Caminhamos pela rua e vemos nos postes, outdoors e filipetas anúncios
de prestação de serviços de natureza mediúnica,
nas artes da adivinhação e nos famosos serviços
que objetivam a busca de riqueza ou a volta da pessoa amada, com
variantes e promocionais típicos da mercadologia, na qual
se estabelecem prazos para a execução de serviços
e a ação gratuita - denominada caridade, para chamar
a atenção do cliente para o nosso estabelecimento,
diante de outros, que ofertam produtos similares.
A série “Médium” (2005-2011), exibida
na TV por assinatura e que tem como protagonista a médium
Allison Dubois, interpretada de forma primorosa pela atriz Patrícia
Arquette, é baseada em uma história real de uma médium
que atua como consultora, na resolução de crimes,
situação corriqueira nos Estados Unidos, na qual médiuns
utilizam seus dotes para encontrar pessoas desaparecidas e para
auxiliar a polícia, geralmente de forma remunerada, suprindo
o que a ciência forense não consegue resolver.
Jovens reunidos animam suas noites com a brincadeira do copo, perturbando
e sendo perturbados, em uma visão frívola da relação
com os desencarnados, perguntando sobre amores e o futuro, se divertindo
e servindo de diversão para Espíritos que ainda não
despertaram para a luz. Tudo isso após assistirem aos famosos
filmes de terror, fascinados pelo desconhecido, e ansiosos por sentir
a sensação de medo.
Programas televisivos dos nossos irmãos evangélicos
mostram incorporações de Espíritos, em rituais
de exorcismos, com gritos, cantos e muita exaltação,
na qual os Espíritos dos mortos recebem a alcunha de “Espírito
Santo” e de “Demônios”, em espetáculos
que misturam conceitos do cristianismo e de cultos afro-brasileiros,
atendendo a demandas diversas, na carência material e espiritual,
na espetacularização das mazelas humanas.
O fenômeno mediúnico aparece aí, no cotidiano
vivo das pessoas, independente de sua filiação religiosa.
Estas manifestações, entre outras, mostram a inserção
da mediunidade na sociedade, seja na adivinhação que
remonta à Grécia antiga, na terceirização
de favores espirituais alcunhada de feitiçaria, no apoio
à resolução de casos policiais, ou ainda, em
situações mais incomuns, como a previsão do
tempo e a busca de respostas em consultas aos Espíritos.
Assim, relacionam-se Espíritos encarnados e desencarnados,
de formas por vezes bizarras, em consórcios para finalidades
comuns, regidos pela lei de afinidade, em propósitos por
vezes nem tão nobres assim, como nem tão nobre é
o moto das ações dos encarnados.
A seara espírita nos brinda com um paradigma diferente...
Na mediunidade com Jesus, naquela que busca associar planos para
produzir o bem em ambas as dimensões, procura-se exercer
a comunicação com o plano espiritual como um ofício
na produção do bem, no qual o propósito elevado
comanda as tarefas a serem desempenhadas, para além de interesses
pessoais e da frivolidade.
Na carta consoladora do ente desencarnado, em prática consagrada
por Chico Xavier e exercida por tantos outros companheiros, encontramos
o consolo daqueles que se associam ao desespero diante do fenômeno
da morte.
Na ação curativa, traz-se a reflexão aos que
sofrem as enfermidades sobre as causas de suas dores, e de que a
verdadeira cura deve vir do Espírito; aliviando dores, mas
apontando a necessidade de reformas na criatura.
A mensagem psicografada que esclarece e orienta, enriquecendo o
estudo de grupos e organizações, no entendimento das
verdades da vida do lado de lá, é outra aplicação
útil da mediunidade, no texto que se converte em livros que
fortalecem os processos de estudos e por vezes subsidiam peças
teatrais, músicas e filmes, como instrumentos de reflexão
e de avanço espiritual.
E de todos esses arranjos produtivos, destacaremos um nesse breve
artigo. Objeto de estudo do saudoso Hermínio Miranda, de
recente retorno à Pátria espiritual, ele se esclarece
na sua obra magistral, “Diálogo com as sombras - teoria
e prática da doutrinação”, editada pela
Federação Espírita Brasileira há quase
40 anos, sobre a prática das reuniões de atendimento
aos Espíritos sofredores.
Hermínio, com a técnica e a didática que lhe
são peculiares, aborda nessa obra a organização
e a atuação de um grupo mediúnico de socorro
aos desencarnados, analisando as tipologias e os papéis dos
trabalhadores encarnados e dos atores desencarnados, discorrendo
sobre a estrutura do trabalho e as técnicas de atuação,
mesclando a sua experiência com o estudo das obras basilares
sobre o assunto, tendo como produto final um guia básico
para aqueles que se aventuram a atuar nesse tipo de trabalho.
Entretanto, para além das questões práticas,
o livro apresenta a reunião mediúnica de atendimento
aos desencarnados como um exercício de amor, de vivência
evangélica, em situações reais, nas quais crescem
espiritualmente trabalhadores encarnados e desencarnados, refletindo
sobre os valores da vida, a transitoriedade da reencarnação
e o que nos compete nesse exíguo tempo aqui encarnados. Iludidos,
achamos que vamos ali “ajudar os Espíritos”.
As reuniões mediúnicas dessa natureza apresentam-se
como verdadeiras aulas, de forma que o intercâmbio mediúnico
não se prende a mensagens e conteúdos e sim ao aprendizado
interativo nas vitrines vivas que se descerram, sendo Espíritos
tão sofredores como nós, na longa jornada da evolução.
A mediunidade ali se apresenta de forma dinâmica, integrada
em equipes de ambos os planos da vida, no trabalho que demanda Espíritos
mais próximos daqueles que ali sofrem, mas que também
nos abastece de luz, em reuniões nas quais, a cada dia, morremos
um pouquinho.
No portfólio de arranjos produtivos para a atuação
mediúnica que nos brinda o cotidiano, não nos cabe
criticar ou atacar as manifestações que surgem, nas
suas diversas formas e propósitos, dentro do nível
de maturidade de cada agrupamento. Cabe-nos, como espíritas
esclarecidos, valorizar a atividade que contribua com o bem geral,
aquela que forme homens de bem e que ajude a construir o reino de
Deus aqui na Terra, como aplicações úteis dos
talentos fornecidos aos médiuns de diversos matizes.
A mediunidade é um manancial de esclarecimento, e carece,
na sua prática, de orientação e reflexão,
principalmente no que tange aos seus propósitos. Mais do
que regras e posturas, é preciso saber se na prática
mediúnica trilhamos o caminho do bem e do aprendizado, para
além de questões do cotidiano. Isso caracteriza a
mediunidade com Jesus e não apenas lembrar-nos de seu nome.
E a reunião mediúnica de atendimento aos Espíritos
sofredores, prática presente em nossas casas espíritas,
deve ser estimulada e fortalecida pelo estudo e pela vivência,
como forma de aplicação dos potenciais mediúnicos
em uma dimensão ampla e integrada, no trabalho em equipes
multidimensionais, como um estágio para ocupações
que lutamos arduamente para ter assento em outros planos no futuro,
mais por misericórdia do que por merecimento.
Fonte: http://www.oconsolador.com.br/ano7/351/marcus_braga.html