| Hermínio
C. Miranda
> O que desejamos ou pretendemos, afinal, fazer do
Espiritismo?
A revisitação aos textos
básicos colhidos e elaborados por Allan Kardec e ao roteiro
que ele seguiu para ordenar os ensinamentos de seus amigos espirituais
nos oferece oportunidade para alinhar alguns tópicos merecedores
de mais amplas meditações.
Vamos colocá-los em ordem:
Primeiro: A doutrina que se depreende daqueles ensinamentos é
lúcida, competente e de uma paradoxal simplicidade, a despeito
de suas amplas e profundas implicações.
As ideias nucleares nela contidas não resultam de especulações
teóricas meramente intelectuais mais ou menos ociosas; são
expressão textual de leis naturais, não impostas e nem
colocadas como objeto de fé ou crença – são
pura e simplesmente realidades cósmicas. É bom lembrar
a esta altura, que Paulo entendia a fé como antecipação
do conhecimento. [1] Também recomendou
que nos ocupássemos das coisas invisíveis, que são
eternas e não das passageiras coisas visíveis. [2]
Estava certo o grande pensador cristão do primeiro século.
Há, na verdade, a fé que crê e a que sabe. Como
lembrou Kardec, a fé tem que passar pelo teste da racionalidade,
diante da qual nada tem a perder; ao contrário, tem tudo a
ganhar em confiabilidade e convicção.
Segundo: “... a doutrina – escreveu Kardec, em "A
Gênese", cap. 1, número 13 – não foi
ditada completa, nem imposta à crença cega...”
[3] (Itálicos no original.)
Se assim fosse, estaria em contradição consigo mesma,
de vez que a evolução é de sua própria
essência. Sempre haverá, portanto, em torno dela, regiões
pouco exploradas e até ignoradas à espera de estudo.
É necessário, sim, preservar a pureza doutrinária,
mas não sufocá-la numa redoma que lhe retire o oxigênio
do qual necessita para interagir com o que se passa à sua volta.
Ela é o nosso instrumento de trabalho, de aferição
e de busca. É até possível que o Cristo estaria
falando disso quando ensinou que era caminho, verdade e vida. De fato,
o estudo das leis divinas é caminho e roteiro para se chegar
à verdade e é com a verdade que chegaremos ao melhor
entendimento da vida.
“Conhecereis a verdade – disse ele – e a verdade
vos libertará.”
A dicotomia permanência e transitoriedade impõe um desafio
que necessita ser definido com clareza, a fim de ficar bem resolvida
em nós a posição a ser assumida. As leis são
definitivas, acabadas, irretocáveis, insuscetíveis de
modificação ou aperfeiçoamento; o conhecimento,
não – ele é móvel, progressivo, crescente
e sujeito à obsolescência em alguns de seus aspectos,
a fim de que se possa renovar e expandir-se. Tais diretrizes foram
claramente explicitadas pelas entidades instrutoras quando anunciaram
a Kardec que ele teria de voltar em nova existência para dar
continuidade ao seu trabalho.
Voltar para quê, se viesse apenas para repetir o que já
dissera?
Não há o que temer, portanto, pela doutrina espírita
em si mesma e nos seus fundamentos – eles são puros e
estáveis. Deve-se temer, sim, pelo que se fizer de equivocado
a partir de tais conhecimentos. Os conteúdos doutrinários
encontram-se preservados no texto de "O livro dos Espíritos",
que, ao contrário dos escritos evangélicos primitivos,
espalharam-se em milhões de exemplares em numerosas línguas
vivas.
Terceiro: Falávamos há pouco de áreas ainda não
suficientemente exploradas ou até desconhecidas. Uma delas
está na interação espiritismo e ciência.
A doutrina tende a uma aceitação cada vez mais ampla
por parte daqueles que costumam considerar seus postulados como simples
objeto de fé, crença, descrença, dúvida
ou rejeição. Matem-se estes na expectativa de pronunciamentos
decisivos que a ciência como um todo ainda não está
resolvida a proclamar, ainda que crescente número de cientistas
e pesquisadores já se tenham declarado convencidos da realidade
espiritual subjacente. A doutrina, por sua vez, tem relevantes contribuições
a oferecer à ciência, sempre interessada em abrir novos
caminhos.
Podemos alinhar alguns deles:
As ciências de radical psi, por exemplo – psicologia,
psiquiatria, psicanálise –, necessitam de criativos e
fecundos inputs já instalados na doutrina, como existência,
preexistência e sobrevivência do ser à morte corporal
e, por conseguinte, reencarnação.
