MAU-OLHADO
A 'desencarnação' do chuchuzeiro
Em tempos outros, ainda jovem, eu
vivia numa cidade do interior e, no modesto quintal, colhíamos
alguns legumes para os gastos da casa. Certa vez visitou-nos uma vizinha
que se revelou encantada com o viçoso pé de chuchu,
ao qual endereçou seus melhores elogios. Que beleza! Gomo é
que eu conseguira ter chuchus tão bonitos no exíguo
espaço de terreno que mal dava para dois ou três canteiros
pequenos?
O chuchuzeiro entrou a "desencarnar"
na hora.
Creio que não gostou dos elogios
da moça. Mal ela virou as costas, ele começou a murchar
como se lhe houvessem extraído, de uma só vez, toda
a sua vitalidade. Não houve o que o salvasse.
Em poucas horas, pendiam, sem vida,
as suas lianas e os frutos caíam irremediavelmente. Estava
mortíssimo, sem apelo. Não restava senão limpar
o terreno de toda a sua antes vistosa folharada e dos talos sem vida.
Nascido e criado pelo interior, sempre
ouvira falar de mau-olhado. Sabia de histórias a respeito contadas
por gente que merecia crédito, mas ficava sempre com uma ponta
de desconfiança. Seria mesmo possível aquilo? Sem ter
ainda firmado um conceito próprio, assumia a velha atitude
de que nos fala Cervantes, a de que essa história de bruxarias
é bobagem, mas que elas existem, não há dúvida.
O malogrado chuchuzeiro foi a primeira demonstração
disso. Não havia bruxaria, mas, lá estava ele reduzido
a um montão de folhas e caules mortos.
A dúvida ficou no ar por muito tempo, ou melhor,
em suspensão na minha mente. Quando li O livro dos
espíritos pela primeira vez, alguns anos após
a dramática `desencarnação' do pé de chuchu,
encontrei esta resposta à pergunta número 552:
Algumas pessoas dispõem de grande força
magnética, de que podem fazer mau uso, se maus forem seus próprios
espíritos, caso em que possível se torna serem secundados
por outros espíritos maus.
(Kardec, Allan. 1981.)
Prossegue a pequena dissertação,
dizendo que não há poder mágico algum, que somente
existe na imaginação de pessoas supersticiosas, ignorantes
das verdadeiras leis da natureza.
Os fatos que citam, como prova da
existência desse poder, são fatos naturais mal-observados
e sobretudo mal-compreendidos.
Não creio que a nossa visitante
daquele dia fosse exatamente um espírito maldoso, mas não
vejo como desvinculá-la do súbito aniquilamento do vistoso
pé de chuchu.
Alguma descarga magnética involuntária
da parte dela? Ou teria ela absorvido para seu uso pessoal as energias
que movimentavam o pé de chuchu? É certo que operavam
ali leis escassamente conhecidas e que os fatos, por mais estranhos,
"mal observados e sobretudo mal-compreendidos", como dizem
os espíritos, eram `fatos naturais'.