Confira a entrevista.
IHU On-Line – Como o senhor
analisa as relações entre religião e política
no Brasil?
Ricardo Mariano
– De um lado, observa-se uma crescente ocupação
religiosa da esfera pública. Isto é, apóstolos,
bispos, missionários e pastores pentecostais, a cada pleito,
tentam transformar seus rebanhos religiosos em currais eleitorais,
seja para eleger seus próprios representantes religiosos ao
Legislativo, seja para, em troca de promessas e benesses diversas,
apoiar eleitoralmente candidatos seculares a cargos majoritários.
De outro, verifica-se que candidatos, políticos e partidos
de Norte a Sul do país, independentemente de suas orientações
ideológicas, cada vez mais tentam instrumentalizar a religião
para fins político-partidários e eleitorais. Trata-se,
portanto, de uma instrumentalização mútua. Dirigentes
e leigos católicos também participam da vida política,
geralmente através do lobby da Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil - CNBB, mas não só. Muitos deles, por
exemplo, atuaram intensamente na eleição presidencial
em 2010. Bispos e leigos conservadores (assim como muitos pentecostais)
atacaram a candidata petista à presidência, opuseram-se
ao III Programa Nacional de Direitos Humanos, especialmente às
propostas de descriminalização do aborto e de retirada
de crucifixos de edifícios da União.
A criminalização
da homofobia
Em 2010, os evangélicos atacaram,
sobretudo, o Projeto de Lei 122/2006 , proposto por uma parlamentar
petista, visando criminalizar a homofobia. Por isso o referido projeto
de lei é percebido por muitos desses religiosos como um atentado
à liberdade religiosa e de expressão. Defendem ferrenhamente
seu direito de prosseguir, animados, pregando um discurso homofóbico
que vê a homossexualidade como patológica, pecaminosa,
diabólica e uma perversão da natureza humana. Fundamentados
em preconceitos moralistas de extração bíblica
e abertamente dispostos a discriminar minorias sexuais, muitos líderes
pentecostais, versados em interpretações fundamentalistas
dos evangelhos, se opõem abertamente ao espírito dos
direitos humanos, dos direitos de cidadania e dos valores da democracia.
A recente polêmica envolvendo o famigerado “kit gay”,
usado como arma eleitoral contra o candidato petista a prefeito de
São Paulo, foi apenas a mais nova dessas manifestações
homofóbicas.
O caso Russomanno
Na campanha para prefeito de São
Paulo deste ano, além da romaria de candidatos às missas
de Padre Marcelo Rossi e de Aparecida, o cardeal-arcebispo, dom Odilo
Scherer, entrou de sola na disputa, ao divulgar comunicado, lido em
missas pela capital, desancando (sem citá-la nominalmente)
a candidatura de Celso Russomanno. Apesar de afirmar-se um “católico
fervoroso”, Russomanno foi alvo do tiroteio entre dirigentes
da Igreja Universal e da Igreja Católica. Matérias de
imprensa mostraram que pastores e obreiros da igreja, à revelia
da lei, estavam atuando como cabos eleitorais e alguns templos, funcionando
como comitês de campanha de Russomanno. Ex-apresentador da Rede
Record e candidato pelo PRB, partido criado e comandado pela Igreja
Universal, ele não teve como desvencilhar-se dos ataques católicos,
sobretudo quando veio a público as acusações
(delirantes) feitas um ano antes pelo presidente do PRB, bispo Marcos
Pereira, de que a Igreja Católica era uma das responsáveis
pela promoção do chamado “kit gay”, isto
é, o kit anti-homofobia formulado (mas cujo lançamento
foi abortado por pressão de evangélicos) pelo Ministério
da Educação sob a direção de Fernando
Haddad, então candidato a prefeito do município de São
Paulo pelo PT. Os ataques católicos chamaram a atenção
para o fato (desconhecido por grande parte de seus eleitores, em boa
medida pouco escolarizada) de que Russomanno era candidato de um conglomerado
religioso, midiático e partidário pertencente à
Igreja Universal, denominação neopentecostal pouco prestigiada,
associada a escândalos diversos e, há décadas,
promotora de estratégias de arrecadação heterodoxas.
Limites e dificuldades da instrumentalização
religiosa para fins eleitorais
A instrumentalização religiosa para
fins eleitorais apresenta limites e dificuldades consideráveis.
