Espiritualidade e Sociedade



André Henrique

>   A visão espírita do homem

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André Henrique
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Seguindo as tradições da ciência mecanicista o ser humano foi tomado como uma mera máquina biológica, um organismo complexo com sistemas de funções específicas.

É Tempo de SORRIR!!!

Reserve tempo para trabalhar
Este é o preço do êxito

Reserve tempo para pensar
Esta é a fonte do saber

Reserve tempo para divertir-se
Este é o segredo da juventude

Reserve tempo para ser amigo
Este é o caminho da felicidade

Reserve tempo para sonhar
Este é o meio de ligar uma estrela a sua vida

Reserve tempo para amar
Este é um privilégio concedido por Deus

Reserve tempo para ser útil ao próximo
Pois a vida é demasiadamente curta para sermos egoístas

Reserve tempo para sorrir 
Esta é a música da alma.

Tempo é questão de preferência...

A Visão Espírita do Homem

“...Eis o Homem!”
- Pilatos
(João, 19:5)

Quem somos?

“O milagre dos milagres é que de um monte de barro Deus fez um homem hoje!...”
Motel Kamsoy - No filme The Fiddler on the Roof


A Natureza tem sido objeto das reflexões do homem desde que a linguagem iluminou-lhe o cérebro com o magnífico poder da representação. O mito nos permitiu apreender conteúdos da realidade e tão logo construímos uma história da natureza buscamos construir nela a história de nós mesmos.

Afinal, quem somos? - tornou-se a pergunta central do homem que percebia a si mesmo como único, distinto mesmo de seus semelhantes, idiossincrático, singular...

As tradições mitológicas das civilizações antigas apontam para a herança divina que portamos. Cada mito da criação humana encerra uma representação de conceitos construídos a partir da percepção da natureza das coisas acrescida do poder criativo que a linguagem lhe proporcionava.

Muitos séculos depois, a questão de nossa identidade permanece tão válida como outrora. Mais até... Reconhecer nossa verdadeira natureza torna-se na atualidade a questão fundamental de cuja resposta derivam nossas ações, nossa ética, nossos ideais.


O homem é o que ele faz de si. E ele faz aquilo que acredita ser.


Máquinas? Deuses? Réprobos? Afinal, quem somos?

O presente trabalho pretende elucidar particularidades desta questão. Traremos à baila conceitos que grassam na cultura ocidental. E embora influenciados por correntes do pensamento oriental, este não será objeto direto de nossas cogitações. A filosofia espírita servirá como pano de fundo para o desenvolvimento de nossas idéias. Sobre os seus postulados analisaremos, construiremos e refutaremos conceitos acerca da natureza do homem.

Nosso propósito? Edificar, com os elementos ora existentes, uma concepção abrangente acerca da natureza humana. Uma concepção conspirante. Erguida contra as noções estabelecidas que apresentam o homem como um objeto, máquina ou complexo exclusivamente material. Pretendemos incendiar a apatia. Lutamos por entronizar o conceito de que somos um projeto de transformação, somos um processo em construção; somos um devir. A filosofia espírita, respaldada na ciência emergente do espírito, serve-nos de base fundamental para propor e desenvolver uma nova, desafiante e transformadora idéia: A VISÃO ESPÍRITA DO HOMEM.


Visões da Antropologia

“A antropologia é a ciência do fenômeno humano. Em contraste com as disciplinas que limitam porções de entendimento no fenômeno, a antropologia considera a história, a psicologia, a sociologia, a economia, etc., não como domínios, mas sim como componentes de um fenômeno global.
Edgar Morim em O Homem e a Morte.


Como estudo do fenômeno humano, a antropologia se propõem a estudá-lo em todas as suas dimensões. Aqui encontramos conflitos entre as diversas visões sobre a natureza humana. Ora visto como um complexo puramente biológico, outras, como um diáfano componente espiritual que milagrosamente se mostra pela vontade misteriosa de Deus, o problema do ser humano tem merecido a atenção de diversas escolas do pensamento. Poderemos agrupar tais visões — conforme proposta do prof. J. Herculano Pires [1] — da seguinte forma:

A Antropologia Materialista

Reduzindo o homem a um complexo físico-químico e apresentando o Espírito como um epifenômeno, esta abordagem busca equacionar a questão humana dentro da lógica mecanicista buscando na fisiologia cerebral a explicação última da realidade humana.

A Antropologia Espiritualista

Propõem um Ser Espiritual cuja existência estende-se para além da vida física; porém, negligencia aspectos importantes acerca do mundo material por considerá-lo de menor importância.

Uma nova antropologia...

A visão espírita do homem propõem uma nova antropologia — talvez a retomada do conceito fundamental dela. Reconhecendo as dimensões espiritual e material do ser humano, propõem-se a um estudo abrangente acerca da natureza humana. Transformando o antropus num conceito espiritual, num processo de desenvolvimento de um ser bio-psico-sócio-espiritual, a nova antropologia Aproxima-se do o Espiritismo já que este é definido como o “a ciência que estuda a origem, natureza e destinação dos Espíritos, bem como suas relações com o mundo corporal.” — conforme o assinala seu codificador.


O homem como conceito

“...o entendimento da natureza tem sua finalidade dirigida ao entendimento da natureza humana, e da condição humana enquanto natural.”
Jacob Bronowski - em A Escalada Humana


A linguagem é uma das grandes conquistas humanas. Através dela representamos e significamos o mundo. Utilizamo-la como instrumento de acesso à realidade das coisas e mesmo de acesso à nós mesmos. Falar de conceitos significa articular símbolos. É disto que trataremos agora. Diversos símbolos dispostos de forma organizada, estruturados dentro de um contexto cultural específico e que pretendem a representação, ainda que parcial, daquilo que fomos, somos ou viremos a ser. Aqui nos tornamos sujeitos e objetos de nossas próprias definições.


Conceito Biológico

Seguindo as tradições da ciência mecanicista o ser humano foi tomado como uma mera máquina biológica, um organismo complexo com sistemas de funções específicas.

