Criada em 1977, numa funerária,
a Igreja Universal do Reino de Deus cresceu e se desenvolveu com
rapidez. De lá para cá foi construindo grandes templos
e comprando canais de comunicação importantes. Hoje,
sua ligação com a Rede Record é o alvo dos
debates. Sua gestão é excelente, de molde quase empresarial,
salientou o sociólogo Ricardo Mariano, em entrevista, por
telefone, à IHU On-Line. O professor fez uma análise
do crescimento da igreja pentecostal, explicou alguns rituais e
falou sobre o conflito jurídico que ela enfrenta. “Todo
o culto visa estabelecer uma relação de barganha entre
os homens de Deus, na qual a Igreja Universal é a intermediária
dessa transação. A Igreja sempre está oferecendo
bênçãos e graças divinas aos fiéis
que, para recebê-las, têm que comprovar sua fé
mediante o seu engajamento na obra de evangelização”,
destacou.
Ricardo Mariano é graduado
em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo,
onde também realizou o mestrado e doutorado em Sociologia.
Hoje, é professor na PUCRS. Entre suas obras citamos Neopentecostais:
Sociologia do novo pentecostalismo no Brasil (São Paulo:
Edições Loyola, 2005).
Confira a entrevista
IHU On-Line – Em sua opinião,
como a Igreja Universal do Reino de Deus cresceu tanto nos últimos
anos?
Ricardo Mariano
– Por várias razões. A primeira delas é
uma excelente gestão institucional, de molde quase empresarial.
Outra razão é o emprego sistemático de oferta
e prestação de serviços mágico-religiosos
visando atrair as massas para a Igreja, através dos usos dos
meios de comunicação. Para evangelizar, isso têm
sido fundamental para o sucesso da Igreja Universal. Outra razão
é que os pastores da Igreja Universal são pagos para
trabalhar full time. Essa é uma vantagem competitiva da Igreja
Universal em relação a outras denominações
evangélicas, inclusive pentecostais, cujos pastores pastoreiam
efetivamente a Igreja em alguns dias e horários específicos
da semana durante ou cultos, ou seja, boa parte deles trabalha em
profissões secundárias. Os da Universal não,
eles são full time em relação às atividades
do culto, de pregação, de evangelização,
e também se envolvem na própria atividade de radio e
tele-evangelismo, visitação a doentes e coisas do gênero.
E o extremo pragmatismo também da liderança da Igreja
Universal do Reino de Deus.
Todo o culto visa estabelecer uma relação
de barganha entre os homens e Deus, na qual a Igreja Universal é
a intermediária dessa transação. A Igreja sempre
está oferecendo bênçãos e graças
divinas aos fiéis que, para recebê-las, têm que
comprovar sua fé mediante o seu engajamento na obra de evangelização.
Isso geralmente se dá pela via do financiamento da evangelização
nos meios de comunicação de massa, ou seja, o fiel da
Igreja Universal só comprova efetivamente mediante a doação
de dízimos e de ofertas, com amor, desprendimento e generosidade.
Esse é um mecanismo fundamental para a Igreja Universal ser
tão bem sucedida na arrecadação de recursos monetários
que lhe permitem investir na aquisição de grandes terrenos,
templos, de envio de missionários para o exterior, e também,
sobretudo, a aquisição de novas emissoras de rádio
e de TV pelo Brasil e outros países cuja legislação
permite.
IHU On-Line – Quais são
as peculiaridades a Igreja Universal do Reino de Deus que explicam
esse crescimento?
Ricardo Mariano
– Seria a junção de tudo que eu mencionei: a organização
de tipo empresarial, o extremo pragmatismo, a oferta sistemática
de serviços mágico-religiosos para a atração
das massas, o uso intenso e extenso dos meios de comunicação
para evangelizar a sua capacidade de atestar aquilo que os pastores
pregam, por meio de uma verdadeira máquina de produção
de testemunhos, que Deus retribui com bênçãos
o pagamento de dízimos e a doação de ofertas
generosas para a Igreja. Por exemplo, os cultos de libertação
e de exorcismo espetaculares e dramáticos levados a cabo semanalmente
pela Igreja Universal em todos os seus templos pelo planeta funcionam
como atestado da existência dos poderes divino e demoníaco,
que estão numa verdadeira guerra cósmica, Deus tentando
salvar a humanidade e o diabo tentando levar para o caminho da perdição
e causar todos os malefícios possíveis e imagináveis.
Então, o ritual de exorcismo
no qual os pastores e bispos convocam os encostos e os demônios
que estão se manifestando naquelas pessoas em transe demoníacos
e perguntam a eles durante os cultos com que males aqueles demônios
estão infligindo as suas vítimas. Então, eles
humilham os “demônios”, arrastando os fieis pelos
cabelos diante do púlpito, os faz ajoelhar. Depois, convocam
o próprio Cristo para libertar o fiel e demonstrar, portanto,
seu poder superior sobre os demônios. São vários
mecanismos de demonstração daquilo que é pregado
pela Igreja Universal do Reino de Deus que procura, assim como as
demais religiões pentecostais, resgatar o cristianismo primitivo,
baseado na ideia de que aquilo que está na Bíblia referente
ao Ministério de Reino de Cristo continua ocorrendo nos dias
de hoje. É isso que eles procuram fazer. E essas são
algumas das principais razões pelas quais a Igreja Universal
cresce tanto. Tudo o que ela faz, faz com grande eficácia.
