"O Espiritismo,
pois, não estabelece como princípio absoluto senão
o que se acha evidentemente demonstrado, ou o que ressalta logicamente
da observação."
O conhecimento tem avançado de modo surpreendente.
As discussões a respeito da validade de conceitos e de métodos,
estão invadindo os recintos universitários e freqüentado
as prateleiras das livrarias.
Como conseqüência dessas perquirições,
a crítica metodológica, que a tudo pretende validar,
invadiu o terreno da Ciência e, de modo surpreendente, a própria
Ciência, enquanto representação de conhecimento,
tornou-se objeto de pesquisa e de crítica.
A partir de 1934, quando Karl Popper
apresentou ao mundo o livro Logik der Forschung, primeira edição
alemã de “A Lógica da Pesquisa Científica”,
trouxe para o centro das discussões a própria Ciência
e sua metodologia. Introduziu uma conceituação de
que o critério da falseabilidade [2]
poderia assegurar a cientificidade de um conhecimento, e ao estabelecer
uma Ciência eminentemente dedutiva, assegurava que a validade
de uma lei permaneceria estabelecida até que os fatos provassem
onde e como ela estava errada. O conhecimento era tomado como científico
por apresentar uma formalização que permitia identificar
pontos onde poderia ser falseado, ou seja, pela indicação
de fatos que caso ocorressem demonstrariam que aquele princípio
estava errado, era falso. Foi um golpe extremamente doloroso para
os que julgavam inabalável o conhecimento científico
[3].
Àquela época, a Ciência já
se havia estabelecido como o ponto focal do conhecimento humano
e suas palavras eram, então, consideradas como verdades inconcussas
sobre as quais não se necessitava mais questionar. Tais concepções,
derivavam diretamente do conceito de Ordem e Progresso, linearmente
estabelecidos pelo Positivismo de Augusto Comte — conhecimento
feito só nos resta avançar.
A posição de Popper trouxe nova luz
para o problema. A Ciência deixou de ser positivista e passou
a uma fase mais criteriosa onde o método era o ponto fundamental
para a validação dos conceitos, e o critério
da falseabilidade definia o formalismo a ser empregado para os enunciados
científicos.
Prosseguindo nesta análise da filosofia e
metodologia das Ciências, em 1962, um professor de física
com preocupações históricas e filosóficas
- Thomas S. Kuhn - apresentou sua obra magistral
The Structure of Scientific Revolutions - A Estrutura
das Revoluções Científicas. Nessa
obra Kuhn apresenta o conceito de paradigma [4]
que, segundo ele, determinaria as interpretações da
Ciência e determinava a maneira pela qual os cientistas propunham
e resolviam problemas. Acrescentava-se um agravante ao problema
levantado por Popper: quando os paradigmas mudam a certeza científica
precisa ser revista; pois muitos de seus fundamentos se invalidam
com a queda do velho paradigma.
A proposição de Kuhn tornou-se um
conceito chave no domínio da Ciência. Todos começaram
a pensar o mundo à luz da nova metodologia de paradigmas.
Contudo, apesar de todos os problemas, a metodologia científica
permanecia resguardada como a tradutora dos verdadeiros conhecimentos,
e sua posição de destaque estava resguardada. A Ciência
oficial mantinha sua supremacia de verdade ainda que submetida ao
julgo dos paradigmas temporais.
Foi quando em 1975 Fritjof Capra
lançou, qual fogo aterrador para o dogmatismo moderno, o
seu The Tao of Physics — An Exploration of
the Parallels Between Modern Physics and Eastern Mysticism —
O Tao da Física — Um paralelo entre a Física
Moderna e o Misticismo Oriental, no qual declara de maneira surpreendente:
“O método científico de abstração
é bastante eficiente e poderoso; temos, não obstante,
de pagar um preço por esse método. À medida
que definimos de forma mais precisa nosso sistema conceitual,
à medida que damos a ele forma ‘aerodinâmica’
e fazemos as interligações cada vez mais rigorosas,
nosso sistema torna-se cada vez mais desligado do mundo real.
