Um dos bordões mais utilizados na cobertura das eleições
presidenciais norte-americanas foi o de que se estava escolhendo, ali,
o homem mais poderoso do planeta. Talvez não seja exatamente
isso. O mundo vive hoje uma crise política sem igual. O avassalador
crescimento da economia global, movida pela mão invisível
do mercado, acabou por gerar uma situação sui generis:
o poder político, teoricamente motor da gestão estatal,
nunca esteve, como hoje, tão dependente do mercado. Este, com
métodos próprios e sem a necessidade de prestar contas
a ninguém, assumiu o efetivo comando do destino de povos e nações.
A crise política que acaba de se abater sobre a economia mundial
comprova essa realidade. Tão logo deram sinal de enfrentar dificuldades,
instituições financeiras passaram a exercer forte pressão
sobre o erário do mais rico país do planeta. Rapidamente,
injetaram-se nas veias do capitalismo mundial pesados recursos advindos
dos impostos pagos por seus cidadãos. Era preciso salvar a economia
para que o país saísse da crise que os próprios
gestores do mercado haviam produzido com seus fortes apelos ao consumo.
A economia de mercado gerou no mundo uma equação de difícil
solução. A sofisticada tecnologia de nosso tempo é
capaz de produzir bens de consumo cada vez mais fascinantes. A abundância
desses bens, aliada ao crédito fácil, traz a concorrência
desenfreada e o consumismo exacerbado. Consome-se por consumir, extrapolando-se
as reais necessidades e as próprias capacidades de endividamento
dos consumidores. Keneth Serbin, professor de História na Universidade
de San Diego, Califórnia, em artigo na Folha de S. Paulo (19/10/08),
sobre o atual momento vivido por seu país, registra: “Em
termos morais, os norte-americanos substituíram o cristianismo
por uma nova religião do sucesso. Essa religião não
tem vida após a morte nem consideração pelas gerações
futuras, pois seu credo consiste em consumir o máximo possível
aqui e agora”.
Especialistas debitam justamente ao consumismo exagerado as causas da
crise econômica que se abateu sobre o mundo, empobrecendo milhões
de pessoas e comprometendo a saúde financeira de grandes ícones
do capitalismo mundial. A estes últimos, o Estado, pressionado,
termina por socorrer. Já os infelizes consumidores, vítimas
da especulação e de sua própria invigilância,
terão que amargar as conseqüências de seus desatinos.
Ao novo futuro dirigente da maior nação do planeta caberá
enfrentar essas contradições que o mundo moderno gerou.
Seu poder, embora politicamente imenso, está, no entanto, seriamente
comprometido pelas concessões que a política foi fazendo
à economia de mercado, cuja mão, por invisível
e, por isso, inimputável, seguirá engendrando fórmulas
capazes de produzir mais e mais lucros com menores riscos.
Pelo menos enquanto o ser humano não atentar para alguns valores
essenciais da vida, o quadro seguirá sendo este. Na raiz dessa
situação está justamente a desmedida ambição
que contamina pobres e ricos. Os primeiros escravizam-se, facilmente,
ao pouco que têm e, freqüentemente, àquilo que sequer
possuem, obcecados pelo desejo de, um dia, possuírem. Os segundos
valem-se do real poder que as riquezas lhes concedem para inculcarem
na mente dos demais a ilusória idéia de que toda a felicidade
consiste no ter.
A opção agora feita pelos eleitores do país mais
rico do mundo, em meio a uma séria crise, elegendo um homem de
origem humilde e de etnia até hoje praticamente alijada do poder
político, indica desejos de mudança. Oxalá, no
entanto, se dêem conta de que, muito mais que câmbios políticos,
os novos tempos exigem mudanças de atitudes perante a vida. É
preciso resgatar alguns valores culturais e espirituais que estão,
por natureza, fora do mercado. Mesmo temporariamente anestesiados por
este, eles subsistem na consciência íntima do ser humano
e, em tempos de crise, explodem tentando inaugurar novos paradigmas
de pensamento e ação. E isso depende de governantes e
governados.
* Advogado e jornalista
Revista Espírita
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