A inquietação
do mundo atual, na busca de novas soluções para
os problemas humanos, abrange todos os setores de nossas atividades
e teria necessariamente de afetar o meio espírita. Mas
a nossa Doutrina não é uma realidade entranhada
nas estruturas atuais. É um arquétipo carregado
de futuro, um vir-a-ser que se projeta precisamente no que ainda
não é, na rota das aspirações em demanda.
Confundi-la com as estruturas peremptas deste momento de transição
e querer sujeitá-la às normas e modelos do que já
foi, é tentar prendê-la no círculo vicioso
dos abortos culturais. O Espiritismo, rejeitado pelo mundo agora
agonizante, não é cúmplice nem herdeiro,
mas vítima inocente desse mundo, como Jesus e o Cristianismo
o foram no seu tempo.
Se não tomarmos consciência dessa realidade histórica,
com a lucidez necessária, não saberemos como sair
do labirinto em que o Minotauro nos espera. O fio de Ariadne,
da salvação, está nessa tomada de consciência.
Na verdade, não é o fio mitológico, mas o
fio racional das proposições doutrinárias
de Kardec, limpidamente científicas.
A prova disso ressalta aos olhos dos estudiosos e dos pesquisadores
experientes, que não se deixam levar pelo sopro da vaidade
em seus precários balões de ensaio. Porque a hora
é propícia às inovações nefelibáticas
do tipo de Rabelais. Para andar nas nuvens os nefelibáticos
não precisam mais de subir ao céu, basta-lhes tomar
o elevador de um arranha-céu.
Não podemos adaptar o Espiritismo às exigências
dos que negaram e negam a existência dos espíritos,
aviltando o princípio inteligente e a razão nas
correntes de Prometeu.
A Revelação Espiritual veio pelo Espírito
da Verdade, mas a Ciência Espírita (revelação
humana) foi obra de Kardec. Ele mesmo proclamou essa distinção
e se entregou de corpo e alma ao trabalho científico, sacrificial
e único de elaboração da Ciência Admirável,
que Descartes percebeu por antecipação em seus famosos
sonhos premonitórios. Cientista, Pedagogo, diretor de estudos
da Universidade de França, médico e psicólogo
(1),
ele se serviu de sua experiência e seu saber onímodo
para organizar a Nova Ciência, que se iniciara desdobrando
as dimensões espaciais e humanas da Terra. Em meados do
Século XIX, às portas do grande avanço científico
do Século XX, os cientistas ainda não percebiam
a sua total ignorância da estrutura real do planeta, de
suas várias dimensões físicas e de sua população
oculta. O peso esmagador da tradição teológica,
com sua ciência infusa escorada na Bíblia judaica,
vendava os olhos da Ciência, que tinha de andar às
cegas como a própria justiça humana. Essa Ciência
trôpega e bastarda, não obstante os seus pressupostos
atrevidos, contava em seu seio com os pioneiros do futuro. À
frente desses pioneiros se colocou Kardec, dotado de uma coragem
assustadora, que lhe permitiu enfrentar com a insolência
dos gênios todas as forças culturais da época.
Graças à sua visão genial, o solitário
da Rua dos Mártires conseguiu despertar os maiores cientistas
do tempo para a realidade dos fenômenos espíritas,
hoje estrategicamente chamados paranormais. Fundou a Sociedade
Parisiense de Estudos Espíritas como entidade científica
e não religiosa. Dedicou-se a pesquisas exaustivas e fundou
a Revista Espírita para divulgação
ampla e sistemática dos resultados dessas pesquisas. Sua
coragem serviu de amparo e estímulo aos cientistas que,
surpreendidos pela realidade dos fenômenos, fizeram os primeiros
rasgos na cortina de trevas que cercava as mais imponentes instituições
científicas. Foi para contestá-lo e estigmatizá-lo
como inimigo das Ciências, comparsa dos bruxos medievais,
restaurador das superstições, que cientistas como
Crookes, Schrenk-Notzing, Richet e outros resolveram atender aos
apelos angustiados das Academias e Associações científicas.
