A figura histórica e humana
de Judas Iscariotes sempre exerceu grande fascinação
sobre meu espírito. Se bem que, aqui e acolá, se encontre
na literatura espírita referências ao infeliz Apóstolo,
muito pouco se conhece de seu posterior desenvolvimento espiritual.
Sabemos, certamente, por meio de revelações esparsas,
que Judas, condicionado como qualquer um de nós à sábia
e inflexível lei cármica, aqui voltou muitas vezes para
purgar suas falhas no sofrimento redentor. Estamos certos, também,
de que o Cristo não o abandonou à sua própria
sorte, nem pretendeu deixar que a pobre criatura, vítima de
sua fraqueza, ficasse mergulhada na amargura sem remissão do
sofrimento eterno.
Neste, como em tantos outros pontos, a Doutrina que os Espíritos
nos ensinaram é muito mais humana e racional que as que aí
estão, miudamente trabalhadas pelos encarnados. É muito
mais reconfortante, e infinitamente mais de acordo com a moral cristã,
sabermos que o Espírito do Iscariotes, depurado de suas imperfeições,
evoluído moral e espiritualmente, está hoje entre os
mais chegados colaboradores do Senhor, do que imaginá-lo como
trágica ruína humana, batida pela miséria eterna.
Não seria Jesus, o gênio supremo da bondade e do amor,
que deixaria seu antigo discípulo perder-se nas estradas agrestes
da eterna agonia. Se nenhuma das ovelhas que o Pai lhe confiou se
perderá, como poderia perder-se justamente uma daqueles que
o acompanhou pelas rotas poeirentas da Terra Santa, que o ajudou,
por algum tempo, a espalhar aos quatro ventos sua mensagem de amor
e humildade, que, bem ou mal, sonhou com o Mestre os mesmos sonhos
de universal fraternidade? Como poderia Jesus condenar o antigo companheiro
que, num momento de fraqueza e invigilância, se deixou levar
por enganadoras ilusões? E, afinal de contas, se Jesus lhe
perdoou e o ajudou a recuperar-se para a glória espiritual,
quem somos nós, imperfeitíssimas criaturas, para arrastar
na lama a figura do pobre irmão que fraquejou? Tal como diria
o Mestre: aquele que não tiver culpa atire a primeira pedra.
Por outro lado, é preciso atentar nas circunstâncias
daquele impensado gesto. Judas não foi o único, nem
mesmo o maior responsável pela dolorosa tragédia da
cruz. Foi mero instrumento de forças enceguecidas pelo ódio
irracional. Vencido pela miragem do poder, com que lhe acenaram os
inimigos do Cristo, ele se prestou ao lamentável e infeliz
papel de indicar, à sanha destruidora dos algozes, aquele que
o havia acolhido no círculo mais íntimo de seus seguidores.
Seu espírito era fraco e imaturo. Sonhava com uma fatia de
poder, e se deixou fascinar. Era tão fraco que, consumado o
gesto supremo da traição, não encontrou em si
mesmo forças morais para enfrentar as consequências dramáticas
do arrependimento. O tremendo remorso que experimentou foi grande
demais para as forças do seu espírito, e, ainda uma
vez, sucumbiu, escapando pela porta falsa do suicídio, numa
tentativa última de fugir de si mesmo.
Mais uma vez se enganou o pobre e desorientado irmão. Libertara-se
do envoltório físico, mas não se libertara de
suas angústias. Muito pelo contrário: era justamente
agora, com a percepção mais aguçada, que de fato
sofria as insuportáveis aflições do remorso.
E isso era o princípio da redenção. Milhares,
milhões de vezes, teria que reviver a cena amarga do beijo
portador da morte. Jamais haveria de esquecer o doce olhar do Profeta
divino, ao recebê-lo como discípulo amigo e não
como mensageiro da dor. Como tudo aquilo continuava vivo nos seus
olhos! Sim, porque ainda via, sentia dores e sufocava e gemia e gritava
desesperado. Estranho! Então não morrera? Como é
que a corda ainda lhe apertava a garganta ressequida e os trinta dinheiros
ainda lhe pesavam sobre o coração? Sentia-se oprimido,
miserável, perdido, sozinho, num mundo escuro, desconhecido
e sem limites. Acima daquela solidão opressiva, pairavam os
olhos meigos, puros, sublimes, de Jesus. Só então pudera
compreender toda a extensão insondável da sua falta.
Não nos foi dado ainda acompanhar, nos séculos que se
seguiram, a trajetória espiritual do pobre irmão Judas
Iscariotes. Não obstante, imaginamos quanto sofreu e lutou
para novamente poder fitar, com tranquila humildade e reconhecimento,
os olhos daquele que, certa vez, ajudara a crucificar.
Hoje, o antigo Apóstolo retomou seu lugar entre os seguidores
mais próximos do Cristo. Nas profundezas de seu coração
deve sentir-se amplamente recompensado de todas as dores que sofreu.
Algum dia, talvez permitam as entidades superiores que se revele ao
mundo essa história magnífica, para que, por meio de
todo o seu poder de sugestão, saibam as criaturas que mesmo
a falta mais negra não precipita o Espírito na desgraça
eterna, mas apenas retarda sua evolução para a Pátria
da Luz.
Deus não seria Deus se, pela falta cometida neste átimo
a que chamamos vida, fosse preciso viver uma eternidade de angústias
e sofrimentos. Assim, Deus não criaria almas, frágeis
na sua ignorância, para depois esmagá-las impiedosamente,
com o castigo eterno, pela falta ocasional. Se nos deu o livre-arbítrio,
acrescentou também a possibilidade de reparação,
sem o que não poderíamos jamais alcançar a glória
de poder colaborar em sua obra portentosa.
Já é tempo de trabalhar pela reabilitação
da figura do antigo Iscariotes. É necessário remover
de sua imagem histórica a superada mancha da traição
que pesa sobre sua memória. Ele não foi o primeiro ser
humano a errar nem será o último. Também não
foi o primeiro a resgatar seu erro, pagando até o último
ceitil, como diz a Lei, para retomar a caminhada para o Alto. Ele
muito sofreu para conquistar a sua paz e certamente saberá
como ajudar-nos a encontrar a nossa. Também temos pesados débitos
a resgatar. Não entregamos Jesus aos seus algozes; vezes sem
conta, porém, temos crucificado sua memória, vendido
seus princípios, falhado no cumprimento da moral que Ele pregou.
Não estamos, pois, em condições de atirar coisa
alguma à nobre face de Judas, o redimido.
Transcrição parcial de
Reformador.
ano 77, n. 3, p. 5(49)-6(50) mar. 1959.