"Todas as afirmações
em matéria de Teologia são e sempre o foram arraigadas
no cérebro,
e dificilmente podem ser removidas; e enquanto aí estiverem a
verdade não encontrará lugar."
EMANUEL SWEDENBORG
"Em minha opinião, as pessoas deveriam usar sua inteligência
para avaliar
o que consideram verdadeiro e falso na Bíblia."
BART D. ERHMAN
O primeiro ponto que poderíamos colocar é: algum discípulo
entre os que seguiam Jesus tinha posição privilegiada
perante ele? Que os cristãos que aceitam orientação
de uma entidade hierarquizada, que os obriga a aceitar seus dogmas,
acreditem nisso é aceitável; porém, a uma pessoa
que se considera com entendimento suficiente para ler e tirar sua
própria conclusão, isso não faz sentido algum,
pois, se "Deus não faz acepção de pessoas"
(At 10,35; 15,9; Rm 2,11; Gl 2,56; Ef 6,9; Cl 3,25 e 1 Pd 1,17)
Jesus, Seu enviado, não poderia agir de forma diferente. Ademais,
lemos que: "[…] depois de ter amado os seus do mundo,
amou-os até o extremo." (Jo
13,1) e "Como o Pai me amou, eu vos amei:
[…]." (Jo 15,9), demonstrando,
claramente, que o Mestre amava a todos de igual modo; não excepcionando
ninguém.
Se é que existiu algum discípulo que mereceu algum tratamento
especial, por que razão não seria Pedro? Inclusive,
Pedro é único nominalmente citado pelo anjo que se encontrava
no túmulo de Jesus (Mc 16,5-7),
para que as mulheres o avisassem "em particular" e aos outros
que o Mestre havia ressuscitado dos mortos. Ademais, não foi
a ele, segundo se acredita no meio católico, que Jesus entregou
o comando de todos os outros, ou, como está em Mt 16,19, "as
chaves do Reino dos céus"? Estamos dizendo isso tomando
como base o que o exegeta Bart D. Ehrman (1955-
), em Jesus existiu ou não?, diz "Cefas
era, comprovadamente, Simão Pedro (ver
João 1:42), o discípulo mais próximo
de Jesus." (grifo nosso)
(1). E, especificamente, no tópico "O discípulo
Pedro", explica:
Pedro não era simplesmente
um membro dos doze discípulos que, segundo todas
as nossas tradições evangélicas, Jesus escolheu
como seus companheiros mais próximo […]. Ele era membro
de um círculo interno ainda mais fechado composto de Pedro,
Tiago e João. Nos Evangelhos, esses três passam mais
tempo com Jesus do que qualquer outra pessoa durante todo o seu
ministério. E desses três, novamente segundo
todas as tradições, Pedro era o mais próximo.
Em quase todas as nossas fontes, Pedro era o companheiro e confidente
mais íntimo de Jesus durante todo o seu ministério
após seu batismo. (grifo nosso)
(2)
Ehrman está certo, pois, realmente,
os relatos bíblicos apontam para essa presença constante
junto a Jesus dos três discípulos – Pedro, Tiago
e João –, que, conforme os relatos registram, estão
presentes: na cura da sogra de Pedro (Mc 1,29),
na cura da filha de Jairo (Mc 5,37);
na transfiguração (Mc 9,2)
e no Getsêmani, no momento de maior angustia de Jesus (Mc
14,33). Entendemos não se tratar de privilégio
algum, mas, provavelmente, por serem eles os doadores de "ectoplasma",
energia a qual Jesus manipulava para suas curas, e que foi fundamental
no episódio da materialização dos Espíritos
Moisés e Elias, no monte Tabor, fenômeno conhecido como
"a transfiguração".
O Tiago aqui citado, trata-se do que era filho de Zebedeu e irmão
de João, designado como "Tiago, o Maior",
que foi preso em 42 d.C. e morto por Herodes Agripa I em 44 d.C. (At
12,2) (3); essa informação é importante,
pois são mencionados outros dois personagens com esse nome,
são eles: Tiago (o Menor), filho de Alfeu e Tiago
(o Justo), o irmão do Senhor, que, em 49, na cidade
de Antioquia, decidiu a polêmica sobre a obrigação
dos gentios cumprirem regras judaicas, antes de se tornarem cristãos.