Dessa atitude corajosa resultou o escândalo das batalhas
que romperam o impasse científico, revelando que o bruxo
agia com o conhecimento e a segurança dos mais reputados
cientistas. Era impossível desmenti-lo ou derrotá-lo.
Kardec rompera definitivamente as barreiras dos pressupostos para
firmar em bases lógicas e experimentais os princípios
da Ciência Admirável dos sonhos de Descartes e das
previsões de Frances Bacon. A metodologia científica,
minuciosa e mesquinha, desdobrou-se no campo do paranormal e aprofundou-se
na pesquisa do inteligível com audácia platônica.
Kardec não se perdeu, como Wundt, Werner e Fechner, no
sensível das pesquisas epidérmicas do limiar das
sensações. Percebeu logo que os métodos não
podiam ser aplicados a fenômenos extrafísicos e estabeleceu
o princípio da adequação do método
ao objeto. Quando alguns membros da Société Parisien
quiseram desviá-lo para a pesquisa biofísica das
materializações, ele se recusou fazê-lo, alegando
que essa tarefa cabia aos especialistas das ciências materiais.
Os objetivos que perseguia eram psicológicos, por isso
deu à Revue Spirite o subtítulo
de Jornal de Estudos Psicológicos.
Quando Zöllner, em Leipzig, realizou suas pesquisas psicofísicas
com o ectoplasma e o problema da quarta dimensão, tornou-se
evidente que o mestre estava no caminho certo. Era preciso penetrar
nos segredos da alma, deixando para os físicos as questões
materiais. Sua firmeza metodológica denunciava o gênio
de visão segura e posição inabalável.
Ele criava, como declarou, a Ciência dos Espíritos,
sua natureza, suas relações com a matéria
e com os homens. Se não foi colocado oficialmente entre
os pioneiros da Ciência, foi porque a sua posição
era de rebeldia consciente e declarada contra o materialismo científico.
Afirmava em seus escritos e palestras que os cientistas se empolgavam
com o campo objetivo dos efeitos materiais, fugindo à pesquisa
das causas profundas como o Diabo fugia da cruz. Mais tarde Richet,
o fisiologista implacável, reconheceria o rigor das suas
pesquisas, a firmeza da sua posição, sem as quais
a Ciência não se libertaria da poeira da terra. Kant
lhe opunha a barreira de sua autoridade ao afirmar que a Ciência
só era possível no plano dialético. A proposição
kantiana pesa até hoje na limitação das atividades
científicas. Mas a audácia de Kardec o levou à
vitória. Richet observou, numa carta histórica a
Ernesto Bozzano, o grande metapsiquista italiano, que a posição
kardeciana deste contrastava decisivamente com as teorias
que atravancam o caminho da Ciência.
As teorias podem ser as mais brilhantes - como observou Bozzano
-, mas não podem prevalecer contra a realidade dos fatos.
E Lombroso, que combatera tenazmente a volta às superstições,
acabaria se penitenciando do seu erro nas páginas da revista
Luce e Ombra, de Milão. Os frutos da tremenda
batalha kardeciana começavam a modificar a mentalidade
científica temerosa dos absurdos teológicos. Kardec
provara que as Ciências não deviam temer os fantasmas,
mas enfrentá-los e explicá-los. Nenhuma autoridade
era mais elevada, para ele, do que a realidade dos fatos comprováveis
pela experiência científica e objetiva das pesquisas.
Os cientistas mais audaciosos aprenderam com ele a superar os
condicionamentos do formalismo acadêmico e enfrentar o mundo
como ele é. Richet reconheceria, no Tratado de Metapsíquica,
que Kardec jamais fizera uma afirmativa que não tivesse
sido provada pelas pesquisas. O criador da Ciência atual
e de sua metodologia eficiente e eficaz, queiram ou não
os alérgicos ao futuro, na ex- pressão recente de
Remy Chauvin, foi precisamente Kardec, o homem do século
XIX que revelou, numa batalha sem tréguas, estes dois princípios
fundamentais da nossa mundividência:
1) A realidade é
una e indivisível, firmada na Unidade Pitagórica
que se revela na multiplicidade da Década;
2) Tudo se encadeia no Universo, sem solução de
continuidade. Os que tentam fragmentar essa unidade orgânica
estão presos às falíveis condições
do sensório humano.