O grande elemento capaz de diferenciar o homem de outros organismos superiores era justamente a incrível complexidade de seu cérebro, tomada então como a máquina central do complexo biológico humano. Explicar o cérebro significava, em última instância, explicar o homem. Mesmo os conceitos de consciência e mente encontravam, no paradigma materialista, a solução de continuidade suposta na explicação do mecanismo cerebral.

A esse respeito, Jonh Eccles — eminente neurofisiologista — se pronuncia nos seguintes termos:

“É essencial que todas as considerações sobre o problema mente-cérebro se fundamentem no conhecimento da compreensão científica do cérebro e nas várias atividades que são tidas como envolvidas na produção da experiência consciente” [2]

O conceito biológico do homem-cérebro deu origem à concepção de um ser mecânico cuja existência estava passível de explicação pelo modelo computacional de Von Neuwman:


PROCESSADOR + MEMÓRIA + SISTEMAS DE ENTRADA E SAÍDA DE INFORMAÇÕES


Nesta concepção a mente humana aparecia como um epifenômeno cuja existência era derivada da manutenção da memória que possibilitava, mediante o condicionamento, automatizar respostas para os eventos ocorridos no mundo externo, primeiramente, e no mundo interno após um certo desenvolvimento. Assim, cada parte da memória humana, estaria gravada em algum lugar específico do cérebro, segundo a concepção de algumas correntes do pensamento. A especialização cerebral — entre o lado direito e esquerdo do cérebro — apresentam na atualidade o desenvolvimento contemporâneo de tais concepções.

Uma das mais eminentes personalidades no desenvolvimento destes conceitos foi o neurocirurgião canadense Wilder Penfield. Nos anos 20, com experiência envolvendo epilépticos, Penfield descobriu que ao estimular determinadas regiões do cérebro, seus pacientes recordavam-se de fatos específicos em suas memórias. A repetição do estímulo ocasionava a lembrança detalhada dos mesmos episódios.

A este respeito ele escreveria em 1975:

“De imediato, ficava evidente que não se tratavam de sonhos. Eram ativações elétricas de um registro seqüencial de consciência, um registro que tinha sido formulado durante a experiência anterior do paciente. Este revivia tudo aquilo de que tinha consciência naquele período de anterior como num flashback cinematográfico.” [3]

A idéia de uma máquina biológica consolidava-se a pouco e pouco. A expressão vida vegetativa utilizada para pessoas com acidentes cerebrais irreversíveis, denota a crença materialista de nossa cultura ao supor esteja o indivíduo encerrado em seu complexo aparelho cerebral.

Porém, este mesmo paradigma encontra dificuldades na explicação de inúmeros fenômenos da realidade. Voltemos às idéias de Sir John Eccles. Na mesma obra citada ele desenvolve a tese de uma hipótese que:

“...considera que a mente autoconsciente é uma entidade independente que está ativamente engajada em ler na multidão de centros ativos dos módulos da áreas de ligação do hemisfério cerebral dominante. A mente autoconsciente seleciona desses centros, de acordo com sua atenção e seus interesses, e integra o que selecionou para nos fornecer a cada momento a unidade de experiência consciente.” [4]

E mais adiante:

“...acredito que a estratégia reducionista não terá sucesso na tentativa de explicação dos níveis mais elevados do desempenho consciente do cérebro humano” [5]

Tais visões trariam implicações para um conceito biológico mais abrangente acerca do ser humano. Aceitando de forma clara, a existência de uma dimensão biológica do homem somos conduzidos a uma visão mais abrangente de sua própria estrutura.

A filosofia espírita reconhece esta dimensão biológica, embora não se restrinja a ela. Diz-nos o Prof. J. Herculano Pires:

“Cada criatura humana é um ser espiritual, mas é também um ser físico ou um ser corporal (biológico diríamos nós). [6]

Prossegue Herculano agora citando O Livro dos Espíritos - obra primeira da Filosofia Espírita:

“Se o homem não possui uma alma animal, que por suas paixões o rebaixe ao nível dos animais, tem seu corpo, que freqüentemente o rebaixa a este nível, porque o corpo é um ser dotado de vitalidade, que possui instintos, mas não inteligentes, limitados aos interesse de sua conservação.”[7]

Vendo a dimensão biológica do homem, atribuindo extrema importância mesmo à esta dimensão, o Espiritismo antecipa a derrocada da concepção materialista do homem.

Para falarmos em conceitos específicos, visitemos Stanislav Grof em “Além do Cérebro” quando ele escreve:

"O último desafio sério ao pensamento mecanicista é a teoria do biólogo e bioquímico britânico,, Rupert Sheldraker, em seu livro revolucionário e altamente controvertido, Uma Nova Ciência da Vida (1981) Sheldraker fez uma crítica brilhante das limitações da força explanatória da ciência mecanicista e sua inabilidade para encarar problemas de significância nas áreas de da morfogenia, durante o processo individual e a evolução das espécies, da genética ou de formas instintivas e mais complexas de comportamento. A ciência mecanicista trata apenas do caráter quantitativo dos fenômenos, com aquilo que Sheldraker chamou de 'causação formativa'. Ainda segundo Sheldraker, os organismos vivos não são apenas máquinas biológicas complexas e a vida não pode ser reduzida a reações químicas." [8]

É assim que nos aliamos a uma visão moderna do homem encarado como um organismo biológico de extrema complexidade, porém não encerrado nesse mesmo organismo. Antes, enxergamos no biológico uma de suas dimensões constitutivas.

É assim que em 1959, encontramos nos escritos de Will Durant um desabafo sob o qual vale a pena refletir:

“Talvez a biologia venha a rebelar-se com o domínio dos métodos e conceitos da física; e descubra que a vida se aproxima mais das bases da realidade do que a ‘matéria’ dos físicos e dos químicos. E quando a biologia se libertar da mão cadavérica do método mecanístico, sairá dos laboratórios para o mundo, começará a transformar os propósitos humanos, como a física transformou a face da terra; e porá fim à brutal opressão da maquinaria sobre o gênero humano. Ela revelará, até para os filósofos que a duzentos anos vivem escravizados aos matemáticos e físicos, a unidade diretiva; a criatividade protéica e a magnificente espontaneidade da vida” (DURANT, Will. Em Filosofia da Vida. pp. 76. ed. 11ª. Companhia Editora Nacional. São Paulo. 1959.)