Em idênticas condições de expectativa estão
os ramos do conhecimento que trabalham com o ser biológico/como
a genética, em busca de melhor entendimento de funções
e disfunções orgânicas e mentais. É inegável
a falta que faz neste vetor científico o conceito de perispírito
na sua função de organizador e administrador do corpo
físico no processo da interação espírito
e matéria, bem como na continuidade da vida após a morte.
Ao escrever isto, testemunhamos o grande debate em torno do projeto
genoma que conseguiu, afinal, mapear o sistema genético. Persiste,
no entanto, a grande questão: o que fazer desse novo conhecimento?
Será o gene apenas uma espécie de software bioquímico
regido por combinações aleatórias? Não
teria, porventura, um componente psíquico, ou melhor, espiritual?
Como vão parar na programação genética
comandos cármicos que suscitam, por exemplo, marcas de nascença
que se reportam a vidas anteriores? Como se combinam ou descombinam
em uns tantos de nós para, eventualmente, disparar um processo
canceroso, uma deficiência cardiovascular, uma alergia ou coisas
ainda mais complexas como o autismo, a síndrome de Down, a
genialidade ou a idiotia? Que impulsos determinam que o material nutritivo
recebido da mãe produz a partir de um ovo fecundado/um corpo
físico com cada célula em seu lugar, com suas estruturas
e funções específicas e ordenadas numa afinada
(ou desafinada) orquestração? Será apenas um
jogo bioquímico de acasos?
Como é que o corpo ‘sabe’ que com aquela matéria-prima
tem de construir células nervosas, sanguíneas, ósseas
ou musculares? E depois do pronto o corpo, como ele se desenvolve,
mantém-se e se renova num contínuo processo de troca
com o ambiente em que vive?
E mais: demonstrada como está a sobrevivência do ser
à morte corporal – por mais que ainda se relute em aceitá-la
– como explicar a continuidade do pensamento e da vida se o
cérebro físico se desintegra?
Preservar a doutrina dos Espíritos é, decididamente,
nosso compromisso.
O Espiritismo está apoiado nela e seus postulados fundamentais
estão documentados em "O livro dos Espíritos".
Temos nela um instrumento de busca, aprendizado e alargamento de fronteiras,
não uma finalidade em si mesma.
O que desejamos ou pretendemos, afinal, fazer do Espiritismo?
Essa é uma das perguntas que a nós mesmos podemos e
devemos formular, num momento como este, em que somos solicitados
a uma releitura de Kardec.
Afinal de contas, se ele tivesse preferido limitar-se ao lançamento
da doutrina dos Espíritos e permanecer dentro dela sem dar
mais um único passo, só teríamos hoje a primeira
edição de "O livro dos Espíritos" para
que fizéssemos dele o que entendêssemos e desentendêssemos.
A física não se deteve nas formulações
de Aristóteles ou Demócrito, nem a astronomia parou
em Kepler, Copérnico ou Galileu, por mais inovadoras e até
revolucionárias que fossem para a época em que foram
concebidas. E não terá chegado ao fim de seu caminho
evolutivo com Einstein e a física quântica.
Mesmo depois de ultrapassados esses limites, em futuro que ainda não
somos capazes de imaginar, continuarão válidos os fundamentos
da realidade espiritual compactados em "O livro dos Espíritos".
Kardec estava certo em caracterizá-los como expressões
das leis naturais e teve o bom senso de deixar bem claro que nada
de novo estava sendo inventado para compor o corpo doutrinário
que lhe foi confiado. As leis naturais contidas na física ou
na astronomia foram confirmadas; o que nelas não se enquadrava
eram suposições e hipóteses e foi superado.
A essência do conhecimento sobre a realidade espiritual está
à nossa disposição nas estruturas doutrinárias,
mas temos de entender que a busca em torno desses preceitos nucleares
não termina com aquela etapa de trabalho; ao contrário,
começa ali. Foi o que ele, Kardec, fez do espiritismo, como
também o fizeram seus continuadores imediatos – Denis,
Delanne, Aksakof, Bozzano, Geley – e outros tantos que a estes
sucederam ao longo de quase século e meio.
E nós, o que estamos fazendo? E o que farão os que vierem
depois de nós? E o que faremos nós próprios,
quando para aqui retornarmos em novas existências? Será
que não aprendemos com o lastimável episódio
histórico que fez da doutrina de Jesus o cristianismo institucionalizado
que hoje conhecemos?
Jesus já nos falara das leis naturais a que se refere Kardec:
“Vim para confirmar a lei; não para revogá-la”
– disse.
Nem por isso deixou de dar novo sentido e alargar a visão que
tínhamos delas. Preveniu-nos, ademais, que tinha mais coisas
a dizer e ensinar, o que ficaria para um tempo em que estivéssemos
preparados para dar mais um passo à frente.
