“O Livro dos Espíritos”
não é, porém, apenas, a pedra fundamental ou
o marco inicial da nova codificação. Porque é
o seu próprio delineamento, o seu núcleo central e ao
mesmo tempo o arcabouço geral da doutrina. Examinando-o, em
relação às demais obras de Kardec, que completam
a codificação, verificamos que todas essas obras partem
do seu conteúdo. Podemos definir as várias zonas do
texto correspondentes a cada uma delas.
“O Livro dos Médiuns",
sequência natural deste livro, que trata especialmente da parte
experimental da doutrina, tem a sua fonte no Livro II, a partir do
capítulo sexto até o final. Toda a matéria contida
nessa parte é reorganizada e ampliada naquele livro, principalmente
a referente ao capítulo nono: Intervenção dos
Espíritos no mundo corpóreo.
“O Evangelho segundo
o Espiritismo” é uma decorrência natural
do Livro III, em que são estudadas as leis morais, tratando-se
especialmente da aplicação dos princípios da
moral evangélica, bem como dos problemas religiosos da adoração,
da prece e da prática da caridade. Nessa parte, o leitor encontrará,
inclusive, as primeiras formas de «Instruções
dos Espíritos», comuns aquele livro, com a transcrição
de comunicações por extenso e assinadas, sobre questões
evangélicas.
“O Céu e o Inferno”
decorre do Livro IV, Esperanças e Consolações,
em que são estudadas os problemas referentes às penas
e aos gozos terrenos e futuros, inclusive com a discussão do
dogma das penas eternas e a análise de outros dogmas, como
o da ressurreição da carne, e os dos paraíso,
inferno e purgatório.
“A Gênese, os
milagres e as predições", relaciona-se
aos capítulos II, III e IV do Livro I, e capítulo IX,
X e XI do Livro II, assim como as partes dos capítulos do Livro
III que tratam dos problemas genésicos e da evolução
física da terra. Por seu sentido amplo, que abrange ao mesmo
tempo as questões da formação e do desenvolvimento
do globo terreno, e as referentes a passagens evangélicas e
escriturísticas, esse livro da codificação se
ramifica de maneira mais difusa que os outros, na estrutura da obra-mater.
Esta rápida apreciação
da estrutura de O Livro dos Espíritos,
em suas ligações com as demais obras da codificação,
parece-os suficiente para mostrar que ele constitui, como dissemos,
no início, o arcabouço filosófico do Espiritismo.
Contém, segundo Kardec declarou no frontispício, Os
princípios da doutrina espírita. É, portanto,
o seu tratado filosófico.
O livro começa pela metafísica,
passando depois à cosmologia, à psicologia, aos problemas
propriamente espíritas da origem e natureza do espírito
e suas ligações com o corpo, bem como aos da vida após
a morte, para chegar, com as leis morais, à sociologia e à
ética, e concluir, no Livro IV, com as considerações
de ordem teológica sobre as penas e gozos futuros e a intervenção
de Deus na vida humana. Todo um vasto sistema, sem as exigências
opressoras ou os prejuízos do espírito de sistema, numa
estrutura livre e dinâmica, em que os problemas são postos
em debate.