Conceito Social

O homem é uma unidade social. Está na natureza humana a necessidade da vida em sociedade. Estruturamos, desde a grei primitiva até a sociedade globalizada de hoje, uma civilização centrada na conquista social. Mesmo quando insistimos em privilégios para o indivíduo, temos no contexto da desigualdade social a estrutura viabilizadora deste aborto social.


O homem é um animal social

- insistia Aristóteles.


Somos mais. Necessitamos da vida em sociedade como elemento capaz de nortear o processo de desenvolvimento de nossa cultura. Somente em sociedade os homens podem desenvolver os limites de suas potencialidades.

A sociedade estabelece estruturas de relações que possibilitam a estruturação do indivíduo mediante o processo de aprendizado e adaptação. Aqui, a família desempenha papel crucial como o elemento diretor do processo de aculturação do indivíduo, responsável que é pela introdução da linguagem e da ética social, elementos primários da civilização individual.

Lev Semyonovich Vygotsky, psicólogo russo, propõem em seus escritos que é a sociedade a responsável pelo desenvolvimento da mente humana.

Assim se pronunciam alguns estudiosos (Michael Cole e Sylvia Scribner):

“Os sistemas de signos (a linguagem, a escrita, o sistema de números), assim como o sistema de instrumentos, são criados pelas sociedade ao longo do curso da história humana e mudam a forma social e o nível de seu desenvolvimento cultural. Vygotsky acreditava que a internalização dos sistemas produzidos culturalmente provoca transformações comportamentais e estabelece um elo de ligação entre as formas iniciais e tardias do desenvolvimento individual. “
( VYGOTSKY, L.S. em “A Formação Social da Mente”. p. 8. 4ª ed. Ed. Martins Fontes. São Paulo. 1991)


E nas próprias palavras de VYGOTSKY:

“...o momento de maior significado no curso do desenvolvimento intelectual, que dá origem às formas puramente humanas de inteligência prática e abstrata, acontece quando a fala e a atividade prática, então duas linhas completamente independentes de desenvolvimento, convergem.” (idem. pp. 27)

E mais adiante:

“... Signos e palavras constituem para as crianças, primeiro e acima de tudo, um meio de contato social com outras pessoas. As funções cognitivas e comunicativas da linguagem tornam-se, então, a base de uma forma nova e superior de atividade nas crianças, distinguindo-as dos animais."

Ao analisarmos a questão do ponto de vista espírita - pelo que recomendamos o estudo de todo o capítulo VII da parte terceira de O Livro dos Espíritos, que trata Da lei de Sociedade — vemos a questão 766, onde Kardec interroga:

“766. A vida social está em a Natureza?

“Certamente. Deus fez o homem para viver em sociedade. Não lhe deu inutilmente a palavra e todas as outras faculdades necessárias à vida de relação.”

Os escritos de Vygotsky — que era materialista dialético e cujo trabalho fundamenta a teoria psicológica do marxismo — foram levados a efeito entre 1924 e 1934, mas constituem a confirmação da posição espírita - exposta em 1857 — com relação ao conceito social do homem; ressalvado o fato de que suas percepções se limitam a uma existência do indivíduo, ao passo que o Espiritismo considera estas relações antes, durante e depois da existência física.

Do item 676 de O Livro dos Espíritos extraímos a afirmação: “Sem o trabalho o homem permaneceria sempre na infância quanto à inteligência.” Avaliando a abrangência desta afirmativa, identificamos no processo social de luta pela sobrevivência, no qual o homem transforma a realidade e é por ela transformado, o elemento condutor da filosofia espírita no tocante ao desenvolvimento do ser humano. Estabelecido o progresso intelectual - para o qual o trabalho é condição precípua - dele decorre naturalmente o progresso moral, embora não imediatamente.

Analisando, então, o homem no contexto social, vemo-lo como um manipulador de instrumentos e símbolos. Identificamo-lo como ser passível de transformação e como agente transformador. Temos nele o elemento que cria, elabora e se modifica através da realidade social. O instrumento como elemento viabilizador de seu trabalho na transformação da natureza; o símbolo como elemento interno, fruto da convivência social e capaz de lhe redimensionar os limites internos numa nova compreensão da realidade e que o transforma efetivamente.

Herculano Pires propõem uma interpretação mais abrangente do conceito social espírita no que toca às relações sociais. Identificando, graças à interação Homens / Espíritos pelas vias mediúnicas e intuitivas (vide o cap. IX da segunda parte de O Livro dos Espíritos - Da intervenção dos Espíritos no Mundo Corporal - particularmente os item 459 a 472) o conceito de uma Cosmossociologia. Ao encarar o fato de ser o homem um membro das Sociedade Cósmica o Espiritismo nos remete à uma instância superior da análise sociológica. Tal análise nos remete à uma nova ordem de idéias de cuja abrangência extraímos: o processo reencarnatório, a participação na sociedade terrena e espiritual, o trabalho dentro e fora do corpo físico - como experiências de aprendizagem através das quais o ser edifica-se a si mesmo pela convivência social.


Conceito Psicológico

O homem é um ser psicológico. Guarda em si mesmo um universo inteiro a ser explorado. Seus motivos, suas pulsões e mesmo sua vontade apresentam-se como variáveis complexas que lhe determinam o caráter. A psicologia — ou o estudo da alma — propõem-se a elucidar os movimentos ou processos ocorridos no contexto da mente. Fundamentando o estudo desses processos mentais, essa ciência da alma consolidou-se nos trabalhos de Sigmund Freud, psiquiatra tcheco que em 1900, com a obra “A Interpretação do Sonhos”, inaugura um novo capítulo no livro da história do pensamento humano.