Mesmo sujeitos aos temporais das paixões humanas, preservou-se
nos escritos evangélicos sua doutrina, porque eram transparentes
os ensinamentos contidos no Sermão do Monte, nas parábolas,
nas metáforas colhidas nos fatos simples da vida: a sementeira,
a qualidade do solo, a colheita, os frutos, as flores, as pragas,
a chuva, o sol, a pesca, as estações do ano.
Há que entender-se, portanto, que preservar a doutrina dos
Espíritos é uma coisa – imobilizá-la é
outra. Ela precisa exercer sua função de irrigar áreas
cada vez mais amplas do conhecimento, a fim de nos proporcionar uma
leitura da vida em toda a sua plenitude, segundo seus postulados básicos.
Fonte: https://www.herminiomiranda.com.br/?fbclid=IwAR1x4Pe36Sg5Ebd4pC80iicY8qjlSqRLU-Jle4vGjWWm-wC7G27M47NWWwQ
QUEM É HERMINIO
C. MIRANDA?
HERMINIO C. MIRANDA nasceu em 5 de janeiro de 1920,
onde hoje é a cidade de Volta Redonda, RJ.
Em 1937, concluiu o curso ginasial em Barra Mansa,
RJ. Em 1939, para cursar o colegial, ingressou no Colégio
Franciscano Santo Inácio, em Baependi, MG, município
vizinho a Caxambu. Começava ali seu carinho pela estância
mineira.
Em 1947 formou-se em ciências contábeis
pela Escola Técnica de Volta Redonda, onde passou a lecionar
contabilidade bancária e comercial. Ingressou na Companhia
Siderúrgica Nacional, CSN, em 1942, onde se aposentou no
primeiro escalão em 1980, tendo servido no escritório
de Nova Iorque, EUA, de 1950 a 1954.
Casou-se com Inez Chiarelli de Miranda, com quem
teve três filhos: Ana-Maria, Marta e Gilberto.
Publicou contos, crônicas e artigos de teor
literário, filosófico e técnico. Escreveu um
romance inédito, a despeito da opinião elogiosa de
Érico Veríssimo, e publicou outro chamado Resposta
a Josué, em 1946.
Tendo se tornado espírita em 1957, sua primeira
obra espírita, Os procuradores de Deus, um estudo de natureza
filosófica acerca do problema da vida e da morte, foi lançada
em março de 1967 pela Edição Calvário.
Autor de mais de 40 livros, dentre eles diversos
clássicos obrigatórios da literatura espírita,
como Diálogo com as sombras, Diversidade dos carismas e Nossos
filhos são espíritos.
Assinando suas últimas obras como HERMINIO
C. MIRANDA, o autor é um dos campeões de venda da
literatura espírita do Brasil. Aliás, raros escritores
nacionais conseguem tiragens tão expressivas, que já
atingiram mais de 1.400.000 exemplares impressos. Devem-se computar
ainda centenas de artigos e ensaios em revistas e jornais especializados,
que dariam mais diversos volumes.
Sua vasta produção literária
inclui ainda obras que tratam do tempo, de regressão de memória,
de autismo, de múltiplas personalidades, dos primórdios
do cristianismo, todos assuntos que atiçaram sua inesgotável
curiosidade.
Durante muitos anos colaborou com a revista Reformador,
da FEB – Federação Espírita Brasileira,
escrevendo a seção “Lendo e Comentando”
e com artigos avulsos.
Dialogando por décadas com espíritos,
suas obras relatam vivências, fatos e casos reais, a exemplo
da singular coleção “Histórias que os
espíritos contaram”.
Originário de família católica,
aproximou-se do espiritismo por curiosidade, mas sobretudo pela
insatisfação com a falta de respostas das religiões.
Tendo por guias a razão e a paixão
pela pesquisa profunda e incessante, e auxiliado por uma sólida
cultura humanista, tornou-se experimentado magnetizador e uma das
maiores autoridades no campo da paranormalidade e da regressão
de memória, tendo realizado pesquisas sobre a reencarnação
de personalidades notórias na ciência e na história,
como Giordano Bruno e Fénelon, e deixando como legado um
vasto material de estudo que revela, sobretudo, o seu exemplo inspirador
para os estudiosos do presente e do futuro.
Nesse leque de habilidades, Herminio acrescenta
a de tradutor, de autores como Charles Dickens, J. W. Rochester
e Luís J. Rodriguez. Em O mistério de Edwin Drood,
romance inacabado de Charles Dickens, a sua tradução
valoriza o original The mystery of Edwin Drood. Todavia, a rica
construção literária de A história triste,
de Patience Worth – cujo enigma investigou –, talvez
seja sua mais primorosa tradução.
Desencarnou em 8 de julho de 2013, aos 93
anos, no Rio de Janeiro, RJ. Foi sepultado no cemitério Jardim
da Saudade (Sulacap).
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