“ [5]
Foi como um pesadelo para os teoréticos da
metodologia. O método científico, ao mesmo tempo que
permitia ao homem manipular a Natureza e as coisas, distanciava-o
delas por aproximá-lo dos signos [6]
da percepção, que estavam submetidos a leis que talvez
não existissem para a Natureza. Onde estava, então,
a verdade que a Ciência estabelecia?... Ou mais ainda, haveria
verdade? A Ciência poderia capturá-la?
Capra propõe que o misticismo oriental aproxima-se
da realidade através da experiência direta. Que através
da intuição liberta, isenta do conservadorismo da
linguagem e das restritas percepções dos sentidos,
o homem oriental percebe a verdadeira natureza das coisas. Considerava
ainda que a Física moderna guarda grandes relações
com este estado de espírito.
É nesse mesmo contexto que um outro gigante,
colaborador e crítico de Thomas Kuhn na confecção
de “A Estrutura...”, Paul K. Feyerabend,
não satisfeito em demonstrar as restrições
da metodologia científica, coloca-se contra ela, em seu hoje
famoso Against Method — Contra o Método.
Feyerabend afirma, em última análise, que Ciência
é ideologia, mera formalização de conceitos
simbólicos aceitos por uma comunidade para propor e abordar
certa ordem de fatos. Propondo que
“(...) não podemos
descobrir o mundo a partir de dentro. Há necessidade de
um padrão externo de crítica: precisamos de um conjunto
de pressupostos alternativos ou — uma vez que esses pressupostos
serão muito gerais, fazendo surgir, por assim dizer, todo
um mundo alternativo — necessitamos de um mundo imaginário
para descobrir os traços do mundo real que supomos habitar,
(e que talvez não passe de outro mundo imaginário).
(...) Temos de inventar um sistema conceptual novo que ponha em
causa os resultados de observação mais cuidadosamente
obtidos ou (que) com eles entre em conflito, que frustre os mais
plausíveis teóricos e que introduzam percepções
que não integrem o existente mundo perceptível”
[7].
Feyerabend considera, dessa forma, que a multiplicidade
de abordagens metodológicas (“O único
princípio que não inibe o progresso é: tudo
vale”) é a maneira mais adequada de se produzir conhecimento
científico, e acrescenta:
“Todas as teorias do
saber (científico) decorrem da pergunta: que é conhecimento
e como ele pode ser conseguido?(...) Em conseqüência,
o contato entre a Ciência e a epistemologia torna-se mais
tênue e, finalmente, desaparece por completo. (...) Ninguém
reconhece que podem existir formas várias de conhecimento
e que talvez seja preciso fazer uma opção.”[8]
Esta a posição em que o conhecimento
científico foi deixado: uma forma de conhecimento.
Retirando-lhe o caráter de absoluto,
Popper, Kuhn e Feyerabend promoveram, por ironia do destino, uma
desmistificação do conhecimento científico.
Conhecimento esse que merece ser considerado por aspectos muito
amplos, livres do espírito de sistema, que a tudo pretende
submeter à estreiteza analítica de uma metodologia
científica, que se baseia em pressupostos subjetivos e convicções
pessoais, mas que não obstante, pretende se impor com ares
de verdade universal. A posição dos três gigantes
da metodologia não deixa espaço para dúvidas
em torno da posição do saber científico. Colocam-no
como uma abordagem a mais, que o homem utiliza para representar
e manipular conceitualmente o universo em que vive.
Acreditamos ser esse o motivo que levou Allan Kardec,
ao considerar o problema metodológico da Ciência (“...enquanto
ciência...” — dirá ele) a destacar a necessidade
de desmistificar o saber totalitário das corporações
científicas, que se julgam de posse de verdades absolutas.
Diz ele:
“Para muita gente,
a posição das corporações científicas
constituí, senão uma prova, pelo menos forte presunção
contra o que quer que seja. Não somos dos que se insurgem
contra os sábios, pois não queremos dar azo a que
de nós digam que escouceamos. Temo-los, ao contrário,
em grande apreço e muito honrado nos julgaríamos
se fôssemos contado entre eles. Suas opiniões, porém,
não podem representar em todas as circunstâncias
uma sentença irrevogável. (...)
“Com relação às coisas notórias,
a opinião dos sábios é, com toda razão
fidedigna, porquanto eles sabem mais e melhor do que o vulgo.
