Espiritualidade e Sociedade





Bianca Cirilo

>   Deus ou a religião?

Artigos, teses e publicações

Bianca Cirilo
>   Deus ou a religião? Quando a escolha é a DESCRENÇA

 

 

A relação do ser humano com a religião é muito antiga, mas será que acreditar em Deus seria o mesmo que acreditar na religião? A História da religião como expressão das inúmeras tentativas de estabelecer contato com o Criador nos mostra encontros e desencontros significativos que confundiram a Humanidade, que consolaram, mas também criaram dificuldades de difícil superação. Assistimos conflitos de cunho religioso que, no fundo, indicam nossa ousadia humana em querer deter a verdade sobre a realidade. Com isso, misturamos Deus com a religião, como se a Inteligência Suprema coubesse em seitas, definições e pactos fanatizados pelo orgulho e pela vaidade em tentar ser mais do que somos. Neste contexto, algumas religiões foram instrumentos de dominação, subjugação e controle das massas, criando muito mais distanciamento entre Deus e o ser humano do que aproximações acolhedoras do sofrimento e orientadoras da consciência.

O termo religião vem do latim religio (culto, prática, cerimônia), cujo verbo religere significa retomar, revisitar o que estava largado. O etimologista brasileiro Silveira Bueno, ao contrário, traz a versão do verbo como religare significando atar bem, religar, apertar. Em meio a tais controvérsias, o fato é que foi preciso criar a religião como uma forma de reatar os laços com algo de caráter divino, conhecido por nós como Deus. O mais importante é que essa tentativa expressa a questão de nosso sentimento inato de adoração, explicado em O Livro dos Espíritos de maneira muito clara. Com a terceira Revelação, sabemos que Deus é muito mais do que uma religião possa explicar, Ele está acima de tudo, Deus é origem, fonte e causa de todas as coisas.

Portanto, tomando por base a explicação espírita sobre o sentimento de adoração, percebemos que Deus não se trata de uma questão de crença; na realidade, mesmo que o Espírito não reconheça sua paternidade divina, o gérmen de sua origem está nele, ou seja, a marca do Criador está em nós, acreditemos nisso ou não. A religião, independentemente de qual seja, é um movimento de retomada desta questão, é uma tentativa de relembrar nossa ligação com algo superior a nós. Infelizmente, os descaminhos religiosos fizeram que essa tentativa de religar sofresse solução de continuidade, visto que religião foi sendo confundida com imposição da crença em Deus.

Tomemos o Cristianismo como base, já que é dele que o Espiritismo parte. Miranda (2005) nos fala sobre a trajetória desafiadora dos cátaros e sua luta em manter a mensagem pura e primitiva, no sentido de primeira, trazida por Jesus. A perseguição a esses corajosos cristãos movida pelo poder clérigo da Inquisição deixou rastros sombrios e criminosos ao longo da História. O absurdo do extermínio de vidas, supostamente autorizado por um poder divino, inaugurava os fossos entre Deus e a Humanidade, maculando a imagem do Criador como se Ele compactuasse com qualquer conflito fratricida. O poder e a ganância em mandar, em determinar o destino das pessoas, teve na Inquisição seu apogeu com o assassinato transformado em “ato legal”. Manchando assim, a imagem do Pai Maior, fomos criando abismos de difícil transposição; plantamos em nossos próprios corações, em várias encarnações, a descrença e a dúvida, já que a crença no poder divino foi sendo cultivada pelo medo e pela punição. Fomentou-se, desta forma, o ato de temer a Deus no lugar da fé, que deveria ser raciocinada; e a Inquisição avançou, deixando rastros desastrosos, quase irreparáveis, se não fosse a certeza da Lei do Progresso como expressão indiscutível do amor divino.

O Cristianismo, como expressão do amor de Jesus, foi sendo contaminado por interesses sórdidos, passando a ser instrumento de política corrompida pelo orgulho e pelo domínio das massas. Com o Renascimento, o ser humano descobriu suas potencialidades; o que foi bastante oportuno para questionar a dominação do clero e da Igreja. Contudo, também um espaço foi aberto para um rompimento cada vez maior com o que era tido como sagrado, até que culminamos no materialismo como cisão total com qualquer referência metafísica ou religiosa. O credo passou a ser algo próprio dos fracos e ingênuos. Deus e religião passaram a se confundir com um só, incitando filósofos e pensadores diversos a desqualificarem toda e qualquer menção a práticas, crenças e hábitos tidos como resultados da fé.

Apesar disso, nosso Criador não pede licença a todos nós para estabelecer suas leis, como nos diz o Espiritismo e, por isso, enviou este último como explicação racional e lúcida para a compreensão dos problemas humanos, em diferentes ordens. A Doutrina Espírita nos oferece clareza em seus princípios para que a descrença se dissolva completamente; basta estudo e vontade de se melhorar. Trazendo o ranço dessas experiências contraditórias acerca do que é Deus e como Ele age no mundo e em nossas vidas, fomos nos distanciando do propósito maior de evolução porque, em meio a tantos dissabores, começamos a duelar com o Criador. Porém, a lógica espírita nos mostra que Deus não é uma questão de crença; a fé em Deus é uma questão de fato. Analisando a expressão das leis naturais e seguindo o raciocínio espírita, não há como duvidar da existência de Deus. Muitas vezes, a teimosia em negá-lo remete ao ranço das vidas passadas quando transformamos Deus em rival. Tal negação também está na insistência em reeditar o que não nos faz bem, sem penetrar nas crenças renovadoras de amor e transformação profunda que o Espiritismo sugere como rota segura, já revelada por Jesus – nosso farol eternamente aceso.

 

 

Referências Bibliográficas:
KARDEC, A. “Lei de adoração”. In: O Livro dos Espíritos, Perguntas 649 a 652, Rio de Janeiro: Celd, 2011. (pp- 313-314), 2011.
MIRANDA, H. Os cátaros e a Heresia Católica. Niterói, Rio de Janeiro: Lachâtre, 2005.

 

 

Fonte: Revista CELD de Estudos Espíritas 
> https://celd.xyz/wp-content/uploads/06-Revista_CELD_Junho-2020.pdf

 

 

 

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