A instituição atua
desde 1985 em Jacarepaguá-RJ, às margens do Canal
do Anil
Às margens do Canal
do Anil, em Jacarepaguá, segue desde 1985 a Casa Espírita
Amazonas Hércules, atendendo materialmente e espiritualmente
aquela comunidade
“Como se vê, sofre
os meus, sofre os teus, cuidemos deles são todos filhos de
Deus.” Embalado por essa canção e por tantas
outras, nos idos de 1990, as minhas manhãs de domingo eram
presenteadas pelo trabalho do Canal do Anil, na então “Casa
Espírita Filhos de Deus”, um casebre simples à
beira de um rio já maltratado pela ação do
homem, que surgia após quase dois quilômetros de caminhada
em uma estrada de barro ladeada por palafitas simples.
Ali trabalhei integrado à
Mocidade Mariana do Centro Espírita de Jacarepaguá,
a “Casa de Agostinho”, na evangelização
de jovens e crianças da comunidade, alternando o evangelho
a aulas de higiene, tudo com muita música e fraternidade.
Inspirados pelo exemplo de nossos dirigentes, Moacyr e Isabel Cristina
(Isabig), essa experiência tão marcante me levou a
escrever, dez anos depois, o livro “Alegria de Servir”,
publicado pela editora da FEB, que apresenta em uma breve historieta
a importância da realização do trabalho social
pelo jovem.
Já contextualizados do meu envolvimento com a casa e com
a causa, vamos conhecer junto um pouco o trabalho e a história
da Casa Espírita Amazonas Hércules. O nome da casa
se deve ao seu idealizador, o companheiro Amazonas Hércules,
um herói das lutas espíritas no hospital de hanseníase
do Curupaiti, situado também em Jacarepaguá, à
frente de outra instituição de nome similar, o Centro
Espírita Filhos de Deus.
Como era o trabalho nos primeiros
anos
– Fundada em 13/5/1985 com
o nome de “Casa Espírita Filhos de Deus” por
um grupo de pessoas abnegadas da região de Jacarepaguá,
no Rio de Janeiro, o trabalho à beira do Canal do Anil consistia
na palestra, na evangelização e na ação
social no sábado à tarde, culminando com a famosa
peregrinação, na qual os tarefeiros, destacando-se
entre outros os amigos Vitor, Sérgio, Alípio e a Tia
Terezinha, visitavam as casas com seu inseparável violão,
oferecendo a palavra amiga e a oração, dentro daquela
comunidade tão carente.
Nos meados de 1990, os dirigentes da Mocidade Mariana (já
citados) do Centro Espírita de Jacarepaguá perceberam
a necessidade de iniciar a vivência da prática da caridade
entre os jovens. Moacyr, um dos dirigentes, trouxe a sua experiência
com jovens no trabalho realizado em Rezende-RJ com os alunos da
Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) e iniciou-se ali, de
forma ousada e inovadora, um trabalho no domingo de manhã;
e, após o trabalho, seguiam todos para o estudo na juventude,
em uma fraterna caminhada ensolarada pelos quase dois quilômetros
da Avenida Canal do Anil até o ponto do ônibus.
Inicialmente, o objetivo desse trabalho realizado pela juventude
era despertar os laços de carinho pelas crianças,
trabalhar o nosso coração. Não havia planejamento,
nós fazíamos simplesmente a recreação
com música e brincadeiras. Com o passar do tempo, os laços
se estreitaram e surgiu a necessidade de iniciar atividades com
planejamento e foco na Doutrina Espírita.
Devido ao fato de a Casa ser um barracão de madeira que não
comportava todas as turminhas, as atividades eram realizadas na
calçada, ao ar livre, ou ainda nas casas das crianças.
A Casa Espírita Amazonas
Hércules hoje
– O trabalho foi amadurecendo,
os trabalhadores também, e em 2007 aconteceu a união
com as atividades que eram também realizadas aos sábados,
integrando e fortalecendo aquela que deixava de ser apenas um posto
avançado do Centro Espírita Filhos de Deus (Hospital
do Curupaiti), para se tornar realmente uma casa espírita
autônoma, incrustada naquela comunidade.
As carências de estrutura representam um capítulo à
parte na história da Casa. A despeito das enchentes frequentes,
em 1998 iniciou-se a construção de uma sede de alvenaria,
que veio a ceder em 2000, como uma prova da resistência e
fé dos trabalhadores. Posteriormente em 2002, no terreno
ao lado do que cedeu, iniciou-se a construção da sede
que está em uso atualmente, concluída em 2010. Com
o desencarne de Amazonas Hércules, a casa recebe seu nome
em uma justa e fraterna homenagem.
A Casa hoje funciona com ações sociais de cestas básicas
e bazar, além da evangelização infantojuvenil
(com atendimento fraterno), alfabetização de adultos,
reunião de estudo doutrinário e de mediunidade, culto
no lar e peregrinação, tendo cerca de 150 frequentadores,
entre adultos e crianças.
Curiosamente, muitas daquelas crianças da década de
1990, e que eram alunos, hoje trabalham na casa e trazem seus filhos.
Da mesma forma, alguns daqueles jovens da Mocidade Mariana se tornaram
adultos atuantes no trabalho.
Mais do que uma casa espírita em uma comunidade materialmente
carente, a Casa Espírita Amazonas Hércules representa
o enlace de Espíritos no trabalho no bem, no amadurecimento
na seara do Cristo. Uma geração ali cresceu e a comunidade
entendeu que ali era mais do que um local de distribuição
de cestas, e sim um espaço de emancipação na
questão espiritual e de entendimento das questões
da vida por outro prisma.
A Casa cresceu com a própria
comunidade
– Da mesma forma, de maneira
emblemática, o trabalho no Canal do Anil representa o resgate
do trabalho de cunho social na seara espírita, em baixa cotação
nos dias de hoje e que nos permite, com sua dimensão, mexer
no nosso coração diante da dor material do próximo,
em um exercício de caridade que nos amadurece para a vida
mais além.
Apresentou esse trabalho também, a despeito do medo e das
críticas, a necessidade de o jovem mergulhar de forma autônoma
e protagonista na seara do bem, forjando em seu caráter aquele
espírita amadurecido que promoverá outros trabalhos
na fase adulta. Como diziam os dirigentes da Mocidade Mariana, se
não rompermos essas dificuldades do trabalho no bem como
jovens, como adulto o verniz e o papel social tornarão esse
desafio muito mais complexo.
Além disso, a casa que cresceu com a comunidade (que se potencializou
em função das ações da competição
do Pan no Rio de Janeiro) representa um espaço de estudo
e de trabalho no campo da espiritualidade daquelas pessoas, sendo
um exemplo de iluminação, de respeito às peculiaridades
do local e, ainda, de valorização das atividades educativas.
Reproduzindo as palavras do próprio Amazonas, saudoso companheiro,
sobre o trabalho no Canal do Anil:
“Reflitamos sobre a
grande importância de cada trabalhador que aqui atua...
O compromisso já existe e é preciso que vocês,
ferramentas de trabalho, estejam atentos aos chamados. Contamos
com a colaboração de cada um de vocês. Cada
um aqui é um ponto de amor, de esperança e de luz”.
Essas palavras nos remetem à
existência de grande seara invisível às nossas
mentes, ocupadas com coisas inúteis. Entretanto, a soma desses
trabalhos, como pontos de luz, é que fazem do nosso céu
estrelado, a guiar-nos pelas estradas da encarnação.



Fotos da Casa