Mas no tocante a princípios, a coisas desconhecidas, essa
opinião quase nunca é mais do que hipotética,
por isso que eles não se acham, menos que os outros, sujeitos
a preconceitos. Direi mesmo que o sábio tem mais prejuízos
que qualquer outro, porque uma propensão natural o leva
a subordinar tudo ao ponto de vista donde aprofundou seus conhecimentos:
o matemático não vê prova senão numa
demonstração algébrica, o químico
refere tudo à ação dos elementos, etc. Aquele
que se fez especialista prende todas as suas idéias à
especialidade que adotou. Tirai-o daí e o vereis quase
sempre desarrazoar, por querer submeter tudo ao mesmo cadinho:
conseqüência da fraqueza humana.” [9]
A posição de Kardec é extremamente
lúcida. Sem pretender submeter o conhecimento humano ao saber
científico, sabe dar a este o crédito devido sem submeter-se,
contudo, às estreitezas metodológicas que ele impunha
no século XIX. Vislumbrando, no Espiritismo, uma nova ordem
de fatos e de idéias, soube comparar e medir, ponderar e
refletir, no sentido de estruturar um pensamento progressista em
torno da questão espiritual. O mundo espiritual e suas relações
com o mundo corpóreo, a partir de Kardec, foi submetido às
leis da natureza e subtraído ao domínio do maravilhoso
e do sobrenatural. Consciente, porém, da falibilidade do
conhecimento humano, afirmou Kardec:
"O Espiritismo e a Ciência
se completam reciprocamente; a Ciência, sem o Espiritismo,
se acha na impossibilidade de explicar certos fenômenos
só pelas leis da matéria; ao Espiritismo, sem a
Ciência, faltariam o apoio e a comprovação.
[10]" (grifos originais)
E acentuando o caráter progressista do pensamento
espírita, acrescentou:
“Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo
jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas
lhe demonstrarem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele
se modificará nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar,
ele a aceitará.”[11]
E para que não reste a menor sobra de dúvida
acerca da posição do próprio Kardec em torno
do que estava escrevendo, é ele mesmo que acrescenta numa
nota de rodapé ao texto anterior:
“Diante de declarações tão
nítidas e tão categóricas, quais as que se
contém neste capítulo, caem por terra todas as alegações
de tendência ao absolutismo e à autocracia dos princípios,
bem como todas as falsas assimilações que algumas
pessoas prevenidas ou mal informadas emprestam à doutrina.
Não são novas, aliás, estas declarações;
temo-las repetido muitíssimas vezes nos nossos escritos,
para que nenhuma dúvida persista a tal respeito. Elas ao
demais, assimilam o verdadeiro papel que nos cabe, único
que verdadeiramente ambicionamos: o de mero trabalhador.”[12]
Essas afirmações de Kardec tornam
muito clara a postura do Espiritismo diante da Ciência e qual
o seu relacionamento com ela, isto porque em seu caráter
de ciência o Espiritismo não difere dos procedimentos
experimentais. É Kardec que o afirma:
"Como meio de elaboração, o
Espiritismo procede exatamente da mesma forma que as ciências
positivas, aplicando o método experimental. Fatos novos
se apresentam que não puderam ser explicados pelas leis
conhecidas; ele (o Espiritismo) os observa, compara, analisa e,
remontando dos efeitos às causas, chega às leis
que os rege; depois deduz-lhe as conseqüências e busca
as aplicações úteis."[13]
(grifos nossos)
Vale destacar que Kardec introduz o termo “ciência
positiva” para referenciar o movimento positivista que buscava
nos fatos a validação dos conceitos teóricos.
O que não implica que o Espiritismo aceite a metodologia
positivista como proposta de trabalho. Antes, o caráter
da revelação espírita, aditado por Kardec,
é definido em termos claros:
“Por sua natureza, a revelação
espírita tem duplo caráter: participa ao mesmo tempo
da revelação divina e da revelação
científica. Participa da primeira porque foi providencial
o seu aparecimento e não resultado da iniciativa, nem de
um desígnio premeditado do homem; porque os pontos fundamentais
da doutrina provêm do ensino que deram os Espíritos
encarregados por Deus de esclarecer os homens acerca das coisas
que eles ignoravam, que não podiam aprender por si mesmos
e que lhes importa conhecer, hoje que estão aptos a compreendê-las.
