Adair Ribeiro
Mestrando em Ciência da Religião na Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo.
Especialização em Ciência da Religião -
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
(2022-2024). Curador do Museu AKOL –AllanKardec online. Pesquisador
Núcleo de
Estudos de História do Espiritismo do CNPq (NUESHE).
INTRODUÇÃO
A trajetória transcontinental
do espiritismo constitui um estudo de caso significativo para a investigação
de alguns conceitos que são fundamentais para a Ciência
da Religião: secularização, laicidade e a própria
definição de religião. Na França secularizada
do século XIX, Allan Kardec apresentou o espiritismo com uma
estrutura científico-filosófico-moral, distanciando-se
da conceituação de religião tradicional de sua
época, representada pela igreja católica, possivelmente
como estratégia para legitimá-lo naquele contexto social.
No Brasil, um cenário de forte habitus (BOURDIEU,
2007) católico e com uma secularização menos
radical, a obra kardecista foi reinterpretada com um acentuado teor
religioso.
Alguns estudiosos consideram que a religiosidade dos brasileiros constitui
um dos aspectos distintivos da cultura nacional. Droogers (1987) sugere
que há um elemento em nossa cultura que se manifesta no que
ele denominou de “religiosidade mínima brasileira”
(RMB); uma religiosidade que se expressa publicamente em contextos
seculares, sendo disseminada tanto pelos meios de comunicação
de massa quanto pela linguagem cotidiana. Segundo o pesquisador, a
RMB não existe em função de outras religiosidades
e religiões, pois ela possui seu próprio ambiente, não
suscitando debates sobre sua veracidade e não reconhecendo
ortodoxia ou heterodoxia. A ideia central da RMB é a fé
em um Deus mais imanente do que transcendente, associada a um uso
patriótico deste Deus: “Deus é brasileiro”
(DROOGERS, 1987, p. 76). Segundo Droogers, a RMB constitui o verdadeiro
substrato religioso das religiões que compõem o “mercado
brasileiro”; ela assegura uma “postura religiosa mínima”
que pode ser complementada pelas religiões tradicionais. A
RMB aproxima-se de uma “religião geral”, desprovida
de clero, onde os indivíduos atuam como seus porta-vozes, um
fenômeno universal que existe apenas no singular como um conceito
abstrato dos estudiosos. Trata-se de um tipo ideal, no sentido weberiano,
que reside apenas em “nossa mente”, uma religiosidade
geral e mínima que se manifesta através da linguagem
na sociedade como um todo. Embora amplamente presente, ela passa despercebida,
não se destaca por rituais, instituições, textos
sagrados, clero etc., não podendo ser compreendida fora da
tensão entre “unidade” e “diversidade”
presentes na sociedade brasileira. Devido ao seu caráter geral
e sua ação imperceptível, destacando atitudes
comuns e ocultando diferenças e conflitos, a RMB desempenha
um papel significativo no processo de unificação do
religioso com os aspectos econômicos, políticos e a dinâmica
social. “Assim, a RMB contribui para a formação
de uma identidade cultural brasileira e para a supressão de
tensões e conflitos, tanto religiosos como seculares”
(DROOGERS, 1987, p. 86).
Diferentemente do ocorrido na França, o espiritismo se institucionalizou
no Brasil como religião, adaptando-se e dialogando com um novo
contexto e substrato religioso, social e político, impulsionada
principalmente pela Federação Espírita Brasileira
(FEB) e por figuras carismáticas como o médium Chico
Xavier.
CONCEITOS E METODOLOGIAS NECESSÁRIOS
AO PRESENTE ESTUDO
(...)
O caminho percorrido pelo espiritismo
revela como uma doutrina que se pretendeu primariamente científico
e filosófico, com consequências morais, interagiu com
diferentes contextos históricos e culturais, transformando
sua identidade e o seu lugar no campo social e religioso brasileiro.
Os fenômenos verificados nos dois países é objeto
de estudo pela Ciência da Religião, cuja disciplina em
sua essência constitui-se como um campo de estudo acadêmico
dedicado à investigação sistemática e
empírica das religiões em todos os tempos e lugares
(WACH, 2018).
(...)
Esse estudo de caso sobre o espiritismo
demonstra que a “religião” não é
uma essência imutável, mas uma construção
social e histórica, constantemente negociada e ressignificada
em diferentes tempos e lugares. Este estudo reforça a necessidade
do uso de um conceito aberto de religião e a importância
de analisar os fenômenos religiosos em seus contextos históricos,
sociais e culturais específicos, utilizando ferramentas conceituais
e teóricas que permitam compreender suas múltiplas manifestações
e transformações. Portanto, contribui não apenas
para a compreensão de uma importante tradição
religiosa brasileira, mas também para o aprimoramento das próprias
ferramentas epistemológicas e teóricas da Ciência
da Religião.