Como professor, sempre pensei que
o nosso olhar mais acurado deve se voltar para os retraídos,
enquanto o senso comum mira os bagunceiros. Os mais fechados não
são atingidos pelas nossas interações e guardam
em si um fosso profundo em que eles se escondem, inatingíveis,
vendo o real de forma enviesada.
“(...) o meu primeiro dia
na escola, como senti vontade de ir embora”
Renato Russo
Legião Urbana - Musica O REGGAE
Naquela manhã todos os pais levaram suas filhas até
as portas das salas de aula. Não importava a idade...Mais
por medo do que por zelo. Afinal, as manchetes, os telejornais,
a internet somente falava da tragédia que se abateu, de mais
um massacre de crianças, que teve como palco os bancos escolares.
Os muros mais uma vez não protegeram a nossa infância...
De todos os espaços públicos
- a praça, o shopping, o hospital - a escola se sagrava mais
uma vez eleita no mundo das almas sofridas, como lócus privilegiado
do seu espetáculo, na busca de chamar a atenção
do universo para os seus demônios interiores. Emblemático
a escola ter sido escolhida...Seria lá o nascedouro desses
gênios do mal, dessa raiva do mundo? Ou seria apenas um lugar
que pela sua pureza, pelo seu teor latente de esperança,
se viu como alvo dessa loucura, repleta de influências da
violência televisiva?
O perfil do agente da barbárie
não foge a regra dessa casuística no mundo. Dos problemas
familiares, na retração do quarto escuro da sua solidão,
entre o real e a loucura, no fascínio pela revanche, de forma
apoteótica, sonhada de forma ritualística.
Como professor, sempre pensei que
o nosso olhar mais acurado deve se voltar para os retraídos,
enquanto o senso comum mira os bagunceiros. Os mais fechados não
são atingidos pelas nossas interações e guardam
em si um fosso profundo em que eles se escondem, inatingíveis,
vendo o real de forma enviesada.
Mas, naquela manhã, o real
se fez tenebroso em engenhos da morte. Mais uma escola foi palco
do medo. Dessa vez, não de balas perdidas típicas
da cidade maravilhosa, e sim de balas doentes. Como chegaram a essas
mãos as armas? Para a nossa sociedade que renegou o desarmamento,
por medo, é fácil de responder.
Caso inédito no Brasil, tirou
de nós o restinho de tranquilidade que ainda tinhamos quando
deixamos, diariamente, nossos filhos na escola e encaramos o batente.
Digo ainda tínhamos, pois os riscos na escola, para alunos
e professores, são inúmeros: atropelamentos, bombas,
abuso sexual, drogas, armas trazidas de casa, bullyng, agressões
verbais, sequestros relâmpagos. Podemos acrescentar muito
mais a essa lista, verificando os periódicos de nosso Brasil
varonil.
A escola encerra entre seus muros
as contradições da sociedade, a soma de problemas
e neuroses das famílias, postos ali aos cuidados de funcionários
e professores em seu labor desvalorizado. Esperam todos dessa escola,
como último bastião da ordem social, que ela dê
conta de toda essa gama de questões, enquanto seguimos todos
amarelos de medo, como dizia Drummond - pais, alunos, professores
e a comunidade.
Tudo isso não justifica por
que em Realengo ou em Columbine, a escola é pensada como
palco desse ódio. Faltam psicólogos e assistentes
sociais nesse espaço? Falta diálogo com a família?
Falta mais contato e menos currículo? Ou será que
falta o lúdico, o prazer coletivo de se viver o tempo escolar
? Difícil de responder, pois a escola reproduz essa selva
desvairada que é a vida, de exclusão e opressão,
de tribos e fossos.
Na escola deságua tudo, como
repositório das memórias felizes de uns e o suplício
de outros. Para Paulo Freire: "Escola é...o lugar onde
se faz amigos. Não se trata só de prédios,
salas, quadros, programas, horários, conceitos... Escola
é, sobretudo, gente, gente que trabalha, que estuda, que
se alegra, se conhece, se estima”. Mas, para todo é
essa escola que é precebida?
Toda essa nossa teoria, essa tergiversação
e as entrevistas com especialistas não vão equacionar
o que transcende um caso de polícia, mostrando mais uma faceta
dessa tragédia moderna, de jovens revoltados com o mundo,
imbricados de fundamentalismo, na busca de encontrar a atenção
que valorize a sua loucura.
Nem toda essa teoria vai nos afastar
do medo que sentimos, a cada manhã ao deixar nossos filhos
na escola, em uma nova Columbine tupiniquim, onde só tínhamos
medo de ir ao cinema. O medo é uma defesa natural, mas fica
a reflexão de que a escola e a comunidade tem que trabalhar
juntos, em uma versão integral, sobre cada um de seus filhos.
Mas, na atual conjuntura, penso se isso não é pedirmos
demais da escola e dos professores, carentes de recursos e repletos
de demandas.
O bairro da Zona Oeste do município do Rio de Janeiro, Realengo,
tem a origem de seu nome pois quando Dom Pedro I costumava ir para
a fazenda de Santa Cruz pela estrada Real de Santa Cruz, que passava
pelo Real Engenho, onde muitas vezes pernoitou. Como "Engenho"
era uma palavra muito grande, a abreviatura usada era "Engo".
E ficou "Real Engo" nas placas de orientação
utilizadas na época.