Fernando A. Moreira

>    Kardec e a Fidelidade Doutrinária

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Fernando A. Moreira
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Há, no corpo da Doutrina, um lastro de conceitos básicos, de caráter definitivo, e a substituição destes conceitos seria a desfiguração radical da Doutrina”.
Deolindo Amorim (1)

 


Toda a orientação doutrinária e as verdades da Doutrina Espírita estão sustentadas pelos seus princípios básicos e quem os aceita, pode se dizer, vinculado a ela.

“O Espiritismo é uma doutrina espiritualista de características próprias, e, como toda doutrina, tem princípios básicos, claramente definidos, pelos quais se norteia e nos quais apóia as verdades que proclama.”
(1)

Neste sentido qualquer discordância, que não os fira, não se torna uma heresia, pois que, não temos dogmas e no dizer do eminente e saudoso cirurgião Edmundo Vasconcelos, “A verdade não tem rótulo, nem dono a quem prestar obediência e por ser luminosa é ela eterna, onde quer que possa aparecer, e quem a possuir no seu imo, deve proclamá-la e defendê-la, mesmo que se levante contra ela, uma bíblia de verdades intocáveis.”
(2)

Mesmo Kardec referindo-se a possessão, declarava que não havia possessos, sendo “possessão sinônima de subjugação”,
(3) para mais tarde, evoluindo de verdade em verdade, retificar este conceito, presenteando-nos com sua sabedoria e sua humildade, ao afirmar: “temos dito que não havia possessos, no sentido vulgar do vocábulo, mas subjugados. Voltamos a esta asserção absoluta, porque agora nos é demonstrado, que pode haver verdadeira possessão (...)”.(4) (5) O não ficou separado do sim, por um período de cinco anos.

Lição de modéstia nos dá também Emmanuel, Espírito, ao declarar: “Quando eu me posicionar contra Kardec, fiquem com Kardec”.

Assim, pode ser que, às vezes, ao estudarmos uma obra de determinado autor, não concordemos com certo capítulo ou estudando todas elas, com definido livro, por acharmos que não esteja de acordo com a pureza doutrinária; isto não é motivo para que eliminemos, sumariamente, toda a obra ou todas as obras do referido autor; reservado, no entanto, é nosso direito, de não a recomendarmos, sem, porém, deixar de respeitá-las.

O mesmo se dá para as citações bibliográficas; o fato de mencionarmos determinado trecho, não implica em dizer que concordemos com todo a obra ou todo o produto de um determinado autor; significa apenas que o segmento citado nos empolga e porque não somos plagiadores, o citamos.

Assim, avaliando uma opinião, uma prática ou uma obra, para se saber se ela está em consonância com a Doutrina Espírita, é preciso estudar para conhecer; conhecer para discordar; discordar para confluir.


Apóia-se a Doutrina Espírita nos pilares de seus princípios básicos que são:


Deus

“Inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas.”
(6)

Não um deus cruel, implacável e vingativo que deserda seus filhos condenando-os a penas eternas, imobilizando-os no mal e criando demônios para ajuda-lo nestas tarefas, mas sim um “Deus eterno, infinito, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom”.
(7)

Os véus que nos impedem de vê-Lo não estão perto dEle, mas bem próximos dos nossos olhos.

“Bem-aventurados os puros do coração porque verão a Deus” (Jesus, Mateus 58)


Sobrevivência do Espírito


“(...) a existência dos Espíritos não tem fim.”
(8)

Deus nos criou Espíritos iguais, simples, ignorantes e imortais, nos dotando de livre arbítrio para alcançarmos todos, por nosso merecimento, a perfeição. Este é o paraíso da felicidade, não como o homem o imagina, o que é uma alegoria, mas onde se reunirão os Espíritos puros.

Acreditamos, pois, na vida depois da vida, na vida antes da vida e na vida entre as vidas.

Nos dando uma certeza disso, Jesus assim se pronunciou:

“Em verdade vos digo que hoje estarás comigo no paraíso”.
(Lucas 23: 43)


Comunicação entre os dois mundos-Mediunidade.


“Resta agora a questão de se o Espírito pode comunicar-se com o homem, isto é, se pode com este trocar idéias. Por que não? Que é um homem senão um Espírito aprisionado num corpo? Por que não há de um Espírito livre se comunicar com um Espírito cativo, como o homem livre com o encarcerado?”
(9)

Há um intercâmbio contínuo entre o mundo espiritual e o físico, entre os Espíritos encarnados e desencarnados, que se manifesta através da mediunidade. Todos os homens a possuem, embora uns mais ostensivamente que outros e a estes últimos chamamos médiuns.

Independente disso, no entanto, os Espíritos estão influindo mediunicamente e constantemente nos nossos pensamentos e ações, de acordo com a nossa sintonia e “muitas vezes são eles que nos dirigem.”
(10)

Jesus, “médium de Deus”,
(11) nosso modelo, nossa Estrela Guia, nos fez sentir os cintilos de sua mediunidade e nos exortou a praticá-la, sem nada pedir em troca:

“Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expeli os demônios; daí de graça o que de graça recebestes”.
(Mateus 10: 8)


Reencarnação-Pluralidade das existências corpóreas.