Ela arrecada mais do que os outros, investe em empresas de rádio,
TV, gravadoras e editoras que gravitam em torno da Igreja e cuja finalidade
também é o crescimento da Igreja.
IHU On-Line – O que significa
a Fogueira de Israel?
Ricardo Mariano
– É uma campanha que a Igreja Universal faz sistematicamente,
onde queima os pedidos de benção dos fieis. Então,
eles levam esses pedidos para Israel e os queimam e oferecem as ofertas
a Deus. Com isso, pleiteiam para os fieis as bênçãos
que eles pediram. Ou seja, a Igreja funciona como uma intermediária.
A partir dessa campanha que a igreja encampa, é como se Deus
ficasse incumbido de obedecer a essas demandas desde que os fieis
tenham sido zelosos cumpridores de parte da sua relação
contratual com Deus. Deus é obrigado a conceder às bênçãos
e os fieis são obrigados a fazer a sua parte, ou seja, obedecer
a Deus, pagar dízimos e doar ofertas com amor, generosidade
e desprendimento.
IHU On-Line – O que é
a sessão do descarrego e porque o dinheiro faz parte da liturgia?
Ricardo Mariano
– O dinheiro é o sangue da Igreja, segundo Edir Macedo.
Ou seja, sem dinheiro nada é possível de ser feito,
não se pode evangelizar, comprar templos, pagar os salários
dos pastores. A questão é que os mecanismos, estratégias
e práticas de arrecadação da Igreja Universal
são muito polêmicos, inclusive nos próprios meios
evangélicos. Além disso, todo culto da Igreja Universal
parece ter como principal finalidade a arrecadação.
Todo culto tem uma estrutura única, o pastor geralmente prega
fazendo referência a um personagem bíblico que estabeleceu
uma relação de troca com Deus. O descarrego é
o famoso ritual de libertação. São exorcismos
coletivos realizados no culto geralmente de sexta-feira em que se
faz a libertação de demônios. Essa é uma
das principais obras da Igreja e dos cristãos, segundo Edir
Macedo. Os fieis, por sua vez, entram nessa relação
de troca com Deus, intermediada pela Igreja, visando bênçãos
ou retribuição divina. Essa é a lógica
desses cultos e da pregação da Igreja.
IHU On-Line – Como o senhor
vê esse debate que se criou em torno da relação
da Universal com a Record e outras grandes empresas brasileiras?
Ricardo Mariano
– Isso não vem de agora. A Igreja Universal já
protagonizou vários escândalos. Nos anos 1980, esteve
nas manchetes dos jornais por conta da sua discriminação
aos cultos afro-brasileiros, o que perdurou nas décadas seguintes.
No finalzinho de 1989, quando começa a negociar a compra da
Rede Record, emerge o escândalo relativo a essa compra. A questão
era: como uma igreja nascida em 1977, numa funerária, de repente,
havia juntado 45 milhões de dólares para comprar uma
tradicional rede de TV no país. Já naquele momento começa
a criar uma forte tensão entre emissoras de TV seculares e
a Record, que estava sendo comprada pela Igreja Universal. Além
da disputa de mercado e de audiência, um dos motivos básicos
desse conflito é o fato de que as demais emissoras de TV, para
realizar seus investimentos e suas expansões, precisaram recorrer
aos bancos pagando juros altos.
Enquanto isso, as igrejas que investem
na mídia eletrônica, seja comprando emissoras de rádio
ou TV, o fazem com recursos arrecadados dos fieis. O problema é
que esses recursos só podem ser canalizados, do ponto de vista
legal, para atividades religiosas ou assistenciais, por isso as igrejas
têm imunidade tributária. Ou seja, o investimento desses
recursos em empresas lucrativas é terminantemente proibida
pela legislação brasileira. Então, já
nos anos 1990, a Igreja Universal recebeu uma multa multimilionária
da Receita Federal, de mais de 90 milhões de reais, e isso
está se repetindo agora. O Ministério Público
de São Paulo levou adiante uma nova denúncia a respeito
desse fato. Está chamando, inclusive, nove integrantes da cúpula
da Igreja Universal de quadrilha criminosa, mas o que está
lastrando a denúncia é a alegação de que
essas empresas com fins lucrativos estão sendo compradas por
desvio de recursos de dízimos e ofertas da Igreja. O problema
é que isso se torna uma concorrência injusta. Eis o grande
drama. A Globo, no caso, não está só reclamando
disso, também tem feito entrada na própria disputa religiosa
ao favorecer claramente a Igreja Católica, isso ficou visível
na visIta do Papa Bento XVI em maio de 2006. A cobertura que a Globo
fez só reforçava o catolicismo o tempo todo. Em nenhum
momento houve uma perspectiva jornalística.
IHU On-Line – Como o senhor
acha que a Igreja e as empresas saíram desse processo que corre
na justiça, em relação a forma com que os dízimos
possam estar sendo utilizados?
Ricardo Mariano
– Acho que é imprevisível o que pode acontecer.
Faz dez anos que a Receita Federal multou a Igreja Universal, e isso
está parado na Justiça desde então. A Igreja
Universal dispõe de bons advogados, paga-os a preço
de ouro, dispõe de poder político, é aliada do
governo Lula também. Ela tem poder religioso, tem poder midiático,
tem poder político-partidário. Tudo isso não
se pode deixar de lado quando se pensa no que vai ocorrer com a Igreja.