Espiritualidade e Sociedade





Bianca Cirilo

>   Ansiedade, a angústia da pressa

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Bianca Cirilo
>   Ansiedade, a angústia da pressa

 

 

 

 

 

Você é uma daquelas pessoas que costuma dizer: não suporto esperar? Seria fácil conciliar isso com a proposta espírita acerca da paciência? Paciência seria esperar passivamente até que Deus resolva? Já se perguntou o motivo pelo qual você não consegue esperar? Esses são apenas alguns dos questionamentos que nortearão, aqui, a nossa discussão acerca do problema da ansiedade e certos desdobramentos no campo do espírito imortal que somos.

A alegação mais comum, hoje em dia:

 

“estou sem tempo
ou com pouco tempo”.

 

Será que nós mesmos não estamos roubando o tempo de nós? Como assim? Dispendendo nossa disponibilidade em absolutamente nada que acrescente e quando chega a demanda do que, verdadeiramente, importa, não conseguimos atender aos propósitos relevantes do nosso cotidiano. Estamos sempre correndo, vivenciando tudo de forma tão rápida que não dá tempo de sentir o gosto ou o sabor da vida.

Mas, será que a ansiedade é algo sempre negativo, desfavorável? Ao nascermos, experimentamos a angústia da separação do vínculo intrauterino e essa angústia vai sendo compensada pelos cuidados e afeto que nossos pais nos dispensam. Nem sempre, porém, essa interação se dá de forma satisfatória, gerando padrões de insegurança, desamparo e desproteção significativas que contribuem para uma propensão a ansiedade.

Além disso, considerando o tipo de sociedade em que estamos vivendo, com as mudanças marcantes no campo da subjetividade, ou seja, o ser humano vem sofrendo mediante uma crescente e lamentável aceleração das experiências, onde várias exigências de atendimento de necessidades fabricadas pela extravagância e pelos excessos parecem cada vez mais inevitáveis. Hoje, somos reféns do “tudo ao mesmo tempo”, sem querer perder nada, como se precisássemos de tudo que nos é oferecido. Isso gera uma espécie de doença da pressa, como se viver fosse apenas experimentar, sem sentir, sem ter tempo para saborear as coisas, as situações, os encontros favoráveis e os estímulos.

Assistimos, assim, a uma sociedade, ainda, fugaz, imediatista, como nos diz o sociólogo Zigmund Bauman (2007), acerca de um tipo de interação social superficial e líquida, onde tudo parece mais fugaz, passageiro a tal ponto de não dar tempo de nada conhecer com profundidade, criando urgências angustiantes que se notabilizam como condutas aprovadas, isto é, atualmente, andar com pressa, dizer que não tem tempo virou sinônimo de produtividade, de prosperidade, de busca de sucesso. Neste contexto, o autor destaca a construção contínua de um processo de incertezas cujo tempo para a criação de um projeto individual parece encurtar-se.

A ansiedade vai sendo naturalizada como resposta inevitável de quem muito trabalha, produz, “corre atrás”, afinal, “é assim mesmo!” Isso poderia ser relacionado ao que o economista, autor da obra “Pai Rico, Pai pobre” analisa, de forma bem enriquecedora. Kiyosaki (2000) possui uma visão muito interessante sobre nossa relação com o fator econômico; ele diz que estamos vivendo uma espécie de corrida dos ratos, onde o nível de competitividade chega aos extremos. Essa competitividade desenfreada, sem dúvida, tem roubado nosso sono, nossa paz, pois vamos atendendo a padrões, totalmente questionáveis, sobre o que seria felicidade, sucesso, prazer e crescimento pessoal. Cada vez mais, vai sendo empurrado um tipo de protótipo do que seria o ser humano que adoece, que angustia e que cria mais fronteiras entre nós do que aproximação. A disputa, neste cenário, fica parecendo ser o único referencial de relacionamento interpessoal e o medo de perder o próprio lugar engendra atitudes desumanas, arrogantes, desconexas com a proposta divina que nosso Mestre nos trouxe.

Logicamente, as causas da ansiedade são multifatoriais, assim como sua conceituação não seria única, contudo, em suma, trata-se de um estado de inquietação que nasce na alma, por razões relacionadas à leitura que cada um faz da sua vida e dos desafios existenciais vivenciados. Por isso, podemos destacar aspectos mais comuns que costumam estar, com frequência, presentes em quase toda a dinâmica deste desconforto.

