“Por uma aberração
da inteligência, pessoas há que só vêem
nos seres orgânicos a ação da matéria
e a esta atribuem todos os nossos atos.” Esta frase aparece
no início do comentário de Allan Kardec às
questões 147 e 148 de O Livro dos Espíritos
[1], a respeito do Materialismo. Os avanços no sequenciamento
da molécula do DNA de vários seres vivos, incluindo
o ser humano, estão permitindo aos cientistas descobrir as
causas de uma série de doenças, como o câncer,
proporcionar o desenvolvimento de produtos geneticamente modificados
(os produtos transgênicos) e abrir perspectivas quanto à
manipulação dos genes ainda durante o processo de
formação do feto. Porém, essas pesquisas tem
gerado o surgimento de questões éticas como a clonagem
de um indivíduo e, recentemente, a questão do comportamento
humano ser consequência de determinados genes (1).
É sobre essa última questão que desejamos discutir
nesta matéria. Ela se enquadra na afirmativa acima de Kardec
e o destaque que o Genoma Humano tem recebido da mídia nacional
e internacional revela a crença materialista por detrás
dele. Motivados por um artigo publicado na revista internacional
Journal of Molecular Biology (abril de 2002) [2]
e por uma matéria publicada na revista Pesquisa
Fapesp Especial (abril de 2003) [3]
apresentaremos uma discussão sobre o assunto que consideramos
ser de grande interesse ao movimento espírita já que
ele envolve a questão da identidade ou individualidade dos
Espíritos.
No artigo da referência [2],
o professor de Bioética da Faculdade de Medicina da Universidade
de Genebra (Suíça), Prof. Dr. Alex Mauron, questiona
a crença de que todas as características do ser humano,
incluindo os comportamentos e sentimentos de ordem psicológicas,
são comandados pelos genes. Ele batiza essa idéia
de “Metafísica genômica” pelo fato do Genoma
ser considerado como sendo a “alma” de cada indivíduo.
Os Espíritos são bastante claros a esse respeito [1]:
"361. Qual a origem das
qualidades morais, boas ou más, do homem?
“São as do Espírito nele encarnado.
Quanto mais puro é esse Espírito, tanto mais propenso
ao bem é o homem.
370. Da influência dos órgãos se pode inferir
a existência de uma relação entre o desenvolvimento
dos do cérebro e o das faculdades morais e intelectuais?
“Não confundais o efeito com a causa.
O Espírito dispõe sempre das faculdades que lhe
são próprias. Ora, não são os órgãos
que dão as faculdades, e sim estas que impulsionam o desenvolvimento
dos órgãos.”(Grifos
nossos).
Um argumento apresentado por Mauron
contrário à idéia de que a identidade de uma
pessoa está diretamente associada ao seu Genoma é
a existência de gêmeos monozigóticos, isto é,
que possuem o mesmo Genoma. Desde que dois ou mais gêmeos
são indivíduos diferentes, com comportamentos e identidades
diferentes, fica evidente que não é o Genoma que determina
a identidade. Porém, o professor Mauron não defende
nenhuma tese espiritualista. Ele acredita que, em algum momento
ao longo do desenvolvimento embrionário, existe algum tipo
de evento material que determina a emergência da identidade
pessoal do indivíduo. Essa “crença” (note
que essa idéia não possui prova científica)
reflete a postura materialista por parte do professor Mauron e da
comunidade científica.
Por outro lado, apenas para vermos a importância de estarmos
cientes dessas discussões, cabe mencionar que a idéia
de que o Genoma determina a identidade de uma pessoa, desde o momento
da concepção, favorece a luta contra o aborto e contra
o uso de embriões humanos nas pesquisas científicas.
Portanto, pelo menos para defender a vida, essa idéia materialista
tem alguma serventia.
O Espiritismo sela a questão ao ensinar que a causa de nossos
comportamentos e de nossa identidade reside na nossa alma ou Espírito.
As questões 150 e 152 de O Livro dos Espíritos
[1] elucidam:
“150. A alma, após
a morte, conserva a sua individualidade?
“Sim; jamais a perde. Que seria ela, se não a conservasse?