Esse Tiago, irmão do Senhor, junto com Pedro e João,
foram, conforme testemunha Paulo de Tarso, "reputados colunas"
(Gl 2,9), ou seja, os que lideravam a
igreja primitiva. Portanto, ao que tudo indica, ele ocupa o lugar
do anterior junto ao trio. Segundo os enciclopedistas Russell Norman
Champlin (1933- ) e João Marques
Bentes (1932- ) ele "se tornou líder
da Igreja de Jerusalém" (4),
provavelmente por ter algum prestígio entre os cristãos
primitivos.
Aponta-se tão somente a questão da tradição
para a designação de "discípulo amado"
referir-se a João, o evangelista; porém, ela carece
de uma base bíblica segura com a qual essa identificação
se apresente de forma indiscutível.
Explica-nos Champlin que: "[…] Alguns estudiosos creem
que o apóstolo João referiu-se indiretamente a si mesmo,
dessa maneira, ufanando-se em sua especial relação de
amizade com o Senhor Jesus, ainda que, ao mesmo tempo, por motivo
de humildade, não tivesse querido mencionar o seu próprio
nome. […]." (5). Crer, podem
crer, no que quiserem; porém, a grande e importante questão
é: têm condições de provar biblicamente
essa crença?
Mas será que a tradição pode se opor aos fatos?
Jesus dizia aos escribas e fariseus: "Jeitosamente rejeitais
os preceitos de Deus para guardardes a vossa própria tradição"
(Mc 7,9). Poderemos transmutar para "Jeitosamente rejeitais
os fatos para guardardes a vossa própria tradição",
pois é exatamente isso que se faz quando se apega à
tradição rejeitando os fatos.
Além disso, apelar-se à tradição torna-se
um argumento pouco convincente diante do que atualmente se sabe dos
autores dos Evangelhos. Alguns estudiosos não mais consideram
os nomes constantes dos títulos dos Evangelhos como sendo os
de seus autores, conforme alhures o demonstramos (6),
já que, àquela época, era comum escritores utilizarem-se
do expediente de mencionar como autor o nome de alguém de destaque,
visando prevalecer como verdadeira a sua narrativa. Aliás,
em Atos dos Apóstolos, se afirma que tanto ele, João,
quanto Pedro, "eram homens iletrados e incultos"
(At 4,13).
Para corroborar essa informação, que muito poucos confrades
têm conhecimento, trazemos o Ehrman, especialista em Novo Testamento:
Embora evidentemente não
seja o tipo de coisa que os pastores costumem contar às suas
congregações, há mais de um século existe
um forte consenso de que muitos dos livros do Novo Testamento não
foram escritos pelas pessoas cujos nomes estão ligados a
eles. […].
[…].
Por que surgiu a tradição de que esses livros foram
escritos por apóstolos e por companheiros dos apóstolos?
Em parte de modo a garantir aos leitores que eles foram escritos
por testemunhas oculares e companheiros das testemunhas oculares.
Uma testemunha ocular merece a confiança de que iria contar
a verdade sobre o que realmente aconteceu na vida de Jesus. Mas
a realidade é que não é possível confiar
em que as testemunhas ofereçam relatos historicamente precisos.
Elas nunca mereceram confiança e ainda não merecem.
Se testemunhas oculares sempre fizessem relatos historicamente precisos,
não teríamos a necessidade de tribunais. Quando precisássemos
descobrir o que realmente aconteceu quando um crime foi cometido,
bastaria perguntar a alguém. Casos reais demandam muitas
testemunhas, porque seus depoimentos diferem entre si. Se duas testemunhas
em um tribunal divergissem tanto quanto Mateus e João, imagine
como seria difícil chegar a um veredicto.