Participa da segunda, por não ser esse ensino privilégio
de indivíduo algum, mas ministrado a todos do mesmo modo;
por não serem os que o transmitem e os que o recebem seres
passivos, dispensados do trabalho da observação
e da pesquisa, por não renunciarem ao raciocínio
e ao livre arbítrio; porque não lhes é interdito
o exame, mas, ao contrário, recomendado; enfim, porque
a doutrina não foi ditada completa, nem imposta à
crença cega; porque é deduzida, pelo trabalho do
homem, da observação dos fatos que os Espíritos
lhe põem sob os olhos e das instruções que
lhe dão, instruções que ele estuda, comenta,
compara, a fim de tirar ele próprio as ilações
e aplicações. Numa palavra, o que caracteriza a
revelação espírita é o ser divina
a sua origem e de iniciativa dos Espíritos, sendo a sua
elaboração fruto do trabalho do homem.”[14]
(grifos originais)
Importa ressaltar a nuança que Kardec coloca
na definição do caráter da revelação
espírita. Colocando o Espiritismo como tendo sido revelado
pelos Espíritos nos seus fundamentos básicos, Kardec
assenta os princípios básicos para além da
mera percepção humana, coloca-os num nível
de percepção mais abrangente qual o dos Espíritos
libertos da aparelhagem corporal e, de certo modo, antecipa Feyerabend
quando este afirma:
“(...) não podemos
descobrir o mundo a partir de dentro. Há necessidade de
um padrão externo de crítica: precisamos de um conjunto
de pressupostos alternativos ou — uma vez que esses pressupostos
serão muito gerais, fazendo surgir, por assim dizer, todo
um mundo alternativo — necessitamos de um mundo imaginário
para descobrir os traços do mundo real que supomos habitar,
(e que talvez não passe de outro mundo imaginário).”
(vide nota 7 na página 2)
Ocorre, porém, que o padrão percebido
por Kardec e colocado pelos Espíritos, não provinha
de um mundo imaginário, mas real. Submetendo-se a conceitos
externos, de fora do mundo material os homens podem se inteirar
“das coisas que eles ignoravam, que não podiam aprender
por si mesmos e que lhes importa conhecer, hoje que estão
aptos a compreendê-las” — as coisas espirituais.
Metodologicamente, contudo, o Espiritismo não
procede de acordo com o fideísmo dogmático, antes,
por instrução dos próprios Espíritos
deve-se criticá-lo, compará-lo, submetê-lo aos
exame dos fatos e das conquistas das demais ciências. Porque
só assim poderá auxiliar o homem no seu crescimento
individual e coletivo.
Esta é a posição de Kardec.
Está a posição do Espiritismo. Esta a nossa
posição.
É preciso observar a Doutrina Espírita
com olhar crítico. Urge estudá-la e compreendê-la
para aplicar-lhe os conceitos acertados, e modificar-lhe os que
por acaso estejam errados. Não podemos nos submeter ao julgo
da crença cega por que o Espiritismo veio nos subtrair do
reino do sobrenatural. Aos que desejam criticá-lo, eis o
caminho mais acertado: demonstrar-lhe os erros. Uma vez demonstrados
ele prosseguirá com as novas verdades.
É urgente pensar Kardec, e estudá-lo.
Pois tempo virá em que ele será considerado, como
Newton e Darwin, como Einstein e Bohr, um revolucionário
da ideologia científica. Será reconhecido como o responsável
pela proposição de um novo paradigma — o espiritual,
e pela apresentação de uma nova abordagem para o conhecimento
humano — uma abordagem que considera o homem para além
dos limites da representação corporal e o faz vislumbrar
o conhecimento sob os olhos do Espírito. Este o trabalho
de Kardec, este o seu mérito: o de pesquisador. Cabe-nos
agora dar prosseguimento na tarefa de modificar o mundo com os conhecimentos
adquiridos pelo Espiritismo, e estudá-lo. Estudá-lo
e desenvolvê-lo para que possa esclarecer a sociedade acerca
da vida espiritual e fazer com que a Humanidade entre numa nova
era, a de progresso moral, que lhe é conseqüência.
“A força do Espiritismo está na sua filosofia,
no apelo que dirige à razão e ao bom senso.”[15]