152. Que prova podemos ter da individualidade da alma depois
da morte?
“Não tendes essa prova nas comunicações
que recebeis? Se não fôsseis cegos, veríeis;
se não fôsseis surdos, ouviríeis; pois que
muito amiúde uma voz vos fala, reveladora da existência
de um ser que está fora de vós.”
A chave para o problema da identidade
de cada indivíduo está na pré-existência
da alma que a traz consigo. A prova disso são as comunicações
dos Espíritos que ao desencarnarem deixaram apenas o corpo
físico e levaram tudo o que aprenderam. Lamentamos que a
humanidade não reconhece isso como comprovação
da sobrevivência da alma. O Genoma, do ponto de vista da Doutrina
Espírita, é, portanto, apenas uma ferramenta
do Espírito que o recebe para cumprir determinada tarefa
no mundo material.
A compreensão desse importante detalhe está diretamente
ligado ao problema levantado pelo professor titular de Ética
e Filosofia Política da Universidade de São Paulo,
Prof. Dr. Renato Janine Ribeiro, em sua matéria publicada
na revista Pesquisa Fapesp Especial de abril de 2003 (referência
[3]). O professor Ribeiro também questiona a expectativa
de que a descoberta completa do Genoma Humano resolverá todos
os problemas do ser humano, mormente, os de ordem psicológica
e comportamental. Ele não discorda que esse avanço
ajudará a resolver muitos problemas com doenças e
insuficiências do ser humano. Mas ele questiona um outro aspecto
que é de grande importância para nós espíritas.
O problema pode ser apresentado da seguinte forma, nas palavras
do próprio autor [3]: “...
há uma enorme tendência do ser humano a querer
considerar-se coisa, objeto.” A idéia de que somos
dirigidos pelas nossas características genéticas significa
que não temos a liberdade de escolha. Apesar de não
gostarmos dessa idéia, o professor Ribeiro argumenta que
até mesmo a liberdade não é tão valorizada
pois “ela implica responsabilidades” [3].
E como as pessoas tem fugido às responsabilidades, uma conseqüência
é que: “... diante disso é comum desejar-se
algo que resolva nossos problemas independentemente de nós
mesmos.”
Não interessa o que causou nossos problemas e doenças
mas sim como resolvê-los. “... se eu puder solucioná-los
com um remédio ou cirurgia, não preciso responsabilizar-me,
a fundo, por eles. Tratarei a mim mesmo como um objeto.”(Grifos
nossos). Assim, a pesquisa do Genoma Humano favorece a filosofia
do ser objeto e nos faz lembrar daquele antigo argumento
dos que se eximem da reforma íntima: “... o espírito
é forte, mas a carne é fraca”. Hoje, esse
argumento se torna “... mas o genoma é fraco...”.
É mais fácil crer que os nossos temperamentos desequilibrados
são decorrentes dos nossos genes do que nos esforçarmos
por reformar nossas tendências. É mais fácil
acreditar que um dia a Ciência, com uma cirurgia, nos fará
seres perfeitos do que acreditar no esforço próprio.
Felizes que somos por conhecer a Doutrina Espírita que nos
ensina perfeitamente o que é causa e o que
é efeito. A causa reside em nosso Espírito.
O efeito são os nossos atos, palavras e pensamentos. O corpo
físico é apenas instrumento para que possamos trabalhar
na obra da co-criação.
Nesta matéria apresentamos e discutimos algumas questões
éticas sobre o Genoma Humano, abordadas no meio acadêmico,
que esbarram em ensinamentos espíritas. Acreditamos ser importante
que o movimento espírita tenha ciência dessas questões
e de como o Espiritismo se posiciona diante delas. No item 7 do
capítulo XIX de O Evangelho Segundo o Espiritismo
[4] Kardec afirma: “Fé
inabalável só o é a que pode encarar de frente
a razão, em todas as épocas da Humanidade.”
Nossa intenção aqui foi a de “encarar”
essas questões sobre o Genoma Humano mostrando que os ensinamentos
dos Espíritos constituem uma perfeita solução
para elas.