A verdade é que todos os Evangelhos foram escritos anonimamente,
e nenhum dos autores alega ser uma testemunha. Há nomes ligados
aos títulos dos Evangelhos ("o Evangelho segundo Mateus"),
mas esses títulos são acréscimos posteriores
aos próprios livros, conferidos por editores e escribas para
informar aos leitores quem os editores achavam que eram as autoridades
por trás das diferentes versões. Que os títulos
não são originalmente dos Evangelhos é algo
que fica claro com uma simples reflexão. Quem escreveu Mateus
não o chamou de "Evangelho segundo Mateus". As
pessoas que deram esse título a ele estão dizendo
a você quem, na opinião delas, o escreveu. Autores
nunca dão a seus livros o título de "segundo
fulano". (grifo nosso) (9)
E, hoje em dia, com mais informações
que temos das manipulações dos textos bíblicos,
dos conflitos e divergências, alguns estudiosos já não
os aceitam como verdadeiros, o que nos faz também buscar estudiosos
e exegetas bíblicos mais sintonizados com essa nova realidade,
pois alguns deles estão totalmente presos aos dogmas de sua
igreja. Vejamos, por exemplo, o que os tradutores da Bíblia
de Jerusalém dizem a respeito dos Evangelhos Sinóticos
– Mateus, Marcos e Lucas: "[…] Isso não
significa entretanto que cada um dos fatos ou dos ditos que eles noticiam
possa ser tomado como reprodução rigorosamente exata
do que aconteceu na realidade. […]." (10)
Vejamos uma passagem bem interessante:
Marcos 10,35-41:
"Então, se aproximaram dele Tiago e João,
filhos de Zebedeu, dizendo-lhe: Mestre, queremos que nos
concedas o que te vamos pedir. E ele lhes perguntou: Que quereis
que vos faça? Responderam-lhe: Permite-nos que, na tua glória,
nos assentemos um à tua direita e o outro à tua esquerda.
Mas Jesus lhes disse: Não sabeis o que pedis. Podeis vós
beber o cálice que eu bebo ou receber o batismo com que eu
sou batizado? Disseram-lhe: Podemos. Tornou-lhes Jesus: Bebereis
o cálice que eu bebo e recebereis o batismo com que eu sou
batizado; quanto, porém, ao assentar-se à
minha direita ou à minha esquerda, não me compele
concedê-lo; porque é para aqueles a quem está
preparado. Ouvindo isso, indignaram-se os doze contra Tiago
e João."
Também vamos encontrar essa
narrativa em Mateus (20,20-24); só
que nela o pedido é feito pela própria mãe e
não pelos dois filhos, o que é uma boa demonstração
da existência de sérios conflitos nos textos bíblicos;
mas, por agora, o nosso caso é bem outro. Não seria,
nessa passagem, um bom momento para se demonstrar que, para Jesus,
João era o "discípulo amado", prometendo-lhe
um lugar também de destaque no mundo espiritual?
Analisando os Evangelhos, percebe-se que, estranhamente, somente no
Evangelho Segundo João é que aparece essa designação,
o qual, segundo os entendidos nos informam, foi escrito tardiamente,
por volta dos anos 90 d.C. Podemos, para atender que "a Bíblia
interpreta a si mesma", utilizando-nos do jargão comum
aos cristãos tradicionais, tentar descobrir quem será
esse discípulo amado.
O primeiro candidato que nos surge é Lázaro, irmão
de Marta e Maria, pois é no próprio Evangelho de João
que expressamente se diz que Jesus amava Lázaro, e pelo qual
chorou (Jo 11,35-36), embora seu nome
seja citado apenas mais uma vez depois de seu retorno à vida,
pela ação de Jesus (Jo 12,1-11).
O segundo, podemos evidenciá-lo tomando da seguinte passagem:
João
19,25-27: "E junto à cruz estavam a mãe
de Jesus, e a irmã dela, e Maria, mulher de Clopas, e Maria
Madalena. Vendo Jesus sua mãe e junto a ela o discípulo
amado, disse: Mulher, eis aí o teu filho.
Depois, disse ao discípulo: Eis aí a tua mãe.
Dessa hora em diante, o discípulo a tomou para casa."
Nesse relato, só faz sentido
utilizar as expressões "eis aí o teu filho"
e "eis aí a tua mãe", que claramente estabelece
relação de parentesco consanguíneo entre os envolvidos,
se o discípulo amado fosse Tiago, o irmão do Senhor,
consequentemente teríamos uma boa justificava para o fato dele,
segundo o texto, estar ao pé da cruz, junto a Maria de Nazaré,
sua mãe, e também o motivo pelo qual ele, posteriormente,
"a tomou para casa", ou seja, passou a acompanhá-la,
como lhe orientara o irmão Jesus.