“Depurando-se, a alma indubitavelmente experimenta uma transformação, mas para isso necessária lhe é a prova da vida corporal”.
(12)

Para se adequar a um Deus infinitamente bom, justo e misericordioso, nada pode espelhar melhor a Justiça Divina que a reencarnação. No entanto, o processo de recorporificação não é punitivo, mas educativo, quando, depurando-se os Espíritos, por experiências lapidadoras sucessivas na carne, por condicionamento a Lei de Ação e Reação, alcançarão, todos, a felicidade, único objetivo para o qual nos criou nosso Pai Amoroso, o Senhor da Vida.

Embora possa evoluir no período de intermissão, na espiritualidade, as experiências na carne são indispensáveis para, por provas e expiações, purificar-se o Espírito.

Como nos afiançou, Jesus:

“Ninguém pode ver o reino de Deus, se não nascer de novo”.
(João 3:1, 12)


Evolução-Pluralidade dos mundos habitados.


“Nascer, morrer, renascer ainda, progredir sempre, tal é a Lei”.
(13)

Em toda Criação, nas leis imutáveis divinas, não existe a inércia; podemos perceber sempre o movimento e a evolução, tanto no micro, quanto no macro-cosmos.

Deus não seria pródigo a criar esta imensidão de astros inutilmente. Afinal, só na nossa Via Láctea existem 100 bilhões de estrelas, e no Universo visível, mais de um septilhão delas, trilhões de planetas, cada um com suas características de habitabilidade, conforme a evolução dos Espíritos, que variam ao infinito e evoluindo sempre, eles jamais serão contemplativos ou preguiçosos.

Como nos asseverou Jesus:

“Há muitas moradas na Casa do Pai”.
(João 14:1-3)

Referindo-se ao sistema da alma material, em que o perispírito seria a própria alma, não havendo distinção entre ambas e que assim constituída, iria se depurando gradualmente por meio de transmigrações diversas, Kardec assim se pronunciou:

“Este sistema não infirma qualquer dos princípios fundamentais da Doutrina Espírita, pois que nada altera em relação ao destino da alma; as condições de sua felicidade futura são as mesmas, formando a alma e o perispírito um todo, sob a denominação de Espírito. (...) a questão se reduz a tornar homogêneo o todo, em vez de considerá-lo formado de duas partes distintas”.
(14)

Prossegue ainda o mestre lionês, analisando o comportamento e a inclinação dos discordantes:

“Semelhante opinião, restrita, aliás, mesmo que se achasse mais generalizada, não constituiria uma cisão entre os espíritas. Os que se decidissem formar, grupo à parte, por uma questão assim pueril, provariam, só com isso, que ligam mais importância ao acessório que ao principal e que se acham compelidos à desunião por Espíritos que não podem ser bons, visto que os bons Espíritos jamais insuflam a acrimônia, nem a cizânia”.

Embora aceitando aquela opinião, Kardec mostra que não a recomendava, completando, mais adiante, seu pensamento:

“Julgamo-nos, entretanto, na obrigação de dizer algumas palavras a cerca dos fundamentos em que repousa a opinião dos que consideram distintos alma e o perispírito. Ela se baseia no ensino dos Espíritos, que nunca divergiam a este respeito(...)”.


Assim, procuremos pelo menos, repetir Kardec, seguindo suas instruções.


Ele nos ensina que, cabe a nós espíritas frente a uma opinião divergente, que não fira os princípios fundamentais da Doutrina, não só aceitá-la, mas respeitá-la e acolhê-la, sem nos furtarmos da obrigação de esclarecer, para almejar confluir. Nos adverte ainda ele que, assim procedendo, estaremos nos libertando da ação maléfica de maus Espíritos que insuflam o amargor, a discórdia e os nossos comportamentos pueris.

Agindo ainda assim, estaremos por certo colaborando com a nossa fidelidade e com eficiência, para o estabelecimento da pureza doutrinária, como também, para a alvura dos doutrinadores.




BIBLIOGRAFIA

(1) BARBOSA, Pedro Franco. Espiritismo Básico. 3ª ed., RJ, FEB, 1987, pg. 129.

(2) MOREIRA, Fernando Augusto. Ante o Evangelho, O CLARIM , SP, março/ 2000, pg. 5.

(3) KARDEC, Allan. Revista Espírita, 1858, ed. Edicel, pg 278.

(4) KARDEC, Allan. Revista Espírita, 1863, ed. Edicel, pg.373.

(5) MOREIRA, Fernando Augusto. A Possessão segundo Kardec. Revista Internacional de Espiritismo, SP, setembro/2001.

(6) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 68ª ed. ,RJ, FEB, 1987 perg. 1, pg.51.

(7) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 68ª ed. ,RJ, FEB, 1987, perg. 13, pg. 54

(8) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 68ª ed. ,RJ, FEB, 1987, perg. 83, pg. 82.

(9) KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, 46ª ed. RJ, FEB, 1982, cap. I, item 5, pg.21.

(10) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 68ª ed. ,RJ, FEB, 1987, perg 459, pg. 246.

(11) KARDEC, Allan. A Gênese. 22ª ed.,RJ, FEB, 1980, Cap. XV, item2, pg. 311.

(12) KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 68ª ed. ,RJ, FEB, 1987, perg. 166, pg. 171.
 
(13) Frase esculpida no frontispício do dólmen de Allan Kardec, no Cemitério de Père–Lachaise, França.

(14) KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns, 46ª ed., RJ, FEB, 1982, cap. IV, item 50, pg. 65-66.

Fonte: Artigo publicado no "Reformador", abril/2004

 



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