Para o poder Legislativo, nem tanto, já que Assembleia de Deus,
Igreja Universal e Quadrangular, entre outras, têm conseguido
eleger crescente número de vereadores, deputados estaduais
e federais. Para o Executivo, porém, sua influência é
bem menor, muito menos decisiva. Isso ocorre não somente porque
os evangélicos pentecostais compõem uma minoria da população.
Deve-se também ao fato de que esse movimento religioso é
fragmentado, diversificado, recortado por um sem-número de
denominações concorrentes. Concorrência denominacional
que, por diversas razões, se reproduz nas alianças e
nos apoios eleitorais. Basta observar que, na eleição
à prefeitura paulistana de 2012, três diferentes igrejas
identificadas como Assembleia de Deus (duas de convenções
concorrentes, outra de um ministério independente) apoiaram
três candidatos distintos a prefeito. Divisionismo religioso
e político. No momento, os evangélicos podem vir a decidir
uma eleição majoritária tão somente no
caso de haver um candidato evangélico no segundo turno capaz
de mobilizar seu voto (Garotinho recebeu 51% do voto evangélico
no primeiro turno de 2002, mas apenas 6% do dos católicos,
clivagem religiosa radical que o impediu de passar para o segundo
turno) ou no caso de um dos candidatos em disputa no segundo turno
for objeto de um amplo boicote ou rejeição eleitoral
de sua parte, por algum sério motivo religioso ou moral. No
Congresso Nacional e nos legislativos municipais e estaduais, a presença
e o ativismo político dos pentecostais vêm ganhando terreno
a passos largos. Trata-se de um ativismo político recheado
de moralismo e corporativismo e, desde a Constituinte, marcado por
escândalos. Pesquisa da ONG Transparência Brasil revela
que 95% dos membros da bancada evangélica estão entre
os mais faltosos do Congresso Nacional e, em sua maioria, são
objeto de processos judiciais, enquanto, segundo o DIAP, 87% deles
constam entre os “mais inexpressivos”.
IHU On-Line – Quais os principais desafios
para a sociologia da religião, considerando o chamado “trânsito
religioso” e a forma de viver a religiosidade e a fé
na sociedade contemporânea, marcada pelo individualismo e pela
autonomia?
Ricardo Mariano –
Num contexto onde vigoram liberdade religiosa, pluralismo religioso,
acirrada competição inter-religiosa e onde o mercado
não é regulado pelo Estado, o trânsito religioso
tende a intensificar-se. Pois nesse contexto os indivíduos
detêm enorme liberdade para fazer suas escolhas religiosas.
De modo que, quando insatisfeitos, podem rompê-las, trocá-las,
minimizá-las e largá-las. Decerto, seus laços
familiares e de sociabilidade, incluindo os religiosos, pesam em suas
opções religiosas. O próprio esgarçamento
do tecido familiar tende a reduzir, pouco a pouco, a importância
da família na definição das opções
religiosas dos indivíduos. Tais opções, assim,
tendem a depender e apoiar-se mais e mais na subjetividade dos agentes,
que, além de mediada por seus laços sociais e religiosos,
é informada por uma série de outras fontes, como a literatura
religiosa (incluindo as de matriz cristã, espírita,
autoajuda, esotérica, nova era etc.), a internet e suas redes
sociais, a música e as bandas religiosas (entre elas a gospel),
as mais diversas publicações semanais, sobretudo as
revistas destinadas a públicos femininos, os cursos e palestras
de gurus, as feiras místicas etc.
A privatização da religião
Avança a privatização
da religião. Com isso não se quer dizer que a religião
se circunscreva cada vez mais à vida privada (decididamente
não é isso que está ocorrendo), mas, sim, que
se têm multiplicado as bricolagens, as experimentações
idiossincráticas e privatizantes da religião. Aumenta
também o contingente de pessoas que mantêm a identidade
religiosa e a crença, mas preferem fazê-lo fora de instituições.
