Je M´Appellerai La Verité
Em uma reunião mediúnica,
realizada em 11 de dezembro de 1855 [1],
ainda na fase inicial dos estudos que culminariam na publicação
da obra “O Livro dos Espíritos” sob o pseudônimo
Allan Kardec, o prof. Hippolyte Léon Denizard Rivail fez
uma pergunta sobre o seu espírito protetor [2]
e recebeu a resposta de que se tratava de um espírito que
fora um homem justo e sábio. Posteriormente, em reunião
realizada em 25 de março de 1856, quando perguntado sobre
sua identidade, o espírito informou que “para ti, me
chamarei A Verdade” (Pour toi, je m´appellerai La Verité).
Diante da insistência do prof. Rivail, o espírito reitera
“disse-te que para ti, eu era A Verdade. Não irás
saber mais nada”.
O livro “Obras Póstumas” contém ainda
outras anotações sobre este espírito e seu
papel junto a Allan Kardec. Para aferir sua importância para
o Espiritismo, basta apenas lembrar que, entre os nomes de espíritos
que assinaram o “Prolegômenos” do Livro dos Espíritos,
está registrado o Espírito de Verdade (“L´Esprite
de Veritê”).
Muito tem sido escrito e falado sobre a identidade do “Espírito
de Verdade” e sobre os motivos que o levaram a ocultar o nome
próprio. De concreto, pelo que ficou registrado nas obras
de Allan Kardec e na Revista Espírita, o que se pode dizer
é que se tratava do espírito de um ilustre filósofo
da antiguidade [3] e que a falange
de espíritos aos quais devemos a Doutrina Espírita,
estava sob sua direção. É provável que
ao adotar um pseudônimo, da mesma forma que o próprio
Prof. Rivail o fez, ele tenha evitado discussões que tirariam
o foco do que importava, a essência dos ensinamentos que formam
a Doutrina Espírita.
Naturalmente, pesquisadores e espíritos, ao longo do tempo
optaram por uma identificação ou outra, como, por
exemplo, fez o espírito Mélanchthon. É dele
a introdução do livro “Reflexos da Vida Espiritual”
(“Rayonnements de la Vie Spirituelle”), com mensagens
mediúnicas recebidas pela médium Mme. W. Krell, entre
as quais, a “Prece de Cáritas”. Na introdução,
ele fala sobre o espírito que chamamos de Cristo e diz que
“este espírito foi por diversas vezes um desses missionários
zelosos, um destes seres cujo devotamento puro devia imprimir na
vossa Terra um traço indelével” e “Espíritas,
é ao Espírito da Verdade, como ele se nomeia hoje,
que devem se dirigir vossas homenagens”.
Deixando um pouco de lado a identidade do Espírito, que de
fato não é tão importante assim, pois não
modifica a elevação dos seus ensinamentos, nem o seu
papel no surgimento do Espiritismo, vale a pena pensar um pouco
na escolha do pseudônimo “A Verdade”.
O nome escolhido tem um relacionamento evidente com a passagem no
evangelho de João (16:13) que anuncia o advento do Paracleto,
o Espírito de Verdade, que nos “guiará em toda
a verdade, pois não falará de si mesmo, mas falará
o quanto ele ouvir, e vos anunciará”, e posiciona o
Espiritismo na continuidade da Boa Nova de Jesus.
No contexto histórico, para a França do século
XIX, deslumbrada com as conquistas da ciência e da tecnologia,
muita próxima ainda dos excessos anti-clericais da Revolução
Francesa [4] e berço do Positivismo
[5], este pseudônimo sintetizou
um programa de trabalho.
Sob a orientação do Espírito de Verdade, os
ensinamentos de Jesus, “o caminho, a verdade e a vida”,
se tornariam a base moral sobre a qual se assentou o Espiritismo.
O Espiritismo se apresenta como o Cristianismo Redivivo, Cristão,
como os cristãos dos primeiros tempos, dos tempos antes que
a política imperial romana e as sutilezas teológicas
complicassem a mensagem de fé e caridade do homem de Nazaré.
Cristão, pois tem a Jesus como guia e modelo para a humanidade
[6].
Muita Paz,
Carlos A. I. Bernardo
Observações
[1] As referências sobre as reuniões
mediúnicas foram retiradas das “Obras Póstumas”.
As reuniões mencionadas neste post foram realizadas na casa do
Sr. Baudin e as médiuns eram suas duas filhas, Caroline e Julie.
Canuto Abreu, em sua obra “O Primeiro Livro dos Espíritos”,
informa que em agosto de 1855, época em que começaram
as reuniões, Caroline Baudin tinha 16 anos e sua irmã
Julie 14 anos.
[2] A pergunta feita ao espírito
Zéfiro foi “Há no mundo dos Espíritos algum
que seja meu gênio bom?”.
[3] “Tendo eu interrogado esse Espírito,
ele se deu a conhecer sobre um nome alegórico (eu soube depois,
por outros Espíritos, que fora o de um ilustre filósofo
da antiguidade)”. Allan Kardec, em trecho do item Manifestações
Espontâneas, no Cap. II – Manifestações Espíritas,
do livro Instruções Práticas sobre as Manifestações
Espíritas, incluído pela EDICEL no volume Iniciação
Espírita.
[4] Durante a Revolução
Francesa, além de desapropriações de propriedades
da Igreja e perseguições aos religiosos, ocorreram outras
ações que procuraram combater a influência do Cristianismo
na sociedade, foi até mesmo instituído um culto a razão
como religião laica. Vide por exemplo, os estudos de Bernard
Plangeron, “As Religiões Perseguidas” e a “Descristianização”,
na obra “A França Revolucionária”.
[5] Doutrina Filosófica sistematizada
por Augusto Comte em seu “Cours de Philosophie Positive”,
publicado em seis volumes, entre 1830 e 1842. “O Positivismo é,
pois, uma filosofia determinista que professa, de um lado, o experimentalismo
sistemático, e de outro considera anticientífico todo
estudo das causas finais.” (João Ribeiro Junior).
[6] vide questão 625 do Livro dos
Espíritos.
Bibliografia
Abreu, Silvino Canuto (trad.). O Primeiro Livro
dos Espíritos de Allan Kardec. São Paulo: Companhia Editora
Ismael, 1957.
Dias, Haroldo Dutra (trad.). O Novo
Testamento. Brasília: FEB, 2013.
Júnior, João Ribeiro.
Augusto Comte e o Positivismo. Campinas: Edicamp, 2003.
Kardec, Allan. Iniciação
Espírita (contendo três obras do Codificador). Traduções
de Joaquim da Silva Sampaio Lobo e Cairbar Schutel. Sobradinho-DF: EDICEL,
1995.
___. O Livro dos Espíritos.
Tradução de Evaldo Noleto Bezerra. Edição
comemorativa dos 150 anos. Brasília: FEB, 2007.
___. Obras Póstumas. Tradução
de Sylvia Mele Pereira da Silva e notas de J. Herculano Pires. Obras
Completas de Allak Kardec. São Paulo: EDICEL, 1971.
Krell, W (médium). Reflexos
da Vida Espiritual. Tradução de Maria Lucia Alcantara
de Carvalho. Rio de Janeiro: CELD, 2002.
Vovelle, Michel. A França Revolucionária.
Tradução de Denise Bottman. São Paulo: Ed. Brasiliense,
1989.
Fonte: http://lavenir.educacao.ws/index.php/2015/06/14/o-espirito-de-verdade-2/
Visitem o Blog do Autor : L´AVENIR - Anotações sobre a Filosofia
Espírita e sua História -
- http://lavenir.educacao.ws -
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