Ademais, se as expressões se referissem a João, como
querem os que se apegam às tradições, forçosamente
teríamos que desconsiderá-lo como filho da mulher de
Zebedeu, para admitir que ele seja filho de Maria e, consequentemente,
irmão de Jesus, o que não condiz com os textos bíblicos,
que citam Tiago, José, Simão e Judas (Mt
13,55) como seus irmãos. Aceitar que o discípulo
amado seja outro, que não Tiago, o irmão de Jesus, é
desconsiderar o teor desse texto para ajustá-lo à tradição,
comum às crenças dogmáticas, que, muitas vezes,
contradizem os fatos narrados nos textos bíblicos.
Considerando que, após Jesus ser preso, todos os discípulos
fugiram (Mt 26,56; Mc 14,50), o que é
perfeitamente compreensível, é pouco provável
que algum deles, por serem cidadãos comuns e não um
grupo de guerreiros treinados para luta, tivesse coragem suficiente
para estar presente na sua crucificação, o que, por
mais lógico, se poderia esperar de alguém que tivesse
algum parentesco com Jesus, no caso, Tiago, o Justo.
Entretanto, isso não é tão pacífico assim,
ao vermos a posição das pessoas, quando da crucificação,
pelo relatado nos sinópticos:
Mateus 27,
55-56: "Estavam ali muitas mulheres, observando
de longe; eram as que vinham seguindo a Jesus desde a Galileia,
para o servirem; entre elas estavam Maria Madalena, Maria, mãe
de Tiago e de José, e a mulher de Zebedeu."
Marcos 15,40-41: "Estavam
também ali algumas mulheres, observando de longe;
entre elas, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o menor,
e de José, e Salomé; as quais, quando Jesus estava
na Galileia, o acompanhavam e serviam; e, além destas, muitas
outras que haviam subido com ele para Jerusalém."
Lucas 23,49: "Entretanto,
todos os conhecidos de Jesus e as mulheres que
o tinham seguido desde a Galileia permaneceram a contemplar
de longe estas coisas."
Em relação às
pessoas presentes, Mateus e Marcos apontam somente mulheres; Lucas,
além delas, coloca "todos os conhecidos", algo indefinido,
que pode ser homens e mulheres. O que nenhum dos três autores
afirma é que havia algum discípulo entre essas pessoas.
E mais, diferentemente de João, todos dizem que elas contemplavam
"de longe"; portanto, segundo esses autores, sejam eles
quem forem, não havia ninguém ao pé da cruz,
como diz João, e que ainda enxerta, no episódio, o enigmático
"discípulo amado".
Depois da prisão de Jesus, somente temos registro da movimentação
de alguns discípulos no domingo de manhã, quando várias
mulheres se dirigem ao túmulo e não encontram o corpo
de Jesus, espalhando a notícia a todos. Enquanto Mateus e Marcos
não falam de algum discípulo ter ido ao sepulcro, Lucas
diz que somente Pedro foi (Lc 24,12)
e o autor de João, indo mais além, narra que "Simão
Pedro e com o outro discípulo, a quem Jesus amava"
(Jo 20,1-11) correram ao sepulcro para
se certificar. Diante de tanto conflito como saber em qual Evangelho
consta a verdade?
Em Mateus se afirma que os onze discípulos seguiram para a
Galileia, para o monte que Jesus lhes designara, na orientação
dada pelo anjo (Mt 28,16) e lá
apareceu a eles. Em Marcos se diz que a aparição aos
onze se deu quando estavam reunidos à mesa, sem especificar
em casa de quem (Mc 16,14). Em João,
também não se esclarece onde eles estavam reunidos;
porém, diz-nos somente que "trancadas as portas da
casa onde estavam os discípulos com medo dos judeus"
(Jo 20-19). Assim, fica comprovado que,
após a fuga desesperada, quando da prisão de Jesus,
os discípulos só voltaram a se reunir no primeiro dia
da semana após a sua ressurreição.
Por outro lado, a identificação como sendo Tiago, também
explica, sem nenhuma dificuldade, o fato de, na ceia, ele estar ao
lado de Jesus, recostado no seu seio, e no domingo de manhã
ter ele como o nosso personagem discípulo amado se dirigido
ao túmulo, onde depositaram o seu corpo, fatos narrados nessas
passagens:
João
13,23: "Ora, ali estava conchegado a Jesus um dos
seus discípulos, aquele a quem ele amava."
