Espiritualidade e Sociedade





Rogério Miguez


>    A conversão de Paulo de Tarso e a lei do progresso

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Rogério Miguez
>   A conversão de Paulo de Tarso e a lei do progresso

 

 

O nosso processo evolutivo, seja em qual reino for, ocorre de modo geral, continuamente, contemplando ainda a possibilidade de estacionamento temporário, todavia, nunca eterno. A natureza não dá saltos, esclarece a Doutrina Espírita; não há avanços bruscos, bem informa a lei do progresso contida na parte terceira em O Livro dos Espíritos.

De ordinário, ao tomar conhecimento de biografias de pessoas ilustres, pode-se acompanhar a evolução gradativa do Espírito através dos marcos em sua vida, passo a passo, ou seja, construindo paulatinamente a sua melhoria em conhecimentos tanto quanto em sentimentos, culminando, ao término da existência, em uma personagem de nossa História com acentuado saber e realizações, um nome a ser lembrado.

Entretanto, há casos de Espíritos cuja trajetória nos faz refletir sobre este modelo divino de evolução, concluindo vez por outra, em função de nosso entendimento, por ora acanhado, pela possibilidade de um progresso extremamente acentuado em apenas uma vida, quando o Espírito aparentemente não se encontraria apto a realizar tal salto. Entre outros casos que nos intrigam, podemos citar o de Paulo de Tarso, Apóstolo dos gentios.

Filho de hebreus, da tribo de Benjamin, como era costume, foi circuncidado ao oitavo dia, recebendo educação continuada e consistente na lei judaica de então (Fp 3:5). Conhecedor dos idiomas: grego, latim, além da língua natal, era também cidadão romano (At 22:27-28). Artesão, por profissão, fabricava tendas (At 18:3). O Apóstolo Paulo nasceu no início do primeiro século de nossa era na cidade de Tarso da Cilícia, por isso era conhecido como Saulo de Tarso (At 9:11).

Ainda jovem, foi para Jerusalém e na escola de Gamaliel (At 22:3) se especializou no conhecimento dos livros sagrados. Tornou-se fariseu, ou seja, especialista rigoroso e irrepreensível no cumprimento de toda a antiga lei. Zeloso pela sua religião perseguiu cristãos (Fp 3:6), a quem julgava inimigos de sua crença.

Resumidamente, este foi Saulo, um hebreu típico de seu meio e de seu tempo, perfeitamente integrado à comunidade a que pertencia. Sua vida continuaria inalterada, contudo, na famosa estrada para Damasco, quando se dirigia àquela cidade com cartas autorizando-o a prender cristãos, se deparou com o seu maior perseguido: Jesus o Cristo de Deus, e a partir deste inesquecível momento, teve a sua vida mudada por completo, passando de caçador de cristãos ao maior divulgador da mensagem do Rei dos Reis. Através de exemplos e pregações incansáveis, tornou possível a difusão do Cristianismo em parte da Europa e da Ásia. Fez chegar à mensagem cristã aos gentios, aos reis e a muitos outros filhos de Israel (At 9:15).

No entanto, antes de Saulo se tornar a carta viva anunciando a Boa Nova aos quatro cantos, pergunta-se: quantos deslizes cometeu até a sua conversão ao Cordeiro de Deus? De quantos dramas participou, sendo em muitos o seu principal protagonista? Quantas lágrimas fez derramar pelos cristãos implacavelmente perseguidos? Qual sentimento nutriu pelos indefesos seguidores do Cristo?

Considerando esta vida pregressa, quando Saulo estava desorientado perseguindo cristãos, indaga-se: como explicar tamanha mudança de rumo? Não parece contradizer a lei da evolução regular e lenta? Como pôde dar tamanho testemunho: seja pregando o Evangelho, seja pelos seus continuados exemplos de vida, seja enviando cartas disseminando as máximas cristãs, se era contumaz pecador aos olhos de muitos?

Ele mesmo, após a conversão, reconheceu-se como tal: “persegui a igreja de Deus”, afirmou (1Co 15:9). Em outra passagem, ele se denomina “perseguidor da igreja” (Fp 3:6), ainda, uma vez mais, assevera: “como sobremaneira perseguia eu a igreja de Deus e a assolava(Gl 1:13). E mais: “a mim, que, dantes, fui blasfemo, e perseguidor, e opressor; mas alcancei misericórdia, porque o fiz ignorantemente, na incredulidade(1 Tm 1:13).

Coube-lhe também a participação ativa na trama que levou Estevão, futuro cunhado, à morte, mesmo tendo integral conhecimento do quinto mandamento contido na lei mosaica, a qual conhecia pela letra e não pelo espírito: não matarás.

