“Há
grande analogia entre a mediunidade intuitiva e a inspiração”
Allan Kardec (1)
Apesar desta analogia por suas confluências,
sabiamente percebida por Kardec, são coisas diferentes,
com alguns pontos discordantes.
É preciso um discernimento apurado, para distinguir uma
da outra ou de coisa nenhuma, pois nem todos os pensamentos que
nos chegam provém dos Espíritos, sejam bons ou maus,
porque possuímos nosso livre arbítrio para pensarmos
o que quisermos e serão eles que irão atrai-los,
pelos nossos diversificados padrões vibratórios,
embora tenhamos sempre a tendência de atribuirmos aos Espíritos,
todos os nossos pensamentos, sejam inspirações ou
intuições.
INSPIRAÇÃO
“É a equipe de pensamentos
alheios que aceitamos ou procuramos”
(2) e que caracterizam um tipo de mediunidade.
Médium inspirado: “recebe pelo pensamento, comunicações
estranhas às suas idéias pré-concebidas”
(3) existindo, pois, a aceitação
do pensamento espontâneo sugerido pelos Espíritos;
a diferença entre esta e a intuição, “(...)
é que a intervenção da força oculta
(na inspiração), é mais difícil
de se distinguir o pensamento próprio do que lhe é
sugerido”. (3)
É uma questão de nitidez na transmissão do
Espírito desencarnado para o encarnado; a mediunidade é
pouco evidente; “são médiuns sem o saberem.”
(4)
Sobre este prisma é que podemos dizer que todos somos médiuns,
pois não há quem não receba influências
espirituais, boas ou más e que serão captadas de
acordo com as nossas sintonias. São idéias espontâneas
e muitas vezes estranhas aos nossos pensamentos, em relação
às situações mais corriqueiras da vida e
na maioria das vezes, desconhecemos sua origem.
“A inspiração encerra dois elementos:
o pensamento e o calor fluídico destinado a aquecer o espírito
do médium. (...) Quereis saber de onde vêm os dois
elementos da inspiração mediúnica? A resposta
é fácil; a idéia vem do mundo extraterreno,
é a inspiração própria do Espírito
ao calor fluídico da inspiração, nós
o encontramos e tomamos de vós mesmos; é a parte
quintessenciada do fluído vital em emanação;
algumas vezes tomamo-la do próprio inspirado, quando este
é dotado de um certo poder fluídico; o mais das
vezes nós o tomamos de seu ambiente, na emanação
de benevolência, de que está mais ou menos rodeado.”
(5)
Assim, são importantes não só a sintonia
do médium, mas também a do ambiente no qual está
mergulhado.
“O pensamento é, portanto, nosso cartão
de visita”, (6)
nosso padrão eletro-magnético.
O Espírito transmite a idéia, mas ela sozinha não
basta; é preciso que haja a recepção a esta
mesma idéia; sem receptividade não há incorporação
dela, para alterar, inclusive, aquelas pré-concebidas.
“O calor é para a idéia o que o perispírito
é para o Espírito. (...) sem o calor, a idéia
seria impotente para comover os corações.”
(5)
“A inspiração é divina, mas o médium
é humano” (7),
decorre daí que a mesma inspiração tenha
respostas diferenciadas, segundo a individualidade de cada um.
INTUIÇÃO
É a percepção clara e imediata de verdades,
sendo desnecessária a intervenção do raciocínio.
“A causa primária da intuição é
que o Espírito se comunique pelo pensamento.”
(3)
Intuição mediúnica
Médium intuitivo: é o que recebe o pensamento e
o transmite, diferentemente do médium inspirado, que recebe
o pensamento sugerido e o incorpora, não havendo necessidade
de o transmitir.
“ (...) para transmitir o pensamento, precisa compreendê-lo,
apropriar-se dele, de certo modo, para traduzi-lo fielmente e,
no entanto, este pensamento não é seu, apenas lhe
atravessa o cérebro. (...). É possível reconhecer-se
o pensamento sugerido, por não ser nunca preconcebido;
nasce à medida que a escrita vai sendo traçada.”
(3) Tem
plena consciência do que escreve embora sem exprimir seu
próprio pensamento, como um datilógrafo, que recebe
um trecho escrito e o digita repassando para o papel.
Outra “diferença consiste em que a mediunidade
intuitiva se restringe quase sempre a questões da atualidade
e pode aplicar-se ao que esteja fora das capacidades intelectuais
do médium; (...) pode tratar de um assunto que lhe seja
completamente estranho. A inspiração se estende
por um campo mais vasto e geralmente vem em auxílio das
capacidades e das preocupações do Espírito
encarnado” (4),
isto é, nas ocorrências do cotidiano.