Vejamos: um deles seria a tendência que nós temos a nos preocuparmos com o que não podemos mudar, em vez de investir e focar SOMENTE naquilo que realmente podemos e depende de nós. Muitas pessoas vivem aturdidas e assoberbadas com questões alheias, querem controlar as pessoas, forçá-las a agir até mesmo contra seus valores. Essa atitude em querer mudar o que não se pode, essa necessidade de controle dos outros e das situações faz com que a pessoa viva acelerada, angustiada, manipulando as circunstâncias para que tudo saia como ela acredita estar certo. Jesus foi claro, quando disse “a cada um segundo as suas obras”, logo, muitos de nós se poupariam desta preocupação em “consertar” as coisas externas e/ou as pessoas, se atentássemos ao que o Cristo nos disse, ou seja, cada um cuida de si porque cada um tem sua consciência.

 

Ajudar não é impor nossa
verdade, é contagiar pelo
exemplo

 

É importante respeitar a vida alheia e as decisões diferentes das nossas, por mais que discordemos delas. Nesse afã de querer resolver e interferir de forma invasiva no contexto pessoal de outras pessoas, vamos nos distraindo da nossa evolução; aspecto esse que temos total possibilidade de mudança, aliás, o único poder de transformação. Significa, assim, que devemos aprofundar o ensinamento de Jesus sobre isso, aprender a nos concentrar na nossa mudança moral e espiritual e rever o conceito que temos de ajuda.

Com base em autores como Hammed (2000), podemos destacar que a ansiedade muito se relaciona à imaginação de situações catastróficas que, raramente, chegam a se concretizar. Há, neste contexto, um foco demasiado no futuro e o indivíduo fica imobilizado na preocupação improdutiva, esquecendo de viver o presente. Aprendemos, com o nosso Mestre, que a cada dia basta o seu mal, logo, somente podemos mudar nossa realidade estando concentrados no presente; a ansiedade é uma ladra de energia que nos afasta das metas importantes, transformando tudo em urgência. Neste estado, ela vai inviabilizando nossos passos na direção do que é inadiável, ou seja, aprender a lidar com as possibilidades disponíveis e não com as que estejam fora do nosso alcance.

Essa tendência a um estado de preocupação constante, pensamentos trágicos e negativismo refletem, principalmente, as crenças e valores que o espírito carrega dentro de si, apegado a padrões emocionais e comportamentais que fazem parte, geralmente, de um repertório traumático. De fato, as vivências passadas, que deixam marcas desfavoráveis, costumam ser de difícil resolução e a ansiedade persistente é uma tentativa frustrada e ineficaz de dar conta ou tentar controlar o que causa mal-estar. A imaginação nociva ganha força na tragicidade mental e os quadros projetados pelo pensamento excitado antecipam e criam cenários que viram clara realidade no campo fluídico, comprometendo a paz interior, consumindo energias que poderiam estar sendo utilizadas para o que realmente importa. Distraído de si mesmo e da perspectiva evolutiva, o espírito se demora em fatos que não dependem mais de sua intervenção ou que nunca dependeram ou dependerão, mas que são tomados por ele como relevantes.

Na obra “Conflitos Existenciais”, nossa querida Joanna de Ângelis analisa a associação existente entre ansiedade e o relacionamento com os pais, esclarecendo que a insegurança vivenciada pelo indivíduo é reflexo da forma como o espírito sentiu a maior ou menor proteção advinda das figuras parentais. O cultivo do medo da punição, quando se trata de pais muito severos e injustos, produz angustiante sentimento de desamparo, gerando, assim, ansiedade contínua, muitas vezes, sem que a pessoa perceba a relação direta entre dependência emocional, infância e educação.

Ainda na obra acima citada, a mentora espiritual destaca que a ansiedade também está muito ligada ao medo da doença, pois alude ao desconhecido. Na verdade, a ansiedade, ainda, é, infelizmente, um tipo de resposta emocional comum, diante daquilo que o espírito acredita ser maior do que ele.

Hammed (2000) destaca que a preocupação excessiva com a opinião dos outros sobre nós, também, constitui fonte de ansiedade. Uma vez se negando ao autoconhecimento como hábito, o espírito vai prosseguindo estranho a si mesmo, abrindo brechas para entulhos mentais enraizados, como traumas passados, impondo-lhe grandes desafios existenciais.