Para penetrarmos no entendimento desta súbita e aparentemente inexplicável alteração de conduta, precisamos necessariamente considerar a existência de outra importantíssima lei de Deus - a reencarnação - caso contrário, poderíamos ser levados a supor a existência de alguma regalia concedida a este Espírito, bem como a outros de nossa História, quando igualmente deixaram uma vida de atos distanciados da moral, e subitamente abraçaram com fervor o caminho da retidão. Poder-se-ia ajuizar também sobre a ocorrência de algum milagre ou ainda, mais grave, um particular desígnio divino assinalando para o bem certas almas, em detrimento de outras, todas inaceitáveis hipóteses à luz do amor distribuído equanimemente pela suprema Magnanimidade.

Através das encarnações, desenvolvem-se virtudes, o intelecto, bem como a sabedoria. Esta é a vontade do Pai ao determinar que se faça a evolução dos Espíritos pela continuada sucessão de vidas. Tal é a lei. Ora, em Saulo de Tarso, algumas destas conquistas eram evidentes, pois sabemos da rápida projeção na sociedade judaica, como ativo cumpridor e conhecedor da antiga lei.

E quais virtudes seriam estas? Paciência, pertinácia, constância, dedicação, determinação, disciplina, energia, aptidão a agir, coragem, afeição aos estudos, entre outras, certamente possuía também intelecto apurado, caso contrário, sem a reunião destes talentos, não poderia dar cumprimento à perseguição de cristãos como o fez, na intensidade em que viveu aquela sua primeira “missão” abraçada.

Porém, na estrada para Damasco, ao escutar a pergunta do Cristo: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” (Atos 9:4), começa a sua segunda e verdadeira missão, com sua vida mudada radicalmente. Iniciou-se naquele instante a morte do homem velho substituído pelo homem novo. Paulo ainda desconhecia que deixava a condição de perseguidor para assumir a de perseguido, e a pergunta que fizera ao Mestre ainda ecoa em nossas mentes: “Senhor, que queres que eu faça?(Atos 9:6).

Tudo indica Jesus ter falado ao coração de Saulo de modo perfeitamente compreensível, em profundidade, e Saulo, a partir de então, toma das virtudes e capacidades, já possuídas, construídas e conquistadas em muitas vidas através de seu esforço pessoal - e que estavam sendo utilizadas com propósito equivocado por ignorância -, e usa estas inclinações natas para viver intensa e plenamente a Boa Nova, deixando de lado definitivamente o entendimento falso sedimentado por conta de sua educação formal judaica.

Positivamente, a natureza não caminha aos saltos; tudo se encadeia e se explica. Há chaves para abrir certas portas que nos apresentam explicações claras, simples, sem misticismo, destituídas de qualquer formalismo, tudo às claras, e principalmente ao alcance de todos: a reencarnação é uma delas.

Não houve qualquer alteração na natureza do Espírito Saulo para justificar a transfiguração em Paulo. Bastou uma pergunta, uma simples indagação, feita com extremado amor de quem já entende e pratica claramente a vontade do Pai. Não houve quebra de nenhuma lei divina; Deus não aquinhoou Paulo naquele instante com virtudes e conquistas não originalmente possuídas por Saulo, pois isto seria uma transgressão à justiça divina, podendo ser feita por Deus, evidente caso O desejasse, mas felizmente Ele assim não obra.

Jesus conhecia o potencial de Saulo, isto é claro, pois o Mestre não convidaria um Espírito despreparado para desempenhar tal incumbência. Depois de Jesus, é considerada a figura mais importante na disseminação da Boa Nova. Se não fosse Paulo, há quem defenda esta tese, a mensagem cristã não passaria de mais uma circunscrita seita judaica.

Argumentar ainda ser Saulo um privilegiado ao ter aquele contato estreito com o Cristo, também não explica sua transformação, pois se assim fosse, qual a razão de não termos visto nascer muitos “Paulos” transformados, entre todos aqueles que não só tiveram encontros particulares com o Cristo, mas, principalmente, conviveram com Ele?

Tão rápida transformação não é comum, exigindo então algo mais no processo. Neste caso, Jesus despertou o psiquismo de Saulo, ajudando-o a enxergar o rumo incorreto trilhado, a forma como usava suas naturais aptidões.

De modo a não nos distanciarmos daqueles tempos memoráveis, poderíamos trazer esta lição para o nosso cotidiano, aproveitando esta maravilhosa lição e também indagar: quem sabe também estamos como Saulo nas estradas de Israel perseguindo Jesus? Quem sabe estamos matando e destruindo bons ideais e esperanças em nome de propostas falsas da cultura moderna? Quem sabe não estamos de posse de “Cartas para Damasco”, de modo a aprisionar todos aqueles que buscam seguir o Cristo em sua maior simplicidade?

Terá Jesus também um encontro conosco nas estradas da vida, mais uma vez, para nos indagar por qual razão não vivemos como Ele nos exemplificou?

Eis o grande desafio de todos nós, vencermos o Bom Combate como Paulo o fez com maestria.

 

 

 

* texto completo disponível em pdf - clique aqui para acessar

 

 

Fonte: texto enviado pelo autor
> Revista Internacional de Espiritismo – Editora O Clarim - 09/2015.

 

 

 

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