A relação do ser
humano com a religião é muito antiga, mas será
que acreditar em Deus seria o mesmo que acreditar na religião?
A História da religião como expressão das inúmeras
tentativas de estabelecer contato com o Criador nos mostra encontros
e desencontros significativos que confundiram a Humanidade, que consolaram,
mas também criaram dificuldades de difícil superação.
Assistimos conflitos de cunho religioso que, no fundo, indicam nossa
ousadia humana em querer deter a verdade sobre a realidade. Com isso,
misturamos Deus com a religião, como se a Inteligência
Suprema coubesse em seitas, definições e pactos fanatizados
pelo orgulho e pela vaidade em tentar ser mais do que somos. Neste
contexto, algumas religiões foram instrumentos de dominação,
subjugação e controle das massas, criando muito mais
distanciamento entre Deus e o ser humano do que aproximações
acolhedoras do sofrimento e orientadoras da consciência.
O termo religião vem do latim religio (culto, prática,
cerimônia), cujo verbo religere significa retomar, revisitar
o que estava largado. O etimologista brasileiro Silveira Bueno, ao
contrário, traz a versão do verbo como religare significando
atar bem, religar, apertar. Em meio a tais controvérsias, o
fato é que foi preciso criar a religião como uma forma
de reatar os laços com algo de caráter divino, conhecido
por nós como Deus. O mais importante é que essa tentativa
expressa a questão de nosso sentimento inato de adoração,
explicado em O Livro dos Espíritos de maneira muito
clara. Com a terceira Revelação, sabemos que Deus é
muito mais do que uma religião possa explicar, Ele está
acima de tudo, Deus é origem, fonte e causa de todas as coisas.
Portanto, tomando por base a explicação espírita
sobre o sentimento de adoração, percebemos que Deus
não se trata de uma questão de crença; na realidade,
mesmo que o Espírito não reconheça sua paternidade
divina, o gérmen de sua origem está nele, ou seja, a
marca do Criador está em nós, acreditemos nisso ou não.
A religião, independentemente de qual seja, é um movimento
de retomada desta questão, é uma tentativa de relembrar
nossa ligação com algo superior a nós. Infelizmente,
os descaminhos religiosos fizeram que essa tentativa de religar sofresse
solução de continuidade, visto que religião foi
sendo confundida com imposição da crença em Deus.
Tomemos o Cristianismo como base, já que é dele que
o Espiritismo parte. Miranda (2005) nos fala sobre a trajetória
desafiadora dos cátaros e sua luta em manter a mensagem pura
e primitiva, no sentido de primeira, trazida por Jesus. A perseguição
a esses corajosos cristãos movida pelo poder clérigo
da Inquisição deixou rastros sombrios e criminosos ao
longo da História. O absurdo do extermínio de vidas,
supostamente autorizado por um poder divino, inaugurava os fossos
entre Deus e a Humanidade, maculando a imagem do Criador como se Ele
compactuasse com qualquer conflito fratricida. O poder e a ganância
em mandar, em determinar o destino das pessoas, teve na Inquisição
seu apogeu com o assassinato transformado em “ato legal”.
Manchando assim, a imagem do Pai Maior, fomos criando abismos de difícil
transposição; plantamos em nossos próprios corações,
em várias encarnações, a descrença e a
dúvida, já que a crença no poder divino foi sendo
cultivada pelo medo e pela punição. Fomentou-se, desta
forma, o ato de temer a Deus no lugar da fé, que deveria ser
raciocinada; e a Inquisição avançou, deixando
rastros desastrosos, quase irreparáveis, se não fosse
a certeza da Lei do Progresso como expressão indiscutível
do amor divino.
O Cristianismo, como expressão do amor de Jesus, foi sendo
contaminado por interesses sórdidos, passando a ser instrumento
de política corrompida pelo orgulho e pelo domínio das
massas. Com o Renascimento, o ser humano descobriu suas potencialidades;
o que foi bastante oportuno para questionar a dominação
do clero e da Igreja. Contudo, também um espaço foi
aberto para um rompimento cada vez maior com o que era tido como sagrado,
até que culminamos no materialismo como cisão total
com qualquer referência metafísica ou religiosa. O credo
passou a ser algo próprio dos fracos e ingênuos. Deus
e religião passaram a se confundir com um só, incitando
filósofos e pensadores diversos a desqualificarem toda e qualquer
menção a práticas, crenças e hábitos
tidos como resultados da fé.
Apesar disso, nosso Criador não pede licença a todos
nós para estabelecer suas leis, como nos diz o Espiritismo
e, por isso, enviou este último como explicação
racional e lúcida para a compreensão dos problemas humanos,
em diferentes ordens. A Doutrina Espírita nos oferece clareza
em seus princípios para que a descrença se dissolva
completamente; basta estudo e vontade de se melhorar. Trazendo o ranço
dessas experiências contraditórias acerca do que é
Deus e como Ele age no mundo e em nossas vidas, fomos nos distanciando
do propósito maior de evolução porque, em meio
a tantos dissabores, começamos a duelar com o Criador. Porém,
a lógica espírita nos mostra que Deus não é
uma questão de crença; a fé em Deus é
uma questão de fato. Analisando a expressão das leis
naturais e seguindo o raciocínio espírita, não
há como duvidar da existência de Deus. Muitas vezes,
a teimosia em negá-lo remete ao ranço das vidas passadas
quando transformamos Deus em rival. Tal negação também
está na insistência em reeditar o que não nos
faz bem, sem penetrar nas crenças renovadoras de amor e transformação
profunda que o Espiritismo sugere como rota segura, já revelada
por Jesus – nosso farol eternamente aceso.