A composição do pensamento humano norteia-se por padrões que nos são acessíveis ao conhecimento imediato e que compõem nossa consciência. Freud foi o primeiro a identificar que, no entanto, além dos motivos e padrões da consciência, influenciam-nos sobremaneira outros motivos e outros padrões existente num plano mental distinto a que ele denominou inconsciente. A psicologia passou a ver o complexo humano como um conjunto de forças e definiu seus objeto de pesquisa — a psicologia humana — como o esforço para representar e equacionar tais forças de modo a oferecer um nítida compreensão do homem e de seus comportamentos.

Apesar das diversas visões da psicologia — adiante, no item A PSICOLOGIA HUMANA, veremos um conjunto de escolas psicológicas — é fácil notar a importância do conceito psicológico do homem como o elemento representativo dos movimentos da alma humana, movimentos estes responsáveis por suas pulsões, seus interesses e mesmo suas vontades.

Conceito Espiritual

A crença na imortalidade da alma é o fundamento mais antigo de que o homem via a si próprio como algo mais além do corpo. Tal crença mistura-se com a própria história da cultura humana..

O conceito espiritual apresenta-se nas diversas representações que o homem fazia de si. Porém, com o advento do paradigma mecanicista o aspecto espiritual foi extremamente relegado. Primeiro com a divisão cartesiana de corpo e alma, que deixou para a ciência o estudo do corpo e para a religião o estudo do espírito, tido como elemento sobrenatural. O estabelecimento da premissa materialista como fundamento da explicação da natureza — inclusive a humana — proposta por Tomas Hobbes, no século XVII trouxe força incomensurável ao conceito do homem como máquina e inaugurava o moderno esforço de explicar o homem como um conjunto de causas e efeitos fisiológicos a lhe determinarem a existência.

Caberia ao século XIX a definição de um novo paradigma no contexto da ciência. Derivado das pesquisas com os fenômenos mediúnicos, o prof. H. Denizard Rivail viria propor a adoção do Espírito como uma das potências da Natureza, retirando-lhe o caráter de sobrenatural e resolvendo a descontinuidade existente entre matéria e espírito. Publicando a obra “O Livros dos Espíritos" — em 1857, com o pseudônimo de Allan Kardec — restabelecia no homem sua dimensão espiritual ao passo em que dispunha essa dimensão para o estudo da ciência. E além disso propôs que:

“O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, da origem e da destinação dos Espíritos, e das suas relações com o mundo corporal.” - Allan Kardec [9]

Vale salientar que a visão espírita não contrapõem corpo e alma, conforme podemos encontrar em O Livro dos Espíritos - item VI da Introdução:

“Há no homem três coisas:

1º, o corpo ou ser material análogo aos animais e animado do mesmo princípio vital;
2º a alma ou ser imaterial, Espírito encarnado no corpo;
3º, o laço que prende a alma ao corpo, princípio intermediário entre a matéria e o Espírito.”

Com esta visão o Espiritismo recolocaria o Espírito como elemento natural, passível de pesquisa pela ciência — embora não acessíveis aos métodos científicos de então.

O conceito espiritual do homem se propõem a representar o homem como tendo uma dimensão pronunciada que lhe extrapola o corpo físico, antecedendo e sobrevivendo a ele. Esta perspectiva tem aos poucos se consolidado como uma visão científica moderna. O declínio dos conceitos newtonianos-cartesianos - fundamentalmente mecanicistas — deu azo ao surgimento de novas visões que hoje consolidam tal aspecto espiritual do ser humano. Os esforços de Stanislav Grof, Roberto Assaglioli, Pierre Weil, Elizabeth Kübbler-Ross, Hellen Wambach, Raymond Moody Jr., Carlis Osis, Ian Stevenson, Hernani Guimarães Andrade — entre outros — no sentido da pesquisa moderna do Espírito, tem surtido efeito e incomodado a visão materialista do homem colocando-a em posição insustentável.

A Revolução Espiritual

O Homem, a Mesa e os Espíritos

Quando o conceito do homem animal - puro complexo bio-físico-químico — se estabelecera no século XIX, um conjunto de fenômenos extraordinários solaparam a cultura materialista vigente. As chamadas danças das mesas — fenômeno no qual um grupo de pessoas em torno de uma mesa a viam levantar-se, mover-se e mesmo responder perguntas através de pancadas e movimentos — veio despertar o interesse de inúmeros pesquisadores. Entre eles o Prof. Hippolyte Léon Denizard Rivail.

As pesquisas do Prof. Rivail culminaram em 1857 com o lançamento de O LIVRO DOS ESPÍRITOS, o qual ele assinava com o pseudônimo de Allan Kardec.

Na obra o Sr, Rivail propunha uma revisão radical em torno do conceito do homem, de sua existência, de seus propósitos e conceitos em torno da vida.


A mudança conceitual

A primeira mudança se deu na própria colocação do problema. Até então as questões pertinentes aos Espíritos residiam na alçada exclusiva da religião, e desde Tertuliano, a premissa religiosa era “crer por ser impossível”. O maravilhoso e o sobrenatural grassavam ameaçados num mundo em que a Ciência estabelecia seus domínios...

O Sr. Rivail, contudo, propunha que o Espírito não era um ente sobrenatural. Estava na natureza das coisas e era passível de pesquisa. E como uma das primeiras conclusões extraídas de suas pesquisas viu nos Espíritos nada mais do que os próprios homens despidos do corpo físico.

O estudo do fenômeno mediúnico — curiosamente iniciado com a dança das mesas — culminou com a definição de uma nova visão em torno da natureza e do homem.


Existência e Imortalidade

A proposta filosófica do Espiritismo, ao abordar a questão é colocada nos seguintes termos:

1. Existe alma? — aqui entendida como algo além da simples estrutura biológica do cérebro.

2. Esta alma sobrevive à morte do corpo?

Estes termos nos levam a uma abordagem meticulosa do problema humano.

A própria pesquisa espírita, já no século XIX, respondia afirmativamente a ambas as interrogações, mas somente a partir de 1932, com a publicação da obra Novas Fronteiras da Mente, de autoria do professor Joseph B. Rhine — o pai da parapsicologia moderna, a ciência oficial despertou para tratar o assunto com a seriedade merecida. O objetivo da obra do prof. Rhine era apresentar como suas pesquisas — utilizando o método estatístico — demonstravam a existência no homem de percepções extrasensoriais. Tais faculdades indicavam a possibilidade de existência, no homem , de algo além da matéria.

