Manuscrito inédito de A. Desliens
- “Regeneração dos povos do Oriente” –
O caminho percorrido até a sua publicação na
Revista Espírita
A curiosidade sobre o processo percorrido
desde o registro das comunicações, recebidas pelos médiuns
na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas ou de outro grupo,
até a sua publicação na Revista Espírita
ou outro livro da codificação, sempre esteve presente
no imaginário de qualquer pesquisador espírita.
Para entendermos um pouco do
processo fomos buscar, primeiramente, elementos no próprio
Regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, válido
a partir de 1862 – https://www.facebook.com/allankardec.online/posts/133708258243066.
No Capítulo III – Das
Sessões – obtivemos as informações sobre
o funcionamento das sessões da Sociedade e das comunicações
recebidas.
As sessões eram realizadas
às sextas feiras e se iniciavam a partir das vinte horas. Cabe
ressaltar, que elas nunca eram públicas.
As sessões particulares ocorriam
nas 1ª e 3ª sextas-feiras de cada mês e também
na 5ª quando houvesse. Nestas sessões eram tratadas as
questões concernentes aos negócios administrativos da
Sociedade, assim como os assuntos de estudo que exigiam mais tranquilidade
e concentração, antes de tratá-los em presença
de pessoas estranhas. As sessões particulares eram reservadas
aos sócios titulares e aos associados livres (fotos do cartões
credenciais pertencentes ao museu AllanKardec.online
- https://www.facebook.com/allankardec.online/posts/116045200009372).
Eram, também, reservadas aos sócios correspondentes,
que se encontravam temporariamente em Paris, e aos médiuns
que prestavam seu concurso à Sociedade.
Nenhuma pessoa estranha à Sociedade
era admitida nessa sessão, salvo em casos excepcionais e com
assentimento prévio do Presidente, ou seja, do próprio
Allan Kardec.
As sessões gerais ocorriam
nas 2ª e 4ª sextas-feiras de cada mês. Nestas, estava
autorizada a admissão de ouvintes estranhos, previamente cadastrados
e devidamente apresentados ao Presidente, por um sócio. Estes
ouvintes seriam as pessoas que desejassem se tornar associados, ou
que simpatizavam com os trabalhos da Sociedade, e já suficientemente
iniciadas na ciência espírita. Aos ouvintes era vedado
o uso da palavra, salvo em casos excepcionais e a juízo do
Presidente. O número dos ouvintes era limitado aos lugares
disponíveis, que deveriam estar inscritos previamente num registro
criado para esse fim, com indicação dos endereços
e das pessoas que os recomendavam (vide fotos do Livro de Presença
de Ouvintes pertencente ao acervo do museu AllanKardec.online).
A assinatura da lista de presença
era obrigatória pelos participantes das sessões. O silêncio
e o recolhimento eram rigorosamente exigidos durante as sessões,
e, principalmente, durante os estudos. Ninguém podia usar da
palavra, sem a ter obtido do Presidente. Todas as perguntas aos Espíritos
deviam ser feitas por intermédio do Presidente, que poderia
recusar formulá-las, conforme as circunstâncias.
Eram vedadas todas as perguntas fúteis,
as de interesse pessoal, de pura curiosidade, ou que tinham o objetivo
de submeter os Espíritos a provas, bem como, todas as que não
tinham um fim geral, do ponto de vista dos estudos e que pudessem
gerar discussões capazes de desviar a sessão do seu
objeto especial.
Nenhuma comunicação
espírita, obtida fora da Sociedade, podia ser lida, antes de
ser submetida, seja ao Presidente, seja à comissão,
que tinham o poder de admitir ou recusar a leitura. Toda comunicação
de fora da Sociedade, cuja leitura tivesse sido autorizada, deveria
ter um cópia depositada em seus arquivos. Todas as comunicações
que tivessem sido obtidas durante as sessões pertenciam à
Sociedade, podendo os médiuns que as tomaram, tirar delas uma
cópia.
Feito este estudo preliminar dos regulamentos,
chegamos agora na comunicação recebida pelo médium
da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, senhor A. Desliens
- Armand Theodore Desliens (vide pesquisa do CSI do Espiritismo -
https://www.allankardec.online/uploads/pdf/10596063685e6d43a1ab7f00.94116757.pdf).