João 20,2: "Então,
corre e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo,
a quem Jesus amava, e disse-lhes: Tiraram do sepulcro o
Senhor, e não sabemos onde o puseram."
João 21,20: "Então,
Pedro, voltando-se, viu que também o ia seguindo o
discípulo a quem Jesus amava, o qual na ceia se
reclinara sobre o peito de Jesus e perguntara: Senhor, quem é
o traidor?"
Diante disso, para nós, Tiago
é o mais forte candidato a ser o "discípulo amado",
pois as passagens oferecem indícios que apontam em sua direção,
embora não tenhamos como precisar a data em que ele se tornara
discípulo de seu irmão Jesus. Claro, haverá quem
proteste quanto a isso.
No Evangelho Segundo João, a primeira passagem que menciona
a designação de "discípulo" amado é
em João 13,23. Vejamos o teor dela por algumas outras versões
bíblicas:
Tradição
Novo Mundo: "Recostava-se na frente do seio de Jesus
um dos seus discípulos, e Jesus o amava."
Paulinas 1957: "Ora, um
dos seus discípulos, ao qual Jesus amava, estava
recostado sobre o seio de Jesus."
Bíblia do Peregrino: "Um
dos discípulos estava reclinado à direita
de Jesus, o predileto de Jesus."
Bíblia de Jerusalém:
"Estava à mesa, ao lado de Jesus, um de
seus discípulos, aquele que Jesus amava."
Bíblia Barsa: "Ora
um dos seus discípulos, ao qual amava Jesus,
estava recostado à mesa no seio de Jesus."
Bíblia Shedd: "Ora,
ali estava conchegado a Jesus um dos seus discípulos,
aquele a quem ele amava."
O que se percebe nessas traduções
é a incerteza quanto ao que verdadeiramente ocorreu, dado aos
diversos empregos da expressão "que Jesus amava",
pois, num momento é alguém sem qualquer destaque, enquanto
em outro colocam-no como se fosse um privilegiado perante os demais.
Vejamos o que, em notas de rodapé, os tradutores bíblicos
explicam a respeito dessa passagem:
O anúncio da traição
se apresenta numa cena dramática que permite contrapor ao
traidor o "discípulo predileto" de Jesus. É
a primeira vez que a expressão aparece e se repetirá
a seguir. O texto bíblico dá indícios
não muito seguros para identificá-lo; uma tradição
muito antiga o identificou com João evangelista.
O que podemos dizer é que era uma personagem respeitada nas
comunidades onde se escreveu ou se cristalizou o evangelho. (grifo
nosso) (9).
[…] O "discípulo
que Jesus amava" aparece aqui pela primeira vez sob essa designação
enigmática (cf. 19,25; 20,2;
21,7.20.24). (grifo nosso) (10)
Aquele a quem ele amava.
Tradicionalmente se identifica com João, filho de Zebedeu
e autor deste evangelho. Podia também ter sido seu
irmão Tiago (21,2),
que foi martirizado em 44 d.C. (At
12,2). (grifo nosso) (11)
Destaca-se a honestidade dos tradutores,
alguns deles possuidores de grande conhecimento bíblico e da
história do cristianismo, em não terem como certa a
identificação do "discípulo amado"
como sendo João. Ressaltamos que Russell P. Shedd (1929- ),
conceituado teólogo evangélico, PhD em Novo Testamento
e editor da Bíblia Shedd, autor da última transcrição,
ainda nos aponta Tiago, o irmão de Jesus, como sendo a pessoa
provável, fato que corresponde a uma de nossas hipóteses.
No Evangelho de Felipe, considerado uma obra apócrifa, encontramos
algo bem interessante:
"55. A Sofia – a quem
chamam 'a estéril' – é a mãe dos anjos;
a companheira [de Cristo é Maria] Madalena. [O Senhor
amava Maria] mais do que a todos os discípulos [e]
a beijou na [boca repetidas] vezes. Os demais […] lhe disseram:
'Por que a queres mais que a todos nós?' O Salvador respondeu
e lhes disse: 'A que se deve isso, que não vos quero tanto
quanto a ela?'" (12)
Maria Madalena poderia ser uma terceira
alternativa para a identificação do "discípulo
amado", pois, certamente, era uma "discípula"
de Jesus, ainda que fosse sua esposa, como alguns acreditam. O aqui
registrado provavelmente era o pensamento dominante àquela
época, na qual os outros discípulos enciumados tinham
que Jesus a amava mais do que a todos. Entretanto, diante da resposta,
em que o Mestre afirma amar a todos da mesma forma, fica desfeito
o suposto privilégio dela ou de qualquer um outro discípulo.