Na década de 80, uma obra de extrema curiosidade — O EU E O SEU CÉREBRO — assinada pelos eminentes pesquisadores Karl Raimund Popper, filósofo, e John Eccles, neurofisiologista, advogavam a real existência de um EU, distinto do cérebro.

As pesquisas sobre as potencialidades da alma eclodiram com força total a partir da década de 70. Em particular, o surgimento da Psicologia Transpessoal, a imortalidade deste EU ficou patenteada através das pesquisas com a reencarnação e as experiências de quase morte.

A proposta de abordagem do Espiritismo mostrou-se acertada para o caso.

Dimensões e abrangências do ser humano

O Ser bio-psico-sócio-espiritual

Á luz do pensamento espírita, encaramos o homem como um complexo bio-psico-sócio-espiritual que se manifesta em múltiplas experiência de aprendizagem reencarnatória com vistas ao desenvolvimento de suas potencialidades morais e intelectuais. Tais dimensões humanas não podem ser descaracterizadas sob pena de obter-se uma pálida representação do homem. O entendimento do ser humano passa, portanto, pelo entendimento de suas dimensões múltiplas e, particularmente, pelo reconhecimento de suas dimensão espiritual - responsável pela perenização de sua individualidade evolutiva a expressar-se em múltiplas existências dentro e fora da experiência carnal.

Há um ponto que merece esclarecimento particular. Trata-se da dimensão biológica humana, muitas vezes associada exclusivamente á vida encarnada.

Através do estudo do corpo espiritual - ou perispírito — somos forçados a reconhecer uma dimensão biológica espiritual(!). Assim como poderemos pensar em dimensões sociais espirituais, e psicológicas espirituais. A dimensão espiritual aparece como um elemento de destaque para acentuar que as dimensões bio-psico-sociais NÃO ESTÃO RESTRITAS A UMA EXISTÊNCIA FÍSICA!!! Mas estendem-se por toda a história espiritual do ser. A vida possui uma abrangência incomensurável a desdobrar-se em cadeias evolutivas que integram o mundo espiritual e material.[10]


O Ser Agente e o Ser Paciente

A epopéia da existência humana desdobra-se através de uma seqüência evolutiva curiosa. Primeiro é a Natureza que, ao formar e transformar a espécie humana, dota-a do aparelho mental, que lhe possibilita compreender a si próprio e à Natureza. Depois vem o esforço humano de mudar o meio em que está; o que resulta na aceleração do processo de mudança de si mesmo mas agora seguido pela efetiva transformação do meio onde está...

Temos assim a dupla natureza humana ora AGENTE ora PACIENTE.... Da interação entre estes aspecto temos como resultado o PROCESSO EVOLUTIVO HUMANO.

A capacidade de transformar a si mesmo quer como agente, quer como paciente, traz ao homem uma abrangência notável uma vez que o coloca acima se si mesmo, para além do que existe no presente. Esta abrangência lhe caracteriza o projeto existencial. o homem aparece como uma atualização de si próprio, como a melhoria daquilo que já foi. Este processo desenvolve-se não apenas em uma experiência existencial, mas na multiplicidade das encarnações.

Agindo, o homem aciona o meio externo. Sofrendo as conseqüências dos seus atos, o homem sente a natureza agindo sobre si, transformando-o. Este é o referencial educativo da vida. O pensamento espírita denomina-lhe LEI DE CAUSA E EFEITO. Esta lei não determina quais serão as conseqüências das atitudes humanas mas estabelece que elas virão de modo que, através delas, o homem seja transformado pelo aprendizado de novos valores, pensamentos e atitudes.


A integração existencial

Em sua magnífica obra TIPOS PSICOLÓGICOS, o psicólogo Carl G. Jung define a individuação [11]:

“De modo geral, pode-se dizer que a individuação é o processo de constituição e particularização da essência individual, especialmente, o desenvolvimento do indivíduo — segundo o ponto de vista psicológico — como essência diferenciada do todo, da psicologia coletiva”

Se estendermos este processo de individuação para a realidade reencarnatória observaremos que o processo reencarnatório é, de fato, um processo de individuação. Porém, a cada nova existência não somos remetidos ao ponto zero! Antes, cada experiência de vida está integrada de modo a possibilidade do desenvolvimento integral do Ser, tanto do ponto de vista moral quanto intelectual.

Acerca do assunto afirma Allan Kardec [12]:

“A vida do Espírito, pois, se compõem de uma série de existências corpóreas, cada uma das quais representa para ele uma ocasião de progredir(...)”

E recentemente, analisando o mesmo problema escreveu o físico Patrick Drouot [13]:

“Durante meus anos de pesquisa, pude constatar que as vidas passadas não estão separadas umas das outras. Estão ligadas por uma espécie de fio condutor, que se desenrola incansavelmente além do tempo e do espaço.”

Isto porque, as diversas experiências reencarnatórias, promovem o desenvolvimento dos potenciais do ser espiritual, que, embora evolutivo, guarda sua integridade psicológica, algo a que podemos chamar de INDIVIDUALIDADE ESPIRITUAL. Cada encarnação possibilita a expressão desta individualidade ao mesmo tempo que lhe promove o desenvolvimento.

Importa considerar que este desenvolvimento não ocorre apenas no plano subjetivo. Na medida em que se desenvolve o indivíduo espiritual manifesta potencialidades mais aprimoradas para agir no meio em que vive. Seu vigor intelectual e afetivo manifestam-se em ondas de influenciação e forças de mudança, que tocam os seres e as coisas de sua convivência. A convivência social — no sentido mais amplo possível — promove, ao longo do tempo, a melhoria de todos os envolvidos no processo, constituindo-se este desenvolvimento no propósito da vida. A este processo denominamos INTEGRAÇÃO EXISTENCIAL.