No desenvolvimento atual
das Ciências, muitas cabeças gregas e troianas formularão
novas, fascinantes e complexas teorias, mas só prevalecerão
as que forem sancionadas pelas profecias fatais de Cassandra.
O fatalismo, no caso, não decorre da natureza trágica
das previsões, mas da comprovação dos fatos.
A figura de Kardec continua suspensa sobre o panorama científico
atual como o orientador indispensável dos novos caminhos
do conhecimento, na rota cósmica das constelações.
Em recente congresso realizado em Moscou, provocado pelas controvérsias
sobre a descoberta do corpo bioplásmico do homem, Kardec
foi considerado como um racionalista francês do século
XIX que antecipou diversas conquistas da tecnologia moderna. Nossos
jornais noticiaram a realização desse congresso,
mas os dados a respeito foram escassos. Pesava sobre o congresso
a suspeição de atitudes que pudessem perturbar as
relações entre a Ciência Soviética
e os interesses básicos da ideologia fundamental do Estado.
Na Romênia marxista a Parapsicologia mudou de nome, passando
a chamar-se Psicotrônica, e isso com a finalidade declarada
de aproximar das ciências paranormais os materialistas mais
ferrenhos ou mais cautelosos, que não desejam ver-se envolvidos
em complicações espíritas. Todos esses fatos
provam que a Ciência Admirável elaborada pelo bruxo
parisiense continua a pesar nas preocupações e no
desenvolvimento da Ciência atual, que avança inelutavelmente
sobre o esquema científico de Kardec. Este é o fato
mais significativo dos nossos dias, que os espíritas não
podem ignorar. As próprias pesquisas da Astronáutica
têm seguido - sem querer e sem saber - o esquema de Kardec
na Société Parisien. Das comunicações
mediúnicas de Mozart, Bernard Pallissy, Georges e outras
entidades, na Société, referindo-se à Lua,
a Marte e Júpiter, até a remessa de homens à
Lua e sondas soviéticas e norte- americanas a Marte e Júpiter
mostram que o mapa das incursões possíveis foi decalcado,
de maneira inconsciente, mas evidente, no mapa kardeciano. Além
disso, as próprias descrições desses corpos
celestes, feitas pelos espíritos comunicantes em Paris,
que Kardec considerou com reservas, têm geralmente coincidido
com os dados atuais das pesquisas astronáuticas. No tocante
à Lua há um problema referente à sua posição
na órbita em torno da Terra. Mas Kardec acentuou, no seu
tempo, com o apoio do famoso astrônomo Flammarion, que os
dados espirituais davam a única teoria existente na época
sobre o problema. O esquema kardeciano não foi feito intencionalmente.
Resultou de comunicações espirituais espontâneas,
que Kardec recebeu com reservas, acentuando que esse fato não
se enquadrava nas pesquisas da Société e eram recebidos
como curiosidades significativas, sujeitas a confrontos futuros
no processo de desenvolvimento das Ciências.
Também nessa atitude evidencia-se o critério científico
de Kardec, interessado nos casos gratuitos, mas reservando a sua
verificação real ao futuro. Aos que, na época,
entusiasmados com essa possível revelação
de problemas cósmicos, diziam a Kardec que as utopias de
hoje se realizam no amanhã, Kardec respondia que deviam
esperar a transformação das utopias em realidade
para depois as aceitar. Os dados positivos, os fatos, a realidade
evidente e a lógica de clareza meridiana eram os elementos
preferenciais do seu trabalho. Suas obras nos mostram a limpidez
clássica do pensamento francês. Era o mestre por
excelência. Sua didática ressalta de toda a sua obra.