Também durante os estados de emancipação
da alma, como no sono, embora não lembremos ao despertar,
às vezes, do sonho, ou não o façamos com
nitidez, guardamos a intuição do relacionamento
que tivemos com outros Espíritos, encarnados ou desencarnados,
quer seja das conversações ou instruções
que tenhamos recebido de Espíritos com os quais nós
estivemos relacionados, assim também ocorre, uma grande
parte de nossos “insights”.
Intuição
anímica
“A intuição não é, pois,
as mais das vezes, senão uma das formas empregadas pelos
habitantes do mundo espiritual para nos transmitir seus avisos,
suas instruções. Outras vezes será
a revelação da consciência profunda à
consciência normal. No primeiro caso pode ser considerada
como inspiração.” (grifo
meu) (8)
Assim, Léon Denis não deixa transparecer, uma distinção
significativa entre inspiração e intuição,
mas nos chama a atenção para um outro tipo desta
última, fenômeno anímico, inconsciente, em
que a intuição transmitida, é extraída
da própria alma.
“A intuição é instrumento de prospecção
de fundo anímico do educando, das camadas sedimentares
de perfeições e imperfeições acumuladas
nas existências anteriores.” (9)
Ela é, pois, aí, o conjunto de ensinamentos próprios
adquiridos durante as múltiplas reencarnações
e intermissões, “que lhe aflora a mente espontaneamente,
sem necessidade de ninguém lhe transmitir nada.”
(10)
Portanto, a memória de vivências passadas e da nossa
missão, entendo-se o termo como os propósitos estabelecidos
na espiritualidade, não é deletada com o processo
reencarnatório, permanece bem viva no nosso inconsciente,
nos influenciando e nos fustigando, continuamente, como intuições,
aptidões, tendências, instintos e outras experiências
reencarnatórias, constituindo-se assim, nos embates com
o consciente, o “você decide” do Espírito,
no uso pleno do seu livre-arbítrio.
“Os conhecimentos adquiridos em cada existência
não mais se perdem. (...) a intuição que
deles conserva lhe auxilia o progresso” (11)
É esta intuição que nos fortalece para resistirmos
e não reincidirmos nas faltas cometidas em vivências
passadas e no cumprimento de nossos compromissos reencarnatórios,
auxiliando-nos nas sendas da nossa evolução espiritual.
Nunca nos foi prometido colheita sem plantio, mas foi-nos concedido
o terreno próprio para sua realização; que
nosso arado vincule firme a terra, embora lágrimas rolem
de nossa face, e o suor nos banhe o corpo, para que possamos vencer
os açoites dos ventos e o tamborilar das chuvas e assim
as sementes germinem e frutifiquem, num novo porvir.
Vigiemos e saibamos colher e selecionar os pensamentos bons que
nos chegam, por inspiração e intuição,
oferecidos pelos Espíritos, que podem ser evocados e oremos
para que possamos cumprir os nossos compromissos assumidos e dos
quais conservamos a intuição, com fé, esforço
e determinação.
BIBLIOGRAFIA
(1)KARDEC, Allan. Obras
Póstumas, 25ª ed. Rio de Janeiro: FEB,
1990, pág. 65
(2)XAVIER, Francisco Cândido. Seara dos Médiuns.
Ditada pelo Espírito Emmanuel. 8ª ed. Rio de Janeiro:
FEB, 1961, pág. 125.
(3)KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns.
46ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 1982, pág. 214, 215 e
216.
(4)KARDEC, Allan. Obras Póstumas,
25ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 1990, pág. 63 e 65.
(5)KARDEC, Allan. Revista Espírita,
2ª ed. DF: Ed. Edicel, 2002, 1865, pág. 144 e 145.
(6)XAVIER, Francisco Cândido. Seara dos Médiuns.
Ditada pelo Espírito Emmanuel. 8ª ed. Rio de Janeiro:
FEB, 1961, pág. 18.
(7)LIMA, Antonio. A Vida de Jesus, 4ª
ed., Rio de Janeiro: FEB, 1982, pág. 49.
(8)DENIS, Léon. O Problema do Ser, do Destino
e da Dor. 4ª ed., Rio de Janeiro: FEB, 1936,
pág. 334 e 335.
(9)LOBO, Ney; Filosofia Espírita da Educação
e suas conseqüências pedagógicas e administrativas.
2ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 1993. vol. II, pg. 8
(10) GABILAN, Francisco Aranda. Intuição
ou Inspiração, O Semeador, nº
760, 2000, pg 03. Mensagem transmitida por “A Era do Espírito”.
(11)KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.
68ª ed.: FEB, 1987, pág. 140.
Fonte: Trabalho publicado
na Rev. Internacional de Espiritismo - maio/2007
Fernando A. Moreira é
médico, expositor e articulista espírita, com
vários artigos publicados em jornais, revistas e sites.