A Psicologia Humana

“Uma imagem nova da psique humana tem sido das mais significativas contribuições da moderna pesquisa da consciência à emergente visão científica do mundo.
Stanislav Grof - Em Além do Cérebro


O propósito da representação de uma psicologia humana vem de encontro aos nossos anseios de compreender a complexidade do ser humano. Os modelos ora representados constituem — em nossa opinião particularíssima — as grandes vertentes do pensamento psicológico vigente. Apresentamo-los sob a epígrafe de cartografias por entendê-los como mapas de representação da estrutura psicológica humana.

Destacamos, porém, que foge ao escopo deste trabalho uma análise minuciosa de cada modelo apresentado, excetuando-se obviamente, o modelo espírita. [14]


A cartografia de S. Freud

Com base no pressuposto de um determinismo psíquico — no qual se admite não haver descontinuidade na vida mental já que para cada pensamento, memória revivida, sentimento ou ação, podemos encontrar uma causa — Freud estabeleceu a existência na psique humana dos seguintes processos:

Consciente — “uma pequena parte da mente, incluí tudo do que estamos cientes num dado momento” [15]

Inconsciente — onde “estão elementos instintivos, que nunca foram conscientes e que não estão acessíveis à consciência” [16]

Pré-consciente — “uma parte do inconsciente, mas uma parte que pode tornar-se consciente com facilidade.” [17]

E com base neles estabeleceu a primeira cartografia da psique. A estrutura da personalidade aparece em Freud composta por três instâncias:

ID — onde estão os instintos básicos da organização biológica e que se manifestação de modo desconhecido;

EGO — o elemento de contato com a realidade das coisas, onde se desdobram os processos conscientes. Funciona como uma “camada” que dá forma e direção às forças propulsoras do ID, de onde ele retira as energias de realização.

SUPEREGO — “É o depósito dos códigos morais, modelos de conduta e dos constructos que constituem as inibições da personalidade.” [18]

Freud identifica uma cadeia de extrema vinculação biológica com relação aos processos mentais. Estabelece o conceito das pulsões de vida (libido) e de morte (que não recebeu denominação específica) como energias propulsoras das atividades de formação e desenvolvimento da personalidade.


A cartografia de C. J. Jung

Para Jung os arquétipos desempenham papel fundamental na compreensão do ser humano. Em sua cartografia da psique humana Jung retrata cinco arquétipos:

PERSONA — A forma através da qual nos apresentamos no palco da vida. Segundo a definição do próprio Jung[19]:

“(...) um complexo funcional a que se chegou por motivos de adaptação ou de necessária comodidade”

EGO — É “(...) o centro da consciência e um dos maiores arquétipos da personalidade. Ele fornece um sentido de consistência e direção em nossas vidas conscientes.[20]”

SOMBRA — uma parte do inconsciente na qual residem aspectos inaceitáveis, até para nós mesmos, de nossa individualidade.

ANIMA ou ANIMUS — aparece como uma parcela complementar de nossa individualidade. Apresenta-se como um elemento do inconsciente com as tendências complementares às apresentadas pelo EGO.

SELF — aparece como o nosso EU INTEGRAL, um elemento norteador de nosso processo de individuação. Na definição de Jung [21]: “consciente e inconsciente não estão necessariamente em oposição um ao outro, mas complementam-se mutuamente para formar uma totalidade: o SELF.”


A cartografia de B. F. Skiner

CONDICIONAMENTOS — para a psicologia behaviorista radical de Skiner, o corpo apresenta-se como a totalidade do ser. As experiências sensórias edificariam, através de um processo de CONDICIONAMENTO as ações, pensamentos, associações e motivos da personalidade humana. A estrutura mental edifica-se e reforma-se com base nos estímulos ou repressões repetidas. O homem apresenta-se como resultado de sua história, sendo possível modifica-lo através de novos estímulos.


A cartografia de S. Grof

Barreira Sensorial — os elementos vinculados à própria biologia humana. Sensações e formas relacionadas às disposições de nossos órgãos sensoriais.

Inconsciente Individual — o nível da biografia individual onde residem todas as experiências de nossa história de vida.

Nível de Nascimento e Morte — onde são encontradas e interrelacionadas as experiências psíquicas relacionadas aos fenômenos da morte e do nascimento. Aqui encontramos matrizes psicológicas cujo arcabouço reflete, em parte, os arquétipos coletivos referentes aos episódios de nascimento e morte.

Domínio Transpessoal — onde as experiências transpessoais se manifestam. Analisando essas experiências ou fenômenos transpessoais, o Dr. Grof assinalou [22]:

“O denominador comum desses fenômenos, de outra maneira ricos e ramificados, é a sensação vivida pelo sujeito de que sua consciência expandiu-se além das comuns limitações do EGO e transcendeu os limites do tempo e do espaço.”


A cartografia Espírita

O Espiritismo, ao propor a compreensão do homem em sua totalidade identifica - conforme citado anteriormente - que:

“Há no homem três coisas:

1º, o corpo ou ser material análogo aos animais e animado do mesmo princípio vital;

2º a alma ou ser imaterial, Espírito encarnado no corpo;

3º, o laço que prende a alma ao corpo, princípio intermediário entre a matéria e o Espírito.”

A Doutrina reconhece no homem a existência de um corpo biológico:

“(...) o corpo é um ser dotado de vitalidade, que possui instintos, mas não inteligentes, limitados aos interesse de sua conservação.” [23]

Este corpo estabelece um nível da consciência humana. Mais além dele identificamos o perispírito como a matriz de toda a memória do Ser, o elemento responsável — porquanto indissociável do Espírito, propriamente dito — pelo armazenamento de toda a memória do Ser. Nele encontramos o registro de TODAS as experiências encarnatórias do Espírito. E finalmente temos o Espírito como o elemento fundamental do Ser, aquele que lhe confere individualidade. O Espírito mostra-se como um princípio inteligente individualizado e passível de progresso.

