O nosso processo evolutivo, seja em
qual reino for, ocorre de modo geral, continuamente, contemplando
ainda a possibilidade de estacionamento temporário, todavia,
nunca eterno. A natureza não dá saltos, esclarece a
Doutrina Espírita; não há avanços bruscos,
bem informa a lei do progresso contida na parte terceira em O
Livro dos Espíritos.
De ordinário, ao tomar conhecimento de biografias de pessoas
ilustres, pode-se acompanhar a evolução gradativa do
Espírito através dos marcos em sua vida, passo a passo,
ou seja, construindo paulatinamente a sua melhoria em conhecimentos
tanto quanto em sentimentos, culminando, ao término da existência,
em uma personagem de nossa História com acentuado saber e realizações,
um nome a ser lembrado.
Entretanto, há casos de Espíritos cuja trajetória
nos faz refletir sobre este modelo divino de evolução,
concluindo vez por outra, em função de nosso entendimento,
por ora acanhado, pela possibilidade de um progresso extremamente
acentuado em apenas uma vida, quando o Espírito aparentemente
não se encontraria apto a realizar tal salto. Entre outros
casos que nos intrigam, podemos citar o de Paulo de Tarso, Apóstolo
dos gentios.
Filho de hebreus, da tribo de Benjamin, como era costume, foi circuncidado
ao oitavo dia, recebendo educação continuada e consistente
na lei judaica de então (Fp 3:5).
Conhecedor dos idiomas: grego, latim, além da língua
natal, era também cidadão romano (At 22:27-28). Artesão,
por profissão, fabricava tendas (At 18:3).
O Apóstolo Paulo nasceu no início do primeiro século
de nossa era na cidade de Tarso da Cilícia, por isso era conhecido
como Saulo de Tarso (At 9:11).
Ainda jovem, foi para Jerusalém e na escola de Gamaliel (At
22:3) se especializou no conhecimento dos livros sagrados.
Tornou-se fariseu, ou seja, especialista rigoroso e irrepreensível
no cumprimento de toda a antiga lei. Zeloso pela sua religião
perseguiu cristãos (Fp 3:6), a
quem julgava inimigos de sua crença.
Resumidamente, este foi Saulo, um hebreu típico de seu meio
e de seu tempo, perfeitamente integrado à comunidade a que
pertencia. Sua vida continuaria inalterada, contudo, na famosa estrada
para Damasco, quando se dirigia àquela cidade com cartas autorizando-o
a prender cristãos, se deparou com o seu maior perseguido:
Jesus o Cristo de Deus, e a partir deste inesquecível momento,
teve a sua vida mudada por completo, passando de caçador de
cristãos ao maior divulgador da mensagem do Rei dos Reis. Através
de exemplos e pregações incansáveis, tornou possível
a difusão do Cristianismo em parte da Europa e da Ásia.
Fez chegar à mensagem cristã aos gentios, aos reis e
a muitos outros filhos de Israel (At 9:15).
No entanto, antes de Saulo se tornar a carta viva anunciando a Boa
Nova aos quatro cantos, pergunta-se: quantos deslizes cometeu até
a sua conversão ao Cordeiro de Deus? De quantos dramas participou,
sendo em muitos o seu principal protagonista? Quantas lágrimas
fez derramar pelos cristãos implacavelmente perseguidos? Qual
sentimento nutriu pelos indefesos seguidores do Cristo?
Considerando esta vida pregressa, quando Saulo estava desorientado
perseguindo cristãos, indaga-se: como explicar tamanha mudança
de rumo? Não parece contradizer a lei da evolução
regular e lenta? Como pôde dar tamanho testemunho: seja pregando
o Evangelho, seja pelos seus continuados exemplos de vida, seja enviando
cartas disseminando as máximas cristãs, se era contumaz
pecador aos olhos de muitos?
Ele mesmo, após a conversão, reconheceu-se como tal:
“persegui a igreja de Deus”, afirmou (1Co
15:9). Em outra passagem, ele se denomina “perseguidor
da igreja” (Fp 3:6), ainda, uma
vez mais, assevera: “como sobremaneira
perseguia eu a igreja de Deus e a assolava” (Gl
1:13). E mais: “a mim, que, dantes, fui blasfemo,
e perseguidor, e opressor; mas alcancei misericórdia, porque
o fiz ignorantemente, na incredulidade” (1
Tm 1:13).
Coube-lhe também a participação ativa na trama
que levou Estevão, futuro cunhado, à morte, mesmo tendo
integral conhecimento do quinto mandamento contido na lei mosaica,
a qual conhecia pela letra e não pelo espírito: não
matarás.
Para penetrarmos no entendimento desta súbita e aparentemente
inexplicável alteração de conduta, precisamos
necessariamente considerar a existência de outra importantíssima
lei de Deus - a reencarnação - caso contrário,
poderíamos ser levados a supor a existência de alguma
regalia concedida a este Espírito, bem como a outros de nossa
História, quando igualmente deixaram uma vida de atos distanciados
da moral, e subitamente abraçaram com fervor o caminho da retidão.