Não temos dúvida de que, no meio espírita, surgirão
companheiros que farão de tudo para sustentar a ideia de que
seja mesmo João Evangelista, quiçá apresentando
a opinião de Espíritos, como se estes tivessem o dom
da infalibilidade e, o pior, que no mundo espiritual já não
mais alimentassem as suas crenças de quando encarnados. Iludidos
seríamos se pensássemos que não se apresentariam
aqueles que só acreditam no que querem ver.
Estávamos tendo alguma dificuldade em encontrar uma fonte mais
antiga que viesse auxiliar-nos no tema. Após várias
buscas infrutíferas, acabamos por encontrá-la. Trata-se
da obra História Eclesiástica: os primeiros quatro
séculos da Igreja Cristã, escrita por Eusébio
de Cesareia (264-340 d.C.), que foi bispo
de Cesareia e é considerado o "pai da história
da Igreja" (13). No cap. XXV, do
Livro 7, ele discorre sobre "O Apocalipse de João",
dizendo, a certa altura, sobre o exame que Dionísio (Bispo
de Corinto, viveu por volta do ano 171 d.C.) tinha feito desse livro,
onde diz o seguinte:
"[…] Portanto, não
nego que ele era chamado João e que esse era o escrito de
um João. E concordo que também era obra de um homem
santo e inspirado. Mas não me seria fácil concordar
que esse era o apóstolo João, o filho de Zebedeu,
o irmão de Tiago, que é o autor do Evangelho e da
epístola (geral) que leva o seu nome. Mas presumo, tanto
pelo conteúdo geral de ambos como pela forma e aspecto da
composição, e a execução do livro todo,
que não seja dele. Pois o evangelista jamais prefixa seu
nome, jamais se proclama, seja no evangelho como em sua epístola."
[…].
"Que é um João que escreveu essas coisas, precisamos
crer nele, conforme ele diz; mas não se sabe ao certo
de que João se trata. Pois ele não disse que era,
como faz com frequência no Evangelho, o discípulo amado
do Senhor, nem aquele que se reclinou sobre seu peito, nem o irmão
de Tiago, nem que ele mesmo viu e ouviu o que o Senhor fez e disse.
Pois com certeza teria dito um desses elementos, se desejasse fazer-se
conhecido de maneira clara. Mas nada disso existe, ele só
se denomina nosso irmão e companheiro e testemunha de Jesus,
e bendito por ter visto e ouvido essas revelações.
Sou de opinião que havia muitos com o mesmo nome
do apóstolo João, os quais, por amor, admiração
e imitação dele e por desejo, ao mesmo tempo, de,
como ele, serem amados do Senhor, adotarem o mesmo nome do título,
assim como encontramos o nome de Paulo e de Pedro sendo adotados
por muitos dentre os fiéis (14).
Acreditamos que será novidade
para muitos companheiros a afirmação de que João
Evangelista não é o autor do Apocalipse, já que,
por tradição (olha ela aqui novamente), acompanham o
que lhes foi ensinado em suas religiões de origem ou que confiam
em tudo que muitos expositores e tradutores espíritas dizem.
Nos seus argumentos o bispo Dionísio aceita João como
autor do Evangelho e que nele João estaria, com frequência,
dizendo ser o discípulo amado e que foi ele quem se reclinou
sobre o peito de Jesus. Provavelmente temos aqui algo bem próximo
da origem da tradição, pois, a bem da verdade, João
nunca fez relação dele com o discípulo amado
e nem com o que reclinou sobre o peito de Jesus. O que nos parece
é que essa tradição, por ser ainda anterior a
Dionísio, acabou por também contaminá-lo.