Este manuscrito inédito, datado de 18/09/1868 - uma terceira
sexta-feira daquele mês e ano – e, portanto, uma comunicação
que se deu em uma sessão particular da Sociedade - contém
a psicografia da comunicação recebida do Espírito
de Clélie Duplantier, pelo médium Desliens. O assunto
tratado na comunicação se refere à Regeneração
dos povos do Oriente.
Podemos observar que o título dado à
comunicação constante do manuscrito foi feito por Allan
Kardec, bem como, verificamos uma série de correções
que foram efetuadas pelo mestre no texto psicografado pelo médium.
Esta comunicação, observando o que vimos no Regulamento
da Sociedade, deve ter passado pelas análises e estudos dos
membros da Sociedade.
A comunicação psicografada, analisada
e estudada pelos membros da Sociedade, pelo seu conteúdo, ensejou
o interesse do mestre para a sua publicação na Revista
Espírita. Supomos, então, que deva ter ocorrido sua
transcrição para um texto final para envio à
gráfica, juntamente com todos os outros textos que comporiam
o conteúdo da Revista Espírita a ser publicada.
A Gráfica de posse dos textos manuscritos originais
da Revista Espírita, elaboraria as formas de composições
tipográficas – do tipo móvel – que era utilizado
naquela época.
O manuscrito deve ter ficado armazenado nos arquivos
da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, conforme previsão
em seu Regulamento.
As folhas impressas da Revista Espírita seriam,
então, enviadas para Allan Kardec para serem revisadas antes
da publicação do periódico. Este fato pode ser
constatado e comprovado através da folha da Revue Spirite (que
faz parte do acervo do museu AllanKardec.online), que apelidamos de
“prova” (vide foto em anexo).
Nesta “prova” podemos verificar as correções
que foram efetuadas por Allan Kardec (a caligrafia é dele)
no texto, seja colocando títulos, fazendo correções
gramaticais, acrescentando ou retirando palavras. Ou seja, efetuava
a revisão completa do que foi impresso preliminarmente, antes
das impressão definitiva.
Acreditamos que estas “provas”, corrigidas
e revisadas, voltavam para a gráfica, que efetuava as correções
devidas nas composições gráficas – que,
conforme já citado, eram do tipo móvel. Aí sim,
as Revistas Espíritas, com os textos revisados por Kardec,
seriam impressas e retornavam para o bureau da Revue Spirite.
A referida “prova”,
que mostramos na foto em anexo, foi publicada com as correções
efetuadas por Allan Kardec, no final da página 314 e na página
315 da Revue Spirite de outubro de 1861 (vide
fotos anexadas).
Voltando, finalmente, ao nosso inédito
manuscrito da psicografia efetuada pelo senhor Desliens, que além
de médium da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas,
foi secretário de Allan Kardec no período de 1866 até
1869.
A psicografia foi publicada na Revue
Spirite de novembro de 1868, nas páginas 345 a 347 do original
em francês (vide fotos). Na publicação houve a
omissão do nome do médium – senhor A. Desliens
– e o nome do correspondente da Sociedade de que trata o referido
artigo, que é tratado por Kardec como Sr. X. Sabemos, agora,
com a divulgação deste manuscrito, que o senhor X seria
o senhor Constant. As pesquisas para descobrirmos mais detalhes sobre
esta pessoa estão em andamento.
Com isso, pudemos ter uma ideia de
como teria sido o caminho percorrido, desde o momento do recebimento
e o registro de uma comunicação ocorrida na Sociedade
Parisiense de Estudos Espíritas – ou de outro grupo -
até a sua publicação por Allan Kardec, em uma
das obras da codificação. Acreditamos que, com os documentos
apresentados, chegamos um pouco mais próximos de conhecer os
caminhos percorridos pelas comunicações dentro da Sociedade,
de como eram tratadas pelo mestre, o trânsito e procedimentos
com o estabelecimento impressor.
Longe de tentarmos apresentar a realidade
dos fatos, nosso objetivo principal é tentar nos aproximarmos
deles com a utilização das fontes primárias disponíveis.