Poder-se-ia ajuizar também sobre a ocorrência de algum
milagre ou ainda, mais grave, um particular desígnio divino
assinalando para o bem certas almas, em detrimento de outras, todas
inaceitáveis hipóteses à luz do amor distribuído
equanimemente pela suprema Magnanimidade.
Através das encarnações, desenvolvem-se virtudes,
o intelecto, bem como a sabedoria. Esta é a vontade do Pai
ao determinar que se faça a evolução dos Espíritos
pela continuada sucessão de vidas. Tal é a lei. Ora,
em Saulo de Tarso, algumas destas conquistas eram evidentes, pois
sabemos da rápida projeção na sociedade judaica,
como ativo cumpridor e conhecedor da antiga lei.
E quais virtudes seriam estas? Paciência, pertinácia,
constância, dedicação, determinação,
disciplina, energia, aptidão a agir, coragem, afeição
aos estudos, entre outras, certamente possuía também
intelecto apurado, caso contrário, sem a reunião destes
talentos, não poderia dar cumprimento à perseguição
de cristãos como o fez, na intensidade em que viveu aquela
sua primeira “missão” abraçada.
Porém, na estrada para Damasco, ao escutar a pergunta do Cristo:
“Saulo, Saulo, por que me persegues?” (Atos
9:4), começa a sua segunda e verdadeira missão,
com sua vida mudada radicalmente. Iniciou-se naquele instante a morte
do homem velho substituído pelo homem novo. Paulo ainda desconhecia
que deixava a condição de perseguidor para assumir a
de perseguido, e a pergunta que fizera ao Mestre ainda ecoa em nossas
mentes: “Senhor, que queres que eu faça?”
(Atos 9:6).
Tudo indica Jesus ter falado ao coração de Saulo de
modo perfeitamente compreensível, em profundidade, e Saulo,
a partir de então, toma das virtudes e capacidades, já
possuídas, construídas e conquistadas em muitas vidas
através de seu esforço pessoal - e que estavam sendo
utilizadas com propósito equivocado por ignorância -,
e usa estas inclinações natas para viver intensa e plenamente
a Boa Nova, deixando de lado definitivamente o entendimento falso
sedimentado por conta de sua educação formal judaica.
Positivamente, a natureza não caminha aos saltos; tudo se encadeia
e se explica. Há chaves para abrir certas portas que nos apresentam
explicações claras, simples, sem misticismo, destituídas
de qualquer formalismo, tudo às claras, e principalmente ao
alcance de todos: a reencarnação é uma delas.
Não houve qualquer alteração na natureza do Espírito
Saulo para justificar a transfiguração em Paulo. Bastou
uma pergunta, uma simples indagação, feita com extremado
amor de quem já entende e pratica claramente a vontade do Pai.
Não houve quebra de nenhuma lei divina; Deus não aquinhoou
Paulo naquele instante com virtudes e conquistas não originalmente
possuídas por Saulo, pois isto seria uma transgressão
à justiça divina, podendo ser feita por Deus, evidente
caso O desejasse, mas felizmente Ele assim não obra.
Jesus conhecia o potencial de Saulo, isto é claro, pois o Mestre
não convidaria um Espírito despreparado para desempenhar
tal incumbência. Depois de Jesus, é considerada a figura
mais importante na disseminação da Boa Nova. Se não
fosse Paulo, há quem defenda esta tese, a mensagem cristã
não passaria de mais uma circunscrita seita judaica.
Argumentar ainda ser Saulo um privilegiado ao ter aquele contato estreito
com o Cristo, também não explica sua transformação,
pois se assim fosse, qual a razão de não termos visto
nascer muitos “Paulos” transformados, entre todos aqueles
que não só tiveram encontros particulares com o Cristo,
mas, principalmente, conviveram com Ele?
Tão rápida transformação não é
comum, exigindo então algo mais no processo. Neste caso, Jesus
despertou o psiquismo de Saulo, ajudando-o a enxergar o rumo incorreto
trilhado, a forma como usava suas naturais aptidões.
De modo a não nos distanciarmos daqueles tempos memoráveis,
poderíamos trazer esta lição para o nosso cotidiano,
aproveitando esta maravilhosa lição e também
indagar: quem sabe também estamos como Saulo nas estradas de
Israel perseguindo Jesus? Quem sabe estamos matando e destruindo bons
ideais e esperanças em nome de propostas falsas da cultura
moderna? Quem sabe não estamos de posse de “Cartas para
Damasco”, de modo a aprisionar todos aqueles que buscam seguir
o Cristo em sua maior simplicidade?
Terá Jesus também um encontro conosco nas estradas da
vida, mais uma vez, para nos indagar por qual razão não
vivemos como Ele nos exemplificou?
Eis o grande desafio de todos nós, vencermos o Bom Combate
como Paulo o fez com maestria.