Espiritualidade e Sociedade





Bianca Cirilo

>   Será que somos adultos? Trabalhando a criança interior

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Bianca Cirilo
>   Será que somos adultos? Trabalhando a criança interior

 

 

A exortação evangélica acerca do Deixai vir a mim os pequeninos, porque deles é o Reino dos Céus nos remete a um diálogo interno com Jesus sobre o quê, afinal, haverá de tão especial nas crianças ou o que elas simbolizam que a máxima apresentada pelo Mestre nos faz caminhar na direção da infância. De que infância, o Cristo se refere, qual o sentido real deste convite e, principalmente, que implicações ele traz para o nosso progresso incessante?

Vários são os apontamentos que podem surgir desta reflexão inicial, um deles poderia ser o quanto o sentido de infância tem sido distorcido e banalizado nos dias atuais. O lugar da criança, historicamente falando, nem sempre foi o mesmo. Na Idade Média assistíamos o enfant como um pequeno adulto, uma miniatura daquilo que seus pais e educadores determinavam como protótipo do que ele deveria se tornar, no futuro. O lugar infantil não era significado como algo a ser destacado que merecesse cuidados psicológicos especiais, diríamos.

A partir do século 19, as teorias em torno da infância se expandem, com destaque à Psicanálise freudiana, dando à criança um lugar diferenciado, como um ser dotado de desejos e peculiaridades em seu desenvolvimento, diferindo do adulto. Certamente, a visão psicanalítica está tão longe de dar um veredicto final sobre isso, contudo, as ideias trazidas por tal corrente abriram um inegável campo de análise para se pensar os primeiros anos de vida de uma maneira, até então nunca pensada, e com isso, permitiram que a criança não fosse mais vista como um mero objeto sem vontade própria, sem direitos, a saber como um mero reprodutor dos desígnios adultos.

No campo da contribuição espírita, temos as considerações, do brilhante Hermínio Miranda, que muito nos esclarecem sobre o que é de fato, a infância. Ele resgata a noção oficialmente doutrinária de O Livro dos Espíritos, nos revelando que a criança é um espírito reencarnado, dotado de experiências anteriores e bagagem própria, ambos, pois, se refletindo como resultado de suas vivências passadas. Logo, os pequenos não são nossos, são seres divinos, livres como todos nós e que, temporariamente, estagiam neste período para que nós os conduzamos com respeito, facilitando pela educação a emergência de seu potencial adormecido.

Tomando o exposto acima, indagamos: será que nós, adultos, somos realmente maduros? Será que a transparência dos sentimentos infan tis, muitas vezes, banalizada por muitos de nós não possui exatamente a significação contrária, ou seja, não seria claramente a manifestação de uma virtude gigante destacada pelo Cristo?

As crianças são geralmente sinceras, quando sua franqueza não é corrompida pelo adulto. Essa verdade interior de toda criança costuma afetar ou fazer frente à hipocrisia humana, uma vez que elas tendem, em geral, a sentir sem esconder os afetos, até mesmo os considerados negativos. Acreditamos que quando Jesus enfatiza o assemelhar-se aos pequeninos, surge uma primeira reflexão: trata-se de vencer a dissimulação. Raramente, crianças fingem, salvo exceções, evidentemente. Contudo se sabemos que os pequenos aprendem e muito por imitação, deduz-se, por obviedade, que a conduta do adulto provoca o despertar de aspectos, já trazidos pelo espírito, enquanto vive a infância; até porque, em muitos casos, a criança viu ou flagrou alguém mentindo ou validando o disfarce do que, de fato, estava sendo real.

Quando permanecemos no fingimento como parâmetro existencial, estamos nos afastando desta proposta do “Deixai vir a mim os pequeninos”, isto porque fingir nos remete à direção totalmente oposta ao que, na essência, as crianças são e trazem. Talvez, esta seja uma das dificuldades mais marcantes no homem da atualidade, tendo em vista os sofisticados mecanismos de reforço das aparências em detrimento das essências. O homem pós-moderno costuma viver encapsulado na doentia necessidade de aprovação social, nem que para isso tenha que forjar uma imagem fugaz, transitória e sem sustentação. Faltam-lhe, aqui, conquistas psicológicas reais, abdicando, assim, de ser o que todo mundo está tentando ser. Neste clima, os indivíduos tendem a se angustiar com o consumo sem freio, acreditando que seria no mundo externo o espaço onde as soluções brotam, numa lógica onde tudo se resolveria como num passe de mágica. A promessa do mundo novo modernizado atravessa a subjetividade de maneira nociva, produzindo sujeitos em série, previsíveis, controlados pelas manobras perversas do Capitalismo. Vamos, com isso, importando faces, confundindo a própria identidade com aquilo que postamos nas redes sociais.

Sem dúvida, há muitos outros aspectos a serem desdobramentos desta exortação cristã, porém, a ênfase ao problema da dissimulação afetiva ganha expressividade porque é o que radicalmente nos afasta de Deus. O Criador teceu leis sábias e justas para que fizéssemos exatamente o caminho contrário de tudo isso, isto é, o do autoencontro. Quando dissimulamos nos direcionamos para o afastamento do que realmente somos. Isso acontece porque há em todos nós uma criança interior que simboliza todas as infâncias que já tivemos, uma criança que certamente não foi totalmente atendida e por continuar desconhecida por muitos, ela toma a frente de nossa personalidade e sabota nossas decisões, criando entraves porque o ser humano teima em negligenciar a importância de se cuidar da infância dentro de nós, para que não continuemos a permanecer, lamentavelmente, nos acreditando adultos, sem ter coragem de olhar para dentro de si. Somos adultos?

 

Referências Bibliográficas:

KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: CELD. Perguntas 379-380, 2004.

KARDEC, A. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. VIII. “Deixai vir a mim os pequeninos”. Rio de Janeiro: CELD, 2004.

MIRANDA, H. Nossos Filhos são Espíritos. Rio de Janeiro:
Lachâtre, 2012.

 

 

Fonte: Revista CELD de Estudos Espíritas
https://celd.xyz/wp-content/uploads/06-Revista_CELD_Junho-2018.pdf

 

 

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