 

“(...) a ansiedade nasce
porque queremos burlar
as barreiras naturais do
universo (...)”

 

Por fim, ainda apoiando-nos em Hammed (2000), a ansiedade nasce, porque queremos burlar as barreiras naturais do universo, atropelando as coisas, interferindo nos resultados, tumultuando o curso natural e sábio da obra divina.

Tendo em vista tudo o que foi exposto até então, ainda nos apoiando em Joanna de Ângelis (2005), destacamos que a ansiedade é fruto da falta de serenidade na leitura dos fatos que acometem o indivíduo, devido ao que ele chama de grau de expectativa. Muitos de nós estabelecem para si uma carga de cobranças e desejos que mais inquietam do que fazem bem, vivendo grande turbulência comportamental, produzindo efeitos que afetam também o corpo físico, mediante perda do sono ou sono insatisfatório, excesso de alimentação, dificuldade de concentração, etc.

Evidentemente, a maneira como a ansiedade afeta cada um de nós depende de muitos fatores, como já mencionamos; contudo, tomando por base as orientações espíritas, no que tange ao tratamento da mesma e aos antídotos para aprendermos a diminui-la e até eliminá-la, podemos falar em unanimidade, uma vez que a terapia proposta por Jesus é a mesma para qualquer um de nós.

Sendo assim, é preciso que o espírito, num primeiro momento, aceite que está sendo atingido pela ansiedade, para gradativamente aceitar a terapia restauradora da sua paz interior. Nem sempre, isso é fácil já que muitas pessoas adotam um comportamento de fuga e negação, por orgulho de admitir fraquezas, por preconceitos diante de terapias psicológicas sérias e eficazes, por medo de se enfrentar e, desta forma, vão postergando ajuda e resolução urgente de suas questões. Com isso, continuam vivendo atormentadas, aparentando uma calma que não conquistaram e comprometendo, cada vez mais, sua capacidade de superação. Muitas vezes, por culpa inconsciente, o espírito se sabota e não quer resolver-se, adiando o enfrentamento sadio de si mesmo, através das ferramentas que Deus nos disponibiliza pela Ciência e pelo Espiritismo, por exemplo, dentre tantos outros recursos divinos.

 

“Uma pessoa ansiosa e
preocupada em excesso
reflete uma clara dificuldade
de cultivar a fé em Deus e
nas suas leis."

 

Não adianta o desejo de cessação do sofrimento, se não quisermos adotar, na prática, seu remédio. Deus estabeleceu leis seguras e claras para que pudéssemos aprender a seguir, conforme nosso avanço evolutivo, dentre elas, as leis morais que orientam nossos sentimentos, nos consolam diante de nossas quedas e fracassos, estabelecendo direção incorruptível para o recomeço. Frente à ansiedade, destacaremos algumas orientações, segundo a Doutrina Espírita, que muito nos ajudam a aprofundar essa problemática e a nos estimular a prosseguir na construção da própria felicidade.

O Espiritismo reforça que a fé transporta montanhas, como já nos ensinou Jesus. Uma pessoa ansiosa e preocupada em excesso reflete uma clara dificuldade de cultivar a fé em Deus e nas suas leis. Nossa fé se torna pequena pela alienação de si. O que seria isso? Estamos reforçando o hábito de nos olharmos, apenas, como pessoas no mundo, e esquecemos de criar a disciplina mental de potencialização de nossos talentos. Como assim? Se aceitarmos que a eclosão de nossas potencialidades depende de nosso investimento diário e contínuo, frente ao desenvolvimento de nossa autoestima, de nosso valor pessoal e espiritual para Deus, vamos aprendendo a confiar plenamente nas decisões que não dependem de nós e, desta forma, vamos focando, mais claramente, na nossa parte na obra da Criação. Na verdade, a dificuldade e a falta de fé, sinalizadas pelo nosso Mestre, refletem que queremos, mesmo sem perceber, ser mais do que Deus, pois duvidamos do poder da Inteligência Suprema e colocamos a ansiedade no lugar, como se ela fosse dar conta de uma situação. A fé plena em Deus dispensa qualquer preocupação, porque passamos a ter certeza de que, SEMPRE, sem exceção, o Pai permite que aquilo que nos alcança represente o melhor para nós, dentro de um contexto. A falta de fé cega nossa visão, para que analisemos absolutamente tudo que nos atinge com os olhos de ver, mencionados pelo Cristo. Sendo Deus o pai amoroso, justo, bom e misericordioso, jamais permitiria que o que nos afeta fosse para o nosso mal, até a dor, essa principalmente. O problema está no fato de ficarmos paralisados nas circunstâncias, nos fatos em si, e nos recusarmos a ver para além deles. A fé permite que consigamos fazer isso, enxergar para além das aparências.