Richet lhe censurou a aparente facilidade com que aceitava a realidade
dos fenômenos mediúnicos e da vida após a
morte, mas acabou reconhecendo que ele nunca fizera uma só
afirmação que não estivesse respaldada pelas
pesquisas. Não dispunha dos recursos atuais da pesquisa
tecnológica, mas tocou a verdade com a ponta dos dedos,
como Tomé. Tudo quanto afirmou no seu tempo permanece válido
até hoje. A instabilidade das hipóteses e das teorias
científicas não existiu para ele. Os cientistas
atuais não conseguiram abalar o edifício das suas
conclusões. Giram ainda hoje como borboletas noturnas em
torno da sua lâmpada e acabam queimando as asas no fogo
da sua verdade mil vezes comprovada em todo o mundo.
Esse problema da comprovação é freqüentemente
levantado pelos contraditores da doutrina e até mesmo por
adeptos pouco informados, que alegam a impossibilidade de repetição
dos fenômenos para atender às exigências do
método científico. Com esse velho chavão
nas mãos, pensando haver descoberto a chave do mistério,
declaram com ênfase que a Ciência Espírita
não é ciência, mas apenas um apêndice
espúrio da doutrina. Com isso agridem a competência
de Kardec e de todos os grandes cientistas que, desde o século
passado até o presente, de Crookes a Rhine, submeteram
os fenômenos às formas possíveis de repetição.
Basta a leitura das anotações de Kardec em Obras
Póstumas, o episódio do seu encontro
com o fenômeno das mesas-girantes, para se ver a falácia
dessa acusação. A impossibilidade de repetição
dos fenômenos espíritas implicaria a impossibilidade
da pesquisa. Todos os anos da pesquisa sistemática, minuciosa
e exaustiva de Kardec, e os anos de pesquisa exemplar de Crookes,
Notzing, Gibier, Ochorowicz, Aksakof, Myers, Geley e Osty, e assim
por diante, são displicentemente atirados no baú
das antigüidades estúpidas. Foi por essa e por outras
que Richet escreveu o seu livro O Homem Estúpido. A repetição
de experiências é medida corriqueira em qualquer
pesquisa. Os que lançam mão dessa alegação
para negar a existência da Ciência Espírita
nos dão a prova gratuita da sua incapacidade para tratar
do assunto.
Houve interrupção no desenvolvimento da Ciência
Espírita, alegam outros. Depois de Kardec ninguém
mais pesquisou e os espíritas se entregaram a rememorar
os feitos do passado. Se tivéssemos feito isso, simplesmente
isso, já teríamos mantido viva a tradição
doutrinária, vigorosamente apoiada em séries infindáveis
de pesquisas mundiais, realizadas por nomes exponenciais das Ciências.
Mas a verdade é que não houve solução
de continu- idade na investigação, mas simples diversificação
das experiências em várias áreas culturais,
acompanhada de renovações metodológicas.
A Ciência Espírita projetou-se em direções
diversas, desdobrou-se em outras coordenadas e deu nascimento
a outras ciências. Atacada por todos os lados, por todas
as forças culturais da época, a Ciência Espírita
firmou-se nos seus princípios e multiplicou os seus meios
de comunicação. A escassez do elemento humano interessado
na busca da realidade pura não lhe permitiu a expansão
necessária. O homem terreno continua ainda apegado aos
interesses imediatistas e aos seus preconceitos, à sua
vaidade sem razão e sem sentido. São poucas as pessoas
de mente aberta e coração sensível, nesta
humanidade egoísta e voraz. Esses elementos compreensivos
e abnegados nem sempre dispõem de condições
culturais suficientes para enfrentar a luta contra as fascinações
do seu próprio passado e dos insufladores de idéias
confusas e perturbadoras no meio espírita e nas áreas
adjacentes. Mas tudo isso faz parte da lenta e difícil
evolução humana. Estamos ainda nos arrancando dos
instintos animais, dos mecanismos condicionados pelos milênios
do passado genésico. O panorama atual do mundo nos dá
a medida exata do nosso atraso evolutivo. O contraste chocante
entre os pesados lastros da barbárie e as aspirações
renovadoras do futuro, geralmente desprovidos de recursos materiais
para realizações concretas urgentes, revelam a densidade
do nosso carma coletivo.
A preguiça mental e a atração magnética
do passado encarceradas em si mesmas mostram-se incapazes de um
gesto de grandeza em favor de realizações urgentíssimas.
