Em artigo distribuído pela
APLA, aos jornais de todo o mundo, Chapman Pincher escreve de Londres,
estranhando que o nosso século, considerado Idade da Ciência,
seja também a Grande Idade da Superstição. Mas,
procurando explicar essa situação contraditória,
faz uma descoberta curiosa: a de que a ciência gera a superstição.
Como se vê, trata-se de uma explicação dialética,
bem ao gosto do século. Mas uma explicação que
não passa de simples paliativo.
Qual a razão pela qual o nosso século seria a grande
Idade da Superstição? Primeiro, segundo explica Chapman
Pincher, por causa dos Discos Voadores. Depois, porque há uma
crença geral em “poltergeists”,
ou seja: “espíritos sobrenaturais e dotados da capacidade
de mover objetos materiais”. E depois, ainda, porque milhões
de pessoas, em todo o mundo, acreditam que os espíritos dos
mortos podem comunicar-se com os vivos e até mesmo materializar-se.
A posição do Sr. Pincher não é única.
Há milhares de intelectuais, pelo mundo inteiro, escrevendo
artigos, pronunciando conferências, dando aulas e publicando
livros, nesse mesmo sentido. Para todos eles, aceitar a possibilidade
da existência de espíritos é revelar atraso mental,
apego a superstições superadas pelo desenvolvimento
das ciências. Que resposta podemos dar a esses homens ilustres,
não raro dotados de grande capacidade mental, que relegam ao
porão do subconsciente as nossas mais sólidas convicções?
Há espíritas que se impressionam com isso. Muitos nos
escrevem, perguntando como explicar-se a existência de tanta
e tão ferrenha negação, de parte de homens esclarecidos.
A melhor resposta nos é dada pela própria história
da chamada “superstição espírita”.
Até hoje, desde as famosas investigações da Sociedade
Dialética de Londres, para desfazer a “praga do século”
– que era então, e isso no século XIX, o Espiritismo
–, nenhum investigador sério pôs a mão no
fogo sem ser queimado. Quer dizer: até hoje, nenhum cientista
que se atreveu, com seriedade, a investigar os fatos espíritas,
deixou de comprová-los. E muitos tornaram-se espíritas,
inclusive o maior deles, que foi William Crookes, o Einstein do século
XIX.
O que acontece, pois, é que o Sr. Pincher, e muitos outros
como ele, apegam-se aos seus conhecimentos com o mesmo fanatismo dos
supersticiosos. Não são mais do que supersticiosos de
outra categoria. Acreditam piamente que a concepção
científica do mundo é a última palavra no plano
do conhecimento, esquecidos das tremendas lacunas, das falhas gigantescas,
das enormes manchas de dúvida e incerteza que revelam a necessidade
de maiores investigações e maior ponderação.
Esquecem-se de que as ciências, todas elas, estão ainda
em desenvolvimento, constituem processos inacabados. E assim como
as religiões, apoiando-se no pressuposto da revelação
divina, julgam-se no direito de sustentar seus dogmas absolutos, assim
estes agnósticos se consideram, com apoio nas conquistas da
ciência, com o direito de impor os seus dogmas, igualmente absolutos.
Para escrever o que escreveu, o Sr. Pincher deve ignorar as experiências
da Metapsíquica, da Parapsicologia e da Ciência Psíquica
inglesa. Deve ignorar também as investigações
de certos religiosos, inclusive da comissão de pastores anglicanos,
que há poucos anos, na própria Inglaterra, agindo em
defesa de sua religião, mas sendo sinceros, tiveram de concluir
pela realidade da fenomenologia espírita. Deve ignorar, ainda,
as pesquisas do Professor Price, da Universidade de Oxford, que concluem
pela mesma realidade. Deve, enfim, ignorar muita coisa, apesar de
todo o seu possível saber.
E entre as coisas que o Sr. Pincher ignora, podemos incluir esta:
não é a ciência que gera superstições,
mas a incapacidade da ciência é que transforma em superstições
muitas coisas reais, que podiam ser explicadas. Essa incapacidade,
por sua vez, decorre em grande parte do dogmatismo científico
de que o Sr. Pincher é um exemplo. Uma das coisas que mais
se apontavam contra a realidade dos fatos espíritas, no século
XIX, era o chamado “absurdo” dos fenômenos de levitação.
Como se poderia admitir a levitação, se ela contrariava
a lei da gravidade: Entretanto, o Professor Crawford, da Universidade
de Belfast, catedrático de mecânica, incumbiu-se de investigar
os fatos e chegou a descrever a própria mecânica da levitação.
Sua teoria da alavanca fluídica, experimentalmente comprovada,
figura no “Traité de Metapsichique”,
de Richet. Provou Crawford que a levitação não
contrariava nenhuma lei científica.
Quanto à materialização, que tanto aborreceu
o Sr. Pincher, sua prova científica não foi feita pelos
espíritas, mas por sábios como Crookes, que era físico,
e Richet, fisiologista. Dois sábios que não se fecharam
em posições dogmáticas, mas procuraram verificar
o que havia a respeito de problemas tão complexos. Não
é científica, como bem dizia Ernesto Bozzano, a atitude
dos que, em nome de princípios, negam os fatos que os contrariam.
Estamos certos de que, se o Sr. Pincher pensasse um pouco nessa afirmação
de Bozzano, não continuaria a escrever contra a ciência
que tanto ama, para acusá-la de mãe da superstição.
Apesar de dialética, essa posição é muito
incômoda para um homem que distribui pensamentos pelo mundo,
através de agências jornalísticas. Porque o mundo,
apesar dos pesares, está cheio de gente que conhece muita coisa
que o Sr. Pincher ignora.