Isso é algo que pode estar ocorrendo com parte dos 9,2 milhões
de evangélicos identificados pelo Censo como evangélicos
não determinados, isto é, como não filiados a
igrejas. Em razão do contexto de liberdade, de pluralidade
cultural, do individualismo e da crescente procura por autonomia individual
em relação aos poderes constituídos, incluindo
os religiosos, debilita-se, sobretudo, a capacidade do clero de impor
a seu séquito condutas morais rigorosas, sectárias e
indesejadas ou na contramaré das transformações
culturais e comportamentais em voga na sociedade abrangente. Estão
sob pressão crescente, portanto, os grupos religiosos que pretendem,
por exemplo, moralizar a conduta individual e controlar rigidamente
a sexualidade de seus adeptos segundo ditames bíblicos morais
ascéticos.
O anacronismo da moralidade sexual
nas igrejas
Tais proposições tendem a dilatar as
defecções, a indiferença religiosa e a hipocrisia.
Pesquisa realizada pelo Bureau de Pesquisa e Estatística Cristã
– BEPEC revela que 26,2% de homens e mulheres evangélicos
casados concordou totalmente com a afirmação de que
“o comportamento da igreja evangélica em relação
ao sexo é muito hipócrita” (Cristianismo
Hoje, jun./jul. 2011). Afirmação que indica descontentamento
com o anacronismo da moralidade sexual pregada pelas igrejas evangélicas,
mas também reivindicação de autonomia individual
em relação a essa moral bíblica e às autoridades
religiosas que a difundem. Cabe à sociologia da religião
investigar mais atentamente como os fiéis ou adeptos praticam
sua religião e vivenciam efetivamente sua religiosidade. Mas
isso, defendo, deve ser acompanhado da pesquisa do que fazem e propõem
as instituições e suas lideranças religiosas,
e não somente para observar o descompasso entre as crenças
e práticas dos adeptos e as orientações de seus
líderes. Mesmo que reduzido o poder pastoral, não se
pode descurar da importância sociológica das instituições
religiosas na conformação do discurso, das crenças
e práticas de seus adeptos, bem como em certos de seus padrões
de comportamento. E é preciso que a sociologia da religião
dialogue mais com outras sociologias e com outras ciências sociais
para ampliar seu alcance e aperfeiçoar sua análise.
IHU On-Line – Considerando a trajetória
histórica do movimento pentecostal no Brasil, o que marca a
religiosidade pentecostal atualmente? Em que sentido ela mais mudou
em comparação a 50 anos atrás, por exemplo? Qual
a novidade que a corrente neopentecostal introjetou na vivência
religiosa brasileira?
Ricardo Mariano –
A corrente neopentecostal exerceu papel crucial na transformação
do pentecostalismo nacional nas últimas três décadas.
Implantou e disseminou a Teologia da Prosperidade, abandonou e desprezou
antigos usos e costumes de santidade, reduziu, por princípio
e estratégia, o ascetismo e o sectarismo, adotou crenças
da teologia do domínio, enfatizou a guerra espiritual contra
o diabo, hipertrofiou e sistematizou a oferta de soluções
mágico-religiosas nos cultos e na mídia, forjou gestão
denominacional em moldes empresariais, investiu pesado no tele-evangelismo,
na música gospel e na aquisição e arrendamento
de emissoras assim como na formação de redes de rádio
e TV, encarou a pluralização religiosa e sociocultural
como um desafio evangelístico e de mercado e, tal como a Assembleia
de Deus, ingressou na política partidária na Constituinte.
No caso da Igreja Universal, além de eleger bancadas parlamentares,
fundou um partido político, o PRB. Toda essa transformação
não ocorreu só em razão da deliberada disposição
das novas lideranças pentecostais de promover, por razões
diversas, tal acomodação às mudanças em
curso na sociedade, mas também das pressões da concorrência
religiosa e, sobretudo, dos constrangimentos impostos pelas demandas
por mudança por parte de seus adeptos, clientes e diferentes
públicos-alvo.
Acomodar o pentecostalismo à sociedade
brasileira
A vertente neopentecostal liderou,
portanto, diversas mudanças e inovações teológicas,
estéticas, litúrgicas e comportamentais no pentecostalismo.