Formulando uma compreensão específica da cartografia espírita, o Espírito André Luiz, em sua obra No Mundo Maior, no capítulo “A CASA MENTAL”, introduz uma extrapolação da teoria freudiana ao propor a casa mental dividida em três módulos:

O Inconsciente — onde se encontra toda a experiência da vida pretérita do indivíduo — inclusive as experiência em vidas passadas;

O Consciente — onde repousam as experiências acessíveis pela mente no presente; e

O Superconsciente — a porção de nossa mente onde se encontram as nossas promessas e ideais de melhoria individual.

A representação da psique humana, à luz do Espiritismo faz-nos ver que as abordagens tradicionais no campo da psicologia não são antagônicas, mas complementares. A existência e imortalidade da alma fornecem a chave para a compreensão de um conjunto de problemas acerca do homem que nenhum outro preceito permite. Vemos que o condicionamento behaviorista de fato ocorre a nível no corpo, nos limites das barreiras sensoriais que se consolidam na forma de elementos simbólicos na mente, através de reflexos condicionados e condicionantes, mas percebemos que ao longo do tempo, nos recessos de nossa alma, desenvolvemos igualmente aspectos particularíssimos a se expressarem na forma dos arquétipos Junguianos. Reconhecemos a similitude do ID, do EGO e do Superego com as estruturas criadas pela experiência multiexistêncial, a exprimir-se em várias reencarnações, desde o princípio inteligente original (o ID) que pela experiência na matéria desenvolve um individualidade (EGO) a submeter-se ao processo evolutivo mediante o desenvolvimento de referenciais superiores acerca de si mesmo (SUPEREGO).

A compreensão da psicologia Transpessoal — que tem sua definição em GROF — aproxima a pesquisa científica oficial do modelo proposto pelo Espiritismo, embora não se identifique a ele.


Ser e Significado: Análise da perspectiva humana

“Pode surpreender que eu diga, baseado em minha prática profissional, assim como na de meus colegas psicólogos e psiquiatras, que o problema fundamental do homem, em meados do século XX, é o vazio. Com isso quero dizer não só que muita gente ignora o que quer. mas também que freqüentemente não tem uma idéia nítida do que sente.”
Rollo May em O Homem à Procura de Si Mesmo.

 

O Sentido da Vida em Frankl

O Dr. Viktor Frankl é um dos sobreviventes de Auschwitz. Responsável pelo desenvolvimento de uma nova linha de terapia à qual ele denominou LOGOTERAPIA — ou a terapia do sentido.

Na primavera de 1977 o Dr. Frankl escreveu [24]:

“(...) o homem não pode mais ser considerado apenas como uma criatura cujo interesse fundamental é o de satisfazer as pulsões, de gratificar os instintos, ou então, dentro de certos limites, reconciliar entre si o ID, o EGO e o Superego, nem a presença humana pode ser entendida simplesmente como o resultado de condicionamentos ou de reflexos condicionados. Neste âmbito, ao contrário, o homem se revela como um ser em busca de um sentido.”

Esta busca de um sentido resulta na transformação da experiência de vida num processo de realização real; de autorealização e autoatualização.

O Espiritismo destaca este aspecto como sendo fundamental para o equilíbrio humano: a necessidade de um sentido para a vida. E nesse particular, na medida em que estende a vida para além das fronteiras da morte e estabelece uma cadeia de desenvolvimento ontológico, a Doutrina Espírita viabiliza a integridade do equilíbrio pela extrapolação da perspectiva humana dando ao ser um significado real para sua vida: a construção de si mesmo!


May e o Homem a procura de Si

Mas quem é este homem?

Em 1969 o Dr. Rollo May, psicólogo norte-americano publicou uma obra que guarda interesse até os presentes dias: O HOMEM A PROCURA DE SI MESMO. Nesta obra o Dr. May estabelece que o grande conflito da era moderna foi a perda de si mesmo.

Estabelecendo a rotina, a angústia, o medo e a solidão como os elementos responsáveis pela neurose contemporânea, propõem que o (re)conhecimento de si mesmo seja a via de recuperação da integridade humana na atualidade.

No item 919 de O Livro dos Espíritos, encontramos a preocupação dos prepostos espirituais no sentido de efetivar a transformação humana:

“919. Qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal?
- Um sábio da antigüidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo.”

Assim, o Espiritismo propõem a estruturação de um processo contínuo de conhecimento e auto-avaliação com fins de melhoria continuada acerca daquilo que somos intelectual e moralmente.

A Verdade e a Vida no Caminho de Jesus

625. Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem para lhe servir de guia e modelo?
R. - Jesus.
"O LIVRO DOS ESPÍRITOS" item 625.


A mensagem do Cristianismo permanece um convite para o desenvolvimento das potencialidades humanas mais profundas. Desde o “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo” e passando pelo “Conhecereis a verdade e ela vos tornará livres”, vemos Movimento Cristão uma proposta de transformação no homem.

“Vós sois deuses!”asseverava Jesus.

Convocando-nos para iniciar o nosso processo de melhoria pessoal, o Cristianismo nos faz ver a nós mesmos como uma promessa de evolução. Crer que a mensagem de Jesus reveste de caráter passivo, indutora de um estado de expectativa inoperante face à vida, é ignorar a essência mesma do Cristianismo: o esforço de melhoria íntima na direção de promover o amor a si; ao próximo e a Deus.


O homem como fenômeno, agente e projeto

O Projeto Existencial

O homem se mostra na visão espírita, como um projeto de si mesmo. Um arcabouço iniciado pela natureza; dotado de consciência e responsabilizado pelo seu próprio desenvolvimento ulterior.

Através das experiências reencarnatórias vai ele adquirindo novas compreensões sobre a natureza de si e das coisas; vai efetuando suas mudanças de comportamento, melhorando-se, expandindo-se...

Edificação de Si...

Aparecendo como um fenômeno da natureza, o homem se transformou num agente de destaque capaz de mudar as coisas e a si.

Na condição de agente de transformação o trabalho desempenha para ele um papel fundamental. É pelo trabalho que o homem age no meio e o meio lhe transforma. Por esse motivo o destaque dado por Kardec no tocante à necessidade do trabalho, mesmo quando o indivíduo não dependa economicamente dele.