Enviamos a primeira versão deste texto ao confrade Morel Felipe
Wilkon, um dedicado estudioso bíblico (15),
que gentilmente nos retornou com suas considerações,
das quais destacamos o seguinte trecho, por mais se relacionar com
o objetivo desse nosso artigo:
Se tivesse que apontar um autor
para o Evangelho de João que não o próprio,
apontaria Lázaro:
O Evangelho tem duas palavras para designar o amor: philos
e ágape. Em Jo 11:3, philos; em Jo 11:5,
ágape; em Jo 13:23, ágape; em Jo
20:2, philos; em Jo 21:20, ágape. Parece
que o evangelista não fazia distinção entre
as duas palavras. Assim, aquele a quem Jesus amava NOMEADO no Evangelho
de João é Lázaro. Este Evangelho não
usa a palavra "apóstolo". E discípulos,
sabemos, não eram apenas os doze. Em 11:36, referindo-se
a Jesus e Lázaro, os judeus dizem: "Vede como o amava!"
Pouco antes, no versículo 19, os judeus consolavam Maria
e Marta. Lázaro era alguém bem quisto e conhecido
Vemos que havia mesmo vários judeus com Marta e Maria, acompanhando
o caso de Lázaro. Tratava-se, portanto de alguém importante
– diferentemente do rapazote João, um simples pescador
DA GALILEIA, que não tinha como ser conhecido do sumo sacerdote,
como se vê em 18:15 referindo-se ao "outro discípulo".
Não podia ser João, mas podia ser Lázaro.
Em 19:26-27, vemos: "Ora Jesus, vendo ali sua mãe, e
que o discípulo a quem ele amava estava presente, disse a
sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho. Depois disse
ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela
hora o discípulo a recebeu em sua casa". EM SUA CASA
– João não devia propagar o Evangelho? Como
alguém designado para propagar o Evangelho ficaria em casa
cuidando de uma mãe adotiva? Por outro lado, Lázaro
era, ao que se vê, homem estabelecido e bem-posto –
e vivia em Jerusalém, onde se passam esses fatos. Aliás,
todo o contexto deste Evangelho está vinculado a Jerusalém
e não à Galileia, o que também depõe
a favor de Lázaro em detrimento de João.
Quando Jesus ressuscitou, ainda em João, o discípulo
misterioso VIU E CREU – Lázaro tinha motivos sólidos
para crer instantaneamente, pois algo semelhante acontecera com
ele.
No capítulo 21, que é um segundo final do Evangelho
de João, consta: "E Pedro, voltando-se, viu que o seguia
aquele discípulo a quem Jesus amava, e que na ceia se recostara
também sobre o seu peito, e que dissera: Senhor, quem é
que te há de trair? Vendo Pedro a este, disse a Jesus: Senhor,
e deste que será? Disse-lhe Jesus: Se eu quero que ele fique
até que eu venha, que te importa a ti? Segue-me tu. Divulgou-se,
pois, entre os irmãos este dito, que aquele discípulo
não havia de morrer. Jesus, porém, não lhe
disse que não morreria, mas: Se eu quero que ele fique até
que eu venha, que te importa a ti?" – Quem parece mais
apropriado para merecer esse dito? Não é Lázaro,
que havia "voltado da morte" e que poderia passar a impressão
de que não havia de morrer? Aliás, considerando a
possibilidade de ter sido Lázaro o autor do Evangelho, e
tendo este sido escrito não antes do ano 90, era ele já
bem velho, o que contribuía para a crença de que ele
não morreria. (WILKON, por e-mail,
set/2015) (grifo do original)
Diante de tudo isso, o que fica claro,
pelo menos para nós, é que o "discípulo
amado" não era João, o evangelista, por absoluta
falta de apoio nos textos bíblicos. E não sendo, consequentemente,
Kardec, mesmo que em algum momento tenha sido designado de "discípulo
amado" não poderia ser João Evangelista reencarnado,
como insistem alguns confrades defensores da insustentável
tese de que Chico Xavier é Kardec. A alguns deles cabe muito
bem essa fala de Kardec: "A ideia preconcebida, num sentido
qualquer, é a pior condição para um observador,
porque então tudo vê e tudo ajusta a seu ponto de vista,
negligenciando o que pode haver de contrário. Certamente não
é esse o meio de chegar à verdade." (16)
Podemos estar equivocados em nossa conclusão, mas se alguém
nos apresentar algum argumento bíblico convincente, mudaremos
de opinião, pois, como pesquisador, procuramos agir conforme
o pensamento do poeta, escritor, historiador e jornalista português
Alexandre Herculano (1810-1877), que dizia: "Eu não
me envergonho de corrigir meus erros e mudar de opinião, porque
não me envergonho de raciocinar e aprender."
(17)