem melindres, se quisermos tocar com a ponta dos dedos a fimbria
da túnica da Verdade. Vamos aos fatos.
Parece-me bastante clara a posição de Kardec, ao afirmar
que as Ciências, até o seu tempo, só tratavam
de questões materiais, deixando às religiões
os problemas espirituais. Essa anomalia chegou até os nossos
dias, apoiada em pressupostos filosóficos, como os do criticismo
de Kant, que negavam a possibilidade de conhecermos racionalmente
as questões fundamentais do espírito. Mas agora, as
coisas se modificaram, diante dos resultados surpreendentes do avanço
científico do nosso século. E o importante é
que esses resultados confirmam o acerto de Kardec, ao tratar da necessidade
de uma Ciência do Espírito que, segundo ele afirmava,
deve andar de mãos dadas com a Ciência da Matéria.
A lógica de Kardec é irretorquível. Toda a realidade
que conhecemos decorre de um processo dialético produzido pela
relação constante e a universal interação
de espírito e matéria. Nada é só espírito
e nada é só matéria. Desde o átomo até
às galaxias, às constelações no Infinito,
o Universo conhecido se apresenta como o resultado da ação
do espírito sobre a matéria e da reação
desta sobre aquele. É um equívoco a luta ideológica
entre Materialismo e Espiritualismo. A Ciência, no pleno sentido
do termo, não pode limitar-se apenas a um dos aspectos da realidade.
Essa posição de Kardec seria suficiente para mostrar
a grandeza do seu gênio, mas os homens de ciência, apegados
a uma terminologia rígida, entenderam que Kardec se enganava,
tomando o que chamavam de força ou energia por espírito,
além disso, convencidos de que os problemas espirituais pertenciam
ao passado supersticioso da humanidade, revoltaram-se com a pretensão
de Kardec e passaram a tratá-lo como um visionário.
Um século depois, vemos a Ciência da Matéria tocando,
com os dedos trêmulos de Tomé, as chagas da verdade crucificada,
que ressuscita em seu corpo espiritual. Naturalmente, há resistência
no campo científico e os sabichões (como Richet os classificou)
continuarão ainda por muito tempo a bater a cabeça contra
o muro da evidência. Mas, o número de cientistas que
aceitam hoje a tese de Kardec (mesmo sem conhecê-la) aumenta
sem cessar em todo o mundo, até mesmo as áreas do materialismo
estatal. Chegará o momento, já bem próximo, em
que os sabichões também terão de curvar-se ante
a verdade evidente.
A Ciência Espírita não tem por finalidade combater
ou superar a Ciência da Matéria, mas apenas dar-lhe as
mãos para um trabalho em conjunto. As questões científicas
não se resolvem com palavras, através da pesquisa. E
a pesquisa científica não pode furtar-se à realidade
dos seus próprios resultados.
As conquistas mais recentes da pesquisa científica material
levaram a cultura do século a uma encruzilhada decisiva. O
fantasma do Espiritismo, que só assustava as religiões,
está agora transformando os laboratórios científicos
em casas mal-assombradas. Mas, como os cientístas em geral
não acreditam em assombrações, nem tem o Diabo,
é de esperar-se que o fantasma seja bem sucedido nessas incursões.
Os verdadeiros cientistas acabarão fazendo-se amigos e companheiros
desse intrujão. Como previu Sir Oliver Lodge, homens e espíritos
passarão a trabalhar juntos.
Obs: J. Herculano Pires desencarnou
em 09 de março de 1979.