Por isso a dor explode por toda a parte, em vagalhões enfurecidos.
A dor aumentará, porque só ela pode arrancar os
insensíveis de suas tocas. As leis da evolução
são implacáveis e nada as deterá enquanto
os homens não acordarem para o cumprimento dos seus deveres
morais e espirituais. A Ciência Espírita está
em nossas mãos e nos indica o roteiro a seguir. Mas nós
a envolvemos em dúvidas e debates inúteis, ao invés
de nos alistarmos em suas fileiras e de nos entregarmos generosamente
ao seu estudo, à sua divulgação e à
sua prática. Homens de recursos financeiros julgam-se agraciados
por Deus para viverem à tripa forra, esquecidos
das multidões de ignorantes, muitos deles ansiosos por
elevação cultural, mas presos às grilhetas
da chamada sociedade de consumo, que na verdade está consumindo
o próprio planeta. Os privilégios sociais de uma
ordem social estabelecida pela força e não pelo
amor lhes dão a ilusão da graça divina. Desapareceram
do mundo os antigos messenas, que punham suas fortunas ao serviço
da coletividade. Preferem socorrer os pobres com suas migalhas
de sopas e assistências precárias, julgando que assim
aumentam seu crédito nos Bancos da Eternidade. Não
jogam com a caridade, mas com os cálculos de juros que
não existem no Além. São os novos vendilhões
do Templo, os cambistas da caridade fácil e supostamente
rendosa. Chegarão no Além de mãos vazias
e manchadas pelas nódoas da ambição desmedida
e da insensibilidade moral. A Ciência Espírita necessita
de escolas, de Universidades, de bibliografias especializadas.
Não pode contar com os recursos comuns da simonia, em que
se banqueteiam as religiões pomposas e mentirosas. Não
existe no mundo uma única Universidade Espírita,
em que a Ciência Admirável possa manter e desenvolver
os seus trabalhos de pesquisa científica. De vez em quando,
um potentado se sente tocado pela intuição de uma
entidade benévola e faz doações generosas
a um médium ou a uma instituição de assistência
social. O médium, de honesto e sensível, passa a
doação para outras instituições de
caridade. Os serviços culturais continuam à míngua,
sustentados apenas pelos que dão seu tempo, sua vida e
seu sangue para a sustentação da cultura espírita.
Certas instituições gastam os seus recursos em aviltamento
da Doutrina, com a produção de obras espúrias,
a serviço da mistificação. Respondem por
essa situação precária da Ciência Espírita
todos os que preferem os juros bancários ao desenvolvimento
cultural.
A Ordem Divina é regida por Deus, mas a ordem humana é
dominada pelo homem, no aprendizado da vida terrena. Se não
conseguirmos despertar os homens para o urgente desenvolvimento
da Ciência Espírita, nada mais teremos do que a cultura
terrena em que vivemos, de olhos fechados para o alvorecer dos
novos tempos. Não veremos o raiar da Era cósmica,
porque teremos voluntariamente enterrado a cabeça na areia,
em pleno deserto, na hora das tempestades. E o que faremos, então,
de nossos parcos conhecimentos, de nossa ignorância espiritual,
ante a proliferação das Universidades das subculturas
materialistas?
Coloquemos ainda, se possível, de maneira mais clara e
objetiva esta situação. O Instituto Espírita
de Educação, fundado em São Paulo pelo II
Congresso Estadual de Educação Espírita,
funcionou por alguns anos, tendo formado três turmas de
ginasianos, com reconhecimento oficial. Está atualmente
fechado (2),
lutando para a conclusão do seu edifício no Itaim.
Sofre essa interrupção altamente prejudicial por
falta de recursos. O Clube dos Jornalistas Espíritas, com
seus cursos de Espiritismo, Filosofia Espírita e Parapsicologia,
depois de vinte anos de funcionamento, teve de fechar suas portas
por falta de recursos. O Instituto de Cultura Espírita
do Brasil, no Rio de Janeiro, mantém seu funcionamento
com dificuldades, em local cedido por um Centro Espírita.
