A questão da morte sempre
intrigou o homem, que, atônito, buscou dela se afastar a todo
custo.
Não foi fácil enfrentá-la no passado e, por conta
do avanço do materialismo sobre as mentes fracas e despreparadas,
o momento da temida e entendida destruição final e fatal,
aterroriza a todos. Além da lamentável contribuição
dos defensores da unicidade da existência, as religiões
ofereceram significativa contribuição ao proporem a
possibilidade do crente cometer em vida pecados irremissíveis.
Aos imperdoáveis, informa sobre locais no espaço dedicados
ao aprisionamento desses infelizes infratores, submetendo-os ainda
ao sofrimento eterno.
Em paralelo às propostas destas filosofias ou ideologias religiosas,
há uma minoria que já entende não haver a destruição
total do ser pensante após a chegada da morte, e ela virá
inexorável. Já sabem também não existir
locais de dores perpétuas, pois o Criador sempre promove, por
todos os meios, a reabilitação do pecador, afinal, nenhuma
ovelha do rebanho se perderá e o Magnânimo não
deseja a morte do pecador, mas sim a sua reabilitação.
Contudo, alguns, entre esses que já compreendem não
haver a morte — ao invés, apenas vida —, criaram
uma ilusão de que com a morte, tudo se resolverá. Os
problemas materiais desaparecerão, darão adeus às
doenças, não sentirão mais as pressões
diárias provocadas pelas cobranças da sociedade, as
dificuldades de relacionamento deixarão de existir, ou seja,
só haverá felicidade e alegria. Assim creem, independentemente
do que fizeram ou deixaram de fazer durante a existência carnal.
É fato que com a passagem para o lado de lá, muitas
situações que agora nos afligem são interrompidas;
entretanto, outras se apresentam, em função do novo
estado da alma, agora Espírito desencarnado.
Em relação às questões puramente referentes
à matéria, há a interrupção imediata,
contas e compromissos de ordem meramente materiais desaparecem, mas
não as repercussões da falta do atendimento destas despesas
ou dívidas, pois os credores, caso não possam obter
os valores devidos dos familiares, ficarão mentalizando o falecido,
talvez com vibrações de ódio e vingança.
O ideal é sempre deixar tudo bem acertado e não imaginar
que ao morrer o credor deve assumir o prejuízo.
Em relação às enfermidades, com certeza, muitas
sensações de desconforto originadas pela deterioração
da matéria desaparecem, contudo, as impressões dessas
dores, não se apagam, instantaneamente, pois o Espírito
pode guardar íntima relação com o corpo por dias,
semanas, meses, anos ou mesmo séculos. Assim, enquanto ele
não desencarna, ou seja, perde as reminiscências da influência
dos costumes materiais, permanece doente, com dores, mal-estar, desconforto,
até que seu perispírito se reintegre na totalidade ao
plano espiritual, perdendo a materialidade construída por conta
da reentrada na veste carnal. Além disso, os distúrbios
mentais que possa ter enfrentado também permanecem, em parte
ou no todo, dependem de como foi a vivência da alma com o seu
corpo biológico.
As exigências sociais com suas muitas convenções
desaparecem, porém, há outras demandas a serem atendidas.
Uma das principais surgem da consciência culpada do Espírito.
Não há transgressões das leis divinas que possam
ser apagadas, exceto pelo exercício continuado no amor. A sociedade,
com seu ordenamento jurídico, pode não nos alcançar
em vida, mas as consequências dos deslizes permanecem no íntimo
de cada um e, ao voltar à vida verdadeira, o Espírito,
aos poucos, ou imediatamente, passa a sentir as pressões que
vêm de dentro, da consciência, informando que é
necessário reparar os prejuízos causados ao próximo,
mesmo que a sociedade não tenha percebido e punido tais infrações.
Essas pendências serão sentidas até que o pecador
tenha coberto sua multidão de pecados pelo exercício
da caridade. Caso não pacifique sua consciência, ela
exercerá as pressões correspondentes às faltas
praticadas na antiga existência carnal, pois dívida adiada
não é dívida paga.
No campo das relações afetivas, muita coisa pode acontecer.
Poderemos encontrar antigos afetos que nos antecederam na passagem
final, amizades antigas podem ser de novo restauradas, o que nos dará
muita alegria.
Por outro lado, no imediato momento em que colocamos os pés
no lado de lá, ficamos muitas vezes à mercê de
antigos inimigos, desafetos de outras eras e dessa mesma existência
corpórea, que acabamos de deixar, ou mesmo de Espíritos
desencarnados desconhecidos, desocupados, ociosos, viciados, tão
ou mais ignorantes que os recém- desencarnados, formando bandos
e comunidades, constituindo colônias estranhas, burgos exóticos,
agrupando-se conforme as preferências e costumes pessoais adquiridos
na última existência, quando por aqui ainda transitavam.
Como se vê, ninguém melhora de imediato com a morte,
pois conforme aprendemos com a Doutrina Espírita, a vida após
a morte só se caracteriza como melhor quando o Espírito
teve uma existência regularmente pautada na Lei de Deus. Do
contrário, podemos afirmar: após a morte não
haverá estado melhor, tampouco vida melhor, muito menos lugar
melhor, e mais, o morto não irá para o céu, até
porque ele não existe no espaço.
Sendo assim, aqueles que ainda permanecem na Terra e assistem seus
afeiçoados serem convocados a fazer a grande transição,
orem por eles. E muito, em dias de Finados ou não. A prece
dita com o fervor da alma poderá amenizar as muitas incertezas
enfrentadas por quem raramente se pautou segundo os ditames do Cristo.