O homem para além de si

“É tempo que o homem tenha um objetivo.
É tempo que o homem cultive o germe de sua mais elevada esperança.”

Zaratustra, Em Assim Falava Zaratustra de F. Nietzsche.


O conceito do Além do Homem em Nietzsche

Friedrich Nietzsche, o filósofo poeta desesperado, autor da morte de Deus na modernidade, ao analisar o homem em sua totalidade chegou à conclusão que o tempo do homem havia passado. Foi o primeiro a desenvolver uma filosofia centrada no conceito da seleção natural, na sobrevivência natural do mais forte e aplicá-la ao tipo humano. Propondo que o homem é uma ponte entre o animal e o Além-do-Homem, Nietzsche estabelece um convite para que o homem ultrapasse seus limites e desenvolva a integralidade de seus potenciais.

Embora os pressupostos de Nietzsche sejam mais poéticos que filosóficos, somos tentados a concordar com suas idéias em torno da necessidade do advento de um Além-do-Homem, caracterizado essencialmente pelo esforço de superação da humanidade, pela busca mesmo dela.

O homem como devir

Simone de Beauvoir define o homem não como um processo, mas como um devir, um constante vir a ser. Tal compreensão sobre a natureza humana nos permite idealizar o que há de mais profundo na existência humana: a capacidade de continuamente se superar, de melhorar a si próprio; de se reconstruir e de (re)significar-se.

A humanidade e pós-humanidade em Jesus

O homem é um mistério a ser desvendado diariamente, por si mesmo. Constituímo-nos naquilo que nos esforçamos por ser, ou naquilo que permitimos à vida nos edificar. Somos produtos e agentes de nossos próprios esforços, de nossas próprias ações.

Afinal, o que seremos?

Seremos o que nos projetarmos. Seremos frutos de nossos pensamentos, de nossos atos.

À luz da Doutrina Espírita verificamos nossa condição de viajores de nossa existência, de construtores de nosso destino. Impelindo-nos a realizar nosso progresso intelecto-moral, o Espiritismo nos lança no desafio de construir em nós o Além-do-Homem.

E neste contexto, ao perceber a indecisão em somos por vezes lançados, a superação de nós mesmos é estabelecida pela recomendação cristã: “Sede perfeitos...”

De modo que não nos restasse dúvidas em torno do roteiro a seguir, interrogou Kardec aos prepostos da Espiritualidade Maior:

625 - Qual o tipo mais perfeito que Deus tem oferecido ao homem para lhe servir de guia e modelo?
R. Jesus.


NOTAS:


1- PIRES, J. Herculano. PARAPSICOLOGIA HOJE E AMANHÃ. pp 13 a 17. 9ª ed. Edicel. São Paulo. 1987.

2- POPPER, Karl Raimund e Eccles John C. “O EU E O SEU CÉREBRO”. pp. 284. Ed. Papirus, Brasília. 1991

3- Citado por TALBOT, Michael. O UNIVERSO HOLOGRÁFICO. pp. 30. Editora BestSeller. São Paulo. Traduzido de The Holographic Universe [1991]

4- (idem pp. 435)

5- (idem pp. 439)

6- PIRES, J. Herculano. em INTRODUÇÃO À FILOSOFIA ESPÍRITA. pp. 62. Ed. Paidéia. 1ª ed. São Paulo. 1983

7- KARDEC, Allan, O LIVRO DOS ESPÍRITOS. item 605a. pp 298. FEB.

8- GROF, Stanislav. Em “Além do Cérebro - Nascimento, Morte e Transcendência em Psicoterapia”. pp.43 Editora MacGraw-Hill. São Paulo. 1987

9- KARDEC, Allan - O QUE É O ESPIRITISMO. I.D.E. pp. 10 15ª ed. São Paulo. 1983.

10- Para maiores detalhes em torno da questão sugerimos o estudo da obra EVOLUÇÂO EM DOIS MUNDOS do espírito André Luiz - psicografia Waldo Vieira e Frnacisco Cândido Xavier editado pela FEB.

11- JUNG, Carl Gustave, TIPOS PSICOLÓGICOS. pp.525. 4ª ed. Guanabara Koogan. Rio de Janeiro. 1987.

12- KARDEC, Allan. O LIVRO DOS ESPÍRITOS. pp.129. 57ª ed. FEB. Rio de Janeiro

13- DROUOT, Patrick. SOMOS TODOS IMORTAIS. pp. 59. 3ª ed. Ed. Record . Rio de Janeiro. 1995.

14- Para uma análise mais didática da questão sugerimos - na condição de não-especialista na área - o livro TEORIAS DA PERSONALIDADE de Fadiman e Frager - para uma análise de Freud, Jung e Skiner. Para Grof, sugerimos sua obra ALÉM DO CÉREBRO, e para Vygotsky, A FORMAÇÃO SOCIAL DA MENTE.

15- FADIMAN, James e FRAGER, Robert. Teorias da Personalidade. pp. 7. Ed. Habra. São Paulo. 1986.

16- Idem.

17- Idem.

18- Idem. pp. 12.

19- JUNG, Carl Gustave, TIPOS PSICOLÓGICOS. pp.478. 4ª ed. Guanabara Koogan. Rio de Janeiro. 1987

20- FADIMAN, James e FRAGER, Robert. Teorias da Personalidade. pp. 53. Ed. Habra. São Paulo. 1986

21- Idem. pp. 56 (citado por)

22- GROF, Stanislav. Em “Além do Cérebro - Nascimento, Morte e Transcendência em Psicoterapia”. pp.97. Editora MacGraw-Hill. São Paulo. 1987

23- [23] - KARDEC, Allan, O LIVRO DOS ESPÍRITOS. item 605a. pp 298. FEB.

24- [24] - FRANKL, Viktor. UM SENTIDO PARA A VIDA. pp 11. 6ª ed. Ed. Santuário. São Paulo. 1989.

André Henrique

Natal, 8 de julho de 1996


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Veja de André Henrique:

-> Espiritismo e Metodologia
-> Perispírito: um elemento de ligação
-> A revolução do Espírito - Perspectivas da Ciência Espírita
-> A visão espírita do homem