Outro aspecto que muito nos auxilia a combater nossa ansiedade, como nos dizem os Espíritos superiores, é a paciência. Já paramos para nos perguntar o motivo pelo qual a paciência é trazida por eles como sendo a virtude por excelência? Excelente é a qualidade daquilo que é muito superior, que equivale a algo muito grandioso. A paciência é a faculdade de discernir entre o que depende de nós e o que não depende, ou seja, é virtude do sábio; ela sabe esperar diferenciando como se deve esperar, analisando contextos, verificando possibilidades, trazendo calma para resolver conflitos. A paciência, ao ser cultivada, nos ajuda a não mais permitir que o externo defina nossas ações e sentimentos; aprendemos, através dela, a não mais nos apavorar, a respirar fundo, a pensar antes de agir, logo, ela combate a doença da pressa – a ansiedade – pois nos dá condições de separar prioridade de urgência. Isso tudo porque quem tem fé em Deus, consequentemente, terá paciência para esperar o tempo Dele, sem se eximir de fazer a sua parte e deixar que o Criador faça a Dele. Ela dilui nossa ilusão de que a natureza mudaria seu curso, como nos diz Hammed (2000), só porque estamos com pressa. Neste contexto, a pressa alia-se à prepotência de achar que podemos controlar as coisas com nossa ansiedade, acreditando que tudo deva se dar como nós consideramos certo.

Outro fator profilático e, também, curativo da ansiedade é o otimismo. Joanna de Ângelis (2005) destaca a força que esse sentimento possui, quando nos dispomos a abrir nosso coração para alegria de ter certeza de que tudo ficará bem, completamente, um dia. Devemos começar pela mudança da forma como encaramos nossos problemas. Todos eles têm uma função de recado, de alerta; eles não servem para alimentar ansiedades, ao contrário, eles sinalizam que devemos mudar a forma de caminhar, para evitar angústias desnecessárias.

 

“(...) as nossas escolhas que
determinam nosso
próprio destino."

 

Por fim, nossa mentora fala do equilíbrio nas escolhas. Trata-se de um fator muito importante, já que são as nossas escolhas que determinam nosso próprio destino. Mesmo não admitindo, mesmo parecendo ser aleatório a nós, escolhemos a ansiedade, porque, ainda, resistimos ao jugo suave a ao fardo leve do Cristo. Deixar-se conduzir pelo amor de Deus significa caminhar em paz, renovando a esperança como certeza e não como possibilidade, aprendendo a focar no que depende de nós, certos de que nossa existência não acontece ao acaso e que Deus não é um apostador do futuro, Deus é o sentido maior que torna toda a vida possível e magnífica. Lembremos de que, à frente vai aquele que nos ama por amor a Deus, vai aquele que diz que tudo muda, tudo passa, tudo melhora, em suma, tudo retorna Àquele que nos deu origem. Portanto, que acalmemos nossos corações e mentes!

 

Referências Bibliográficas:


BAUMAN, Zigmund (2007). Entrando corajosamente no viveiro das incertezas. In Tempos líquidos. Zahar, 2007. pp7-32.

FRANCO, Divaldo. Ansiedade. In Conflitos existenciais. Salvador: Alvorada, 2005. pp 97-107.

KARDEC, A. A paciência. In Evangelho segundo o Espiritismo. Rio de Janeiro: CELD, 2004.

KIYOSAKI, T. Robert. Pai rico, pai pobre. Rio de Janeiro: Elsevier, 2000.

NETO, E. S. Francisco. Ansiedade. In As dores da alma. Catanduva: Boa Nova, 2000. pp 77-80

 

 

Fonte: Revista CELD de Estudos Espíritas
> https://celd.xyz/wp-content/uploads/05-Revista_CELD_Maio-2020.pdf

 

 

 

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