Não obstante seu sectarismo no plano religioso, cujo destaque
recai sobre sua demonização dos cultos afro-brasileiros,
ela contribuiu fortemente para acomodar o pentecostalismo à
sociedade brasileira. Colaborou, por exemplo, para abrir espaço
ao surgimento e incorporação de artistas, modelos, surfistas,
jogadores de futebol, políticos, rappers, roqueiros, atletas
de Cristo, bandas gospel e até para a formação
de blocos evangélicos carnavalescos: a folia de Cristo. Desde
então, tornou-se possível ser pentecostal e modelo;
ser pentecostal e roqueiro, etc. Tal conjunção identitária,
que até há pouco era inadmissível e radicalmente
incompatível com sua moralidade, com seus usos e costumes e
com seu ascetismo, tornou-se repentinamente aceitável. Sinal
de que essa religião, ao se transformar, vai paulatinamente
deixando de ser um retrato negativo da cultura brasileira. Demonstração
de que suas fronteiras identitárias, tanto no plano moral como
no comportamental, tornaram-se mais diluídas, porosas, flexíveis
e mais difíceis de distinguir. A ponto de terem surgido até
os traficantes evangélicos, repletos de tatuagens (verdadeiros
amuletos protetores) contendo versículos bíblicos. Mesmo
as fronteiras religiosas mostram-se menos nítidas do que frequentemente
se espera. Pesquisa do Datafolha, realizada em maio de 2007, mostrou
que 8% dos pentecostais tinham um santo (católico) de devoção
e 15% deles acreditavam totalmente em reencarnação (doutrina
de origem hindu disseminada pelo kardecismo no Brasil). Não
obstante tamanha transformação, esses religiosos mantiveram
importantes traços ascéticos e sectários, como
a rejeição ao consumo de álcool, do fumo e das
drogas, ao sexo fora do casamento, ao homossexualismo e ao ecumenismo.
IHU On-Line – No contexto
atual, marcado pela secularização, o senhor percebe
um arrefecimento ou um reavivamento da religiosidade entre as pessoas?
Ricardo Mariano –
No Brasil, os católicos decresceram, os pentecostais cresceram
aceleradamente entre os mais pobres nas regiões urbanas (sobretudo
nas periferias violentas e desassistidas pelos poderes públicos)
e de fronteira agrícola, os sem religião, grupo que
mais cresceu entre 1980 e 2000, continuaram se expandindo embora num
ritmo menor, os espíritas avançaram entre os estratos
sociais de maior renda e escolaridade, os umbandistas, depois de perderem
mais de 144 mil adeptos entre 1980 e 2000, estagnaram na última
década, as Testemunhas de Jeová (intensamente proselitistas)
e as outras religiões continuaram crescendo. De todo modo,
excluindo católicos (64,6%), evangélicos (22,2%) e sem
religião (8%), todas as outras somavam apenas 5% da população
brasileira em 2010. A despeito do avanço dos sem religião,
o Brasil retratado pelo último Censo Demográfico continua
mostrando-se solo dos mais férteis para a prédica religiosa,
em especial para o pentecostalismo. No conjunto, as igrejas pentecostais
continuam crescendo vigorosamente mediante, entre outros recursos
e estratégias, o proselitismo pessoal (efetuado por leigos
e, em especial, pelas mulheres) e midiático e a oferta sistemática
de serviços mágico-religiosos (e terapêuticos)
para a solução de problemas pontuais e imediatistas
de saúde, psicológicos, afetivos, familiares, financeiros
etc. Com suas promessas mágicas e taumatúrgicas, aproveitam,
sobretudo, a vulnerabilidade social de parcela considerável
da população brasileira, a tradição mágica
do catolicismo popular, o baixo número de padres católicos,
o elevado contingente de católicos nominais.
Brasil: um país laico?
Nas comparações internacionais,
o Brasil aparece sempre entre os países mais religiosos em
termos de crença e de prática religiosas. Constitucionalmente,
o país é laico, não obstante o ensino religioso
facultativo em escolas públicas, a recente concordata católica,
a referência a Deus no preâmbulo da Constituição.