Carece de recursos e só funciona graças à
abnegação de Deolindo Amorim, seu fundador. Institutos
Estaduais que surgiram por sua inspiração lutam
para subsistir. A revista Educação Espírita,
única no mundo, lançada e sustentada heroicamente
pelo Editor Frederico Giannini, saiu de circulação
por falta de recursos e de interesse do próprio professorado
Espírita. Seu estoque de edições lançadas,
seis volumes, dorme o sono da inocência na Editora Cultural
Espírita - EDICEL. A Coleção Científica
dessa Editora, iniciada com a edição de obras espíritas
clássicas, continua lutando com insuperáveis dificuldades.
As Faculdades Espíritas de Marília, Franca e outras
cidades lutam para sobreviver.
Todas as iniciativas culturais espíritas não conseguem
desenvolver-se por falta de apoio e de recursos financeiros. A
Editora Paidéia, organizada por três acionistas,
para a divulgação cultural Espírita, luta
para se firmar, retendo várias obras por falta de recursos
para lançá-las. Os acionistas não percebem
dividendos, que revertem para o capital de giro da editora, que
não tem funcionários remunerados. A Revista
Espírita, de Kardec, 12 volumes, editada
pela EDICEL, vai pingando nas vendas individuais, sem recursos
para uma divulgação mais ampla e efetiva. As tentativas
de fundação do Instituto de Cultura Espírita
de São Paulo fracassaram.
Esse panorama estadual, desolador, no Estado mais rico da Federação,
reflete-se em todo o Brasil, considerado como a nação
mais espírita do mundo.
A Biblioteca Espírita, fundada por José Dias, franqueada
ao público para leituras e consultas, num andar da Rua
24 de Maio, morreu com a morte súbita do fundador abnegado.
Quais são os motivos dessa situação calamitosa?
Unicamente a falta de compreensão e interesse dos homens
de recursos que não se sensibilizam com as iniciativas
culturais espíritas. Se a Ciência Espírita
não se desenvolve entre nós, a culpa é exclusivamente
dos homens de recursos, que preferem endereçar suas contribuições
para as obras assistenciais, com os olhos voltados para a conquista
de um pedaço do céu depois da morte. Além
disso, o próprio público espírita mostrase
alheio aos interesses superiores do desenvolvimento da cultura
espírita, não se interessando pelas publicações
culturais, dando preferência aos impressos avulsos de mensagens
gratuitas para distribuição nos Centros.
Temos assim uma situação calamitosa, em que o aspecto
cultural da Doutrina, e particularmente o seu aspecto científico,
estruturado na Ciência Espírita, com a mais brilhante
tradição, vê-se relegado, como se nada representasse
nessa fase de transição, em que todos os espíritas
conscientes da importância da Ciência Espírita
deviam empenhar-se em lhe assegurar as possibilidades de desenvolvimento.
Enganam-se os que pensam que tudo virá do Alto. O trabalho
é nosso, dos homens pobres ou ricos, de todos os que se
beneficiaram com os recursos da compreensão espírita
em suas vidas passageiras. Ao invés de se preocuparem com
o progresso da Ciência Espírita, que modificará
o mundo, os espíritas se apegam às suas instituições
particulares, como os vigários às suas igrejas e
sacristias, pensando que isso lhes basta no cumpri- mento dos
seus deveres espirituais.
O tempo voa, as exigências de uma reformulação
dos conceitos humanos sobre a vida e a morte são simplesmente
olvidados. Temos de criar a Universidade Espírita, onde
a Ciência Espírita poderá desenvolver-se suficientemente
para termos e ampliarmos os benefícios da Cultura Espírita
no mundo. Só a Cultura Espírita efetivada nas instituições
culturais superiores poderá nos franquear os portais da
Era Cósmica.
(1) Pesquisas demonstraram
que, embora portador de amplos conhecimentos e com atuação
em várias áreas, Kardec era apenas licenciado em
Ciências e Letras pelo Instituto Iverdun, na Suíça.
(Nota da Editora.)
(2) O Instituto Espírita de Educação teve
suas obras concluídas e funciona, há cerca de quinze
anos, na Rua Leopoldo Couto de Magalhães Júnior,
nº. 695. (Nota da Editora.)