No plano político, contudo, a laicidade tem sido pressionada
pela instrumentalização recíproca entre religião
e política. Pois, à medida que correm atrás de
apoio, voto e legitimação providos por líderes
e rebanhos religiosos, nossos políticos, partidos e governantes
contribuem para reduzir a autonomia da política em relação
aos poderes eclesiásticos e a seus rompantes moralistas, integristas
e fundamentalistas. Muitas vezes isso ocorre por pura covardia ou
por temor eleitoral diante dos lobbies religiosos e de seus representantes
parlamentares. Com isso políticos seculares pressionados por
grupos e parlamentares religiosos tendem a impedir que questões
públicas fundamentais sejam tratadas e debatidas a partir de
visões de mundo, expertises e conhecimentos seculares radicados
na ciência, na medicina, na saúde pública, nos
direitos humanos e daí por diante. Impedem, portanto, a secularização
do encaminhamento e tratamento de uma série de problemas.
IHU On-Line – Quais as novidades
nas pesquisas sobre a concordata católica, a Lei Geral das
Religiões e as teorias sociológicas da secularização
e da laicidade do Estado? Como essas pesquisas nos ajudam a compreender
o cenário religioso brasileiro contemporâneo?
Ricardo Mariano –
Não é possível resumi-los e nem fazer jus aos
trabalhos que estão sendo realizados nos últimos anos
sobre tais temas. O site do Observatório da Laicidade do Estado
(OLÉ – http://www.nepp-dh.ufrj.br/ole/) pode dar uma
boa dimensão da variedade de pesquisas e temáticas que
estão sendo desenvolvidas em diferentes áreas do conhecimento
(sociologia, antropologia, educação, história,
direito, assistência social, psicologia, entre outras) envolvendo
a questão da laicidade. Este tema vem se tornando mais e mais
relevante à medida que se acelera a ocupação
religiosa da mídia eletrônica, da política partidária
e das campanhas eleitorais. Ocupação esta que deriva,
em boa medida, do recrudescimento da competição entre
pentecostais e católicos pela hegemonia religiosa no país.
Tal competição intrarreligiosa desdobrou-se para a esfera
pública nas últimas três décadas. O investimento
maciço de pentecostais e católicos na compra de emissoras
e na formação de redes de tevê exemplifica emblematicamente
isso. Pela mesma razão, proliferaram os megatemplos e os megaeventos
religiosos, efeitos de uma corrida desenfreada pela ocupação
religiosa do espaço público.
O ativismo político e midiático
de religiosos no Brasil
Ainda é cedo para sabermos
as consequências, no médio e longo prazo, do crescente
ativismo político e midiático desses religiosos no Brasil.
Mas já se podem ver indícios – como ocorreu na
exploração eleitoral do “kit gay” para tentar
desmoralizar e prejudicar uma candidatura a prefeito em São
Paulo nesta eleição – de reações
seculares e religiosas adversas à mistura entre religião
e política. No caso norte-americano, mais de três décadas
consecutivas de ativismo da Direita Cristã não deram
em bons resultados no campo político, já que a militância
desses religiosos não conseguiu alterar nada de fundamental
em prol de suas causas moralistas nos planos jurídico e político
nos Estados Unidos. Mais que isso: recente pesquisa realizada pelo
Pew Research Center revela que cresceu muito e rapidamente o contingente
dos norte-americanos sem filiação religiosa. Já
são 19,6% dos norte-americanos (incluídos os 13 milhões
ou 6% de ateus e agnósticos) sem filiação religiosa.
E os jovens são, disparado, os menos filiados a grupos religiosos.
Nada menos do que um terço (32%) dos norte-americanos abaixo
de 30 anos são nones ou unaffiliated, isto é, sem filiação
religiosa. Desde a Primeira Guerra, cada geração tem
se revelado sempre menos religiosa do que a anterior. Tal forma de
secularização tende a se estender pelas próximas
gerações, à medida que a socialização
religiosa intrafamiliar mostra-se cada vez mais débil. Mais
ainda que os filiados a grupos religiosos, os não filiados
criticam fortemente as igrejas e organizações religiosas
por estarem preocupadas demais com dinheiro e poder e envolvidas demais
na política. O envolvimento da Direita Cristã na política,
além de criticado por religiosos e por não filiados
à religião alguma, resultou na formação
de diversos movimentos e coalizões seculares, que constituíram
lobbies diversos para atuar sobre os poderes públicos. Reações
laicas no Brasil não tardam por esperar, embora seja de todo
improvável que ocorram nos moldes organizados, sistemáticos
e pragmáticos dos movimentos seculares dos Estados Unidos,
especialmente da encabeçada pela Secular Coalition for
America.