28/06/2017
O especificamente comunicacional na religião
e o estudo do espiritismo – Entrevista com Luiz Signates
Parte 1: Especificidade das ciências da comunicação
no estudo da religião
por João Damásio
Mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Goiás
(UFG)
Blog - "Mídia, Religião e Sociedade"
13 de junho de 2017
Prof. Dr. Luiz Antonio Signates Freitas
Esta entrevista é uma conversa entre
orientador e orientando sobre comunicação, religião
e espiritismo. Na oportunidade oferecida pelo “Mídia,
Religião e Sociedade”, o professor Dr. Luiz Signates,
docente dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação
da Universidade Federal de Goiás (UFG) e em Ciências
de Religião da Pontifícia Universidade Católica
de Goiás (PUC-GO), expôs seu pensamento sobre a especificidade
do objeto comunicacional no cotidiano e nas instituições
religiosas e sobre o estudo do espiritismo brasileiro no campo da
comunicação, dois pontos propostos pelo entrevistador,
Ms. João Damasio, seu ex-orientando de mestrado na UFG.
A entrevista está dividida em duas partes.
A primeira trata das ideias de Signates a respeito da especificidade
do objeto da comunicação no estudo da religião,
comentando sua tese doutoral sobre Habermas e adiantando ideias
de um futuro livro sobre epistemologia e o especificamente comunicacional.
A segunda parte é um debate aplicado dos problemas da comunicação
no estudo do espiritismo e do espiritualismo brasileiro.
"Mídia, Religião e Sociedade"
- Você pertence ao PPGCOM (UFG) e ao PPGCR (PUC-GO). Comunicação
e religião são ciências relativamente novas e tendem
a ser consideradas sob o critério da interdisciplinaridade, até
porque é muito comum nos referirmos a autores de diversas áreas
do conhecimento para afirmar o próprio objeto científico.
Onde é que as especificidades destas duas ciências convergem
em sua trajetória de vida e de academia?
Signates: De fato, o pertencimento
a esses dois programas de pesquisa e pós-graduação
me traz uma oportunidade ímpar de enlaçar os campos
dos estudos científicos da religião e da comunicação.
A convergência está justamente no conceito de comunicação
como “dialogicidade”. No campo da comunicação,
diz isso respeito à própria definição
do objeto; no da religiosidade, à possibilidade conflitiva
de interação simbólica das religiões e
dos religiosos entre si. Considero a religião como o espaço
mais profícuo de estudo da comunicação, por se
tratar de um meio cultural onde a comunicabilidade é testada
em seus limites, seja porque as religiões contemporâneas,
atormentadas pela midiatização da sociedade inteira,
dependem forte e crescentemente de sua capacidade comunicativa para
sobreviverem e se expandirem; seja porque, para se manterem como religiões,
isto é, para preservarem as identidades de que as religiões
são feitas, precisam assegurar a estabilidade possível
de suas dogmáticas, e isso significa realizar a incomunicabilidade
de suas estruturas dogmáticas fundamentais. Assim, a tensão
entre comunicabilidade e incomunicabilidade alcança seu limite
nos contextos religiosos, razão pela qual, a meu ver, é
a religião, e não a mídia, o melhor dos espaços
de pesquisa da comunicação.
MRS: Em que sentido a religião
pode ser considerada uma mídia?
Signates: Na medida em que se institucionalizam
sistemicamente, no sentido habermasiano da palavra, na forma das igrejas,
templos ou qualquer seja a denominação dos espaços
institucionalizados de exercício e manutenção
das dogmáticas e rituais, estabelecem-se como “instituições
de poder simbólico”, no sentido de Thompson (2001).
Assim, as religiões, como as mídias,
são instituições fortemente dependentes da capacidade
de produção e reprodução simbólica
do sentido para a vida, nas sociedades em que são instaladas.
Isso não é novo; na Idade Média, a Igreja Católica
cumpriu a mesma função e até hoje os murais e
vitrais das catedrais constituem relatos pedagógicos daquilo
que a religião quis inculcar nos fiéis, numa época
em que o analfabetismo e a vedação do acesso aos textos
sagrados era a regra geral.
Contudo, a noção de religião
como mídia tem limites. Diferente das religiões, as
mídias não produzem identidades culturais específicas,
vinculadas às suas institucionalidades. A ideia de audiência
apenas como metáfora poderia ser aplicada ao rebanho de fieis
de qualquer movimento religioso. Assim, aquilo que se compartilha,
que é o exercício do poder simbólico ou a produção
e reprodução de formas específicas de poder garantidas
pela capacidade de estabelecer vínculos de convencimento e
crença, deve ser analiticamente limitado pelo reconhecimento
de que religião e mídia operam tais sentidos de forma
diferenciada.
Em todo caso, parece, contudo, que as semelhanças
são suficientes para fazer as institucionalidades da mídia
e da religião compartilharem várias práticas,
como a midiatização da religião, que observamos
no mundo todo, especialmente nas correntes evangélicas neo-pentecostais
e no catolicismo carismático.
MRS: Como é que um estudo da
relação entre mídia e religião pode focar
o especificamente comunicacional e não se restringir a análises
sociológicas, seja da mídia ou da religião?
Signates: Justamente focando a pergunta-problema
no aspecto comunicacional da religião e da religiosidade. Não
se trata de abandonar as contribuições das demais áreas
científicas – até porque isso não é
possível – e sim fazer a indagação da comunicação,
do que é especificamente comunicacional na prática religiosa
pesquisada.
Nesse sentido, chamo a atenção para
dois aspectos que me parecem particularmente importantes. Primeiro:
o de que aquilo que funda um raciocínio científico qualquer
é a pergunta que se faz. Se o comunicacional não estiver
na dúvida ou no não-saber originalmente formulado para
a pesquisa, certamente não é a comunicação
o campo de que se trata a pesquisa – mesmo que haja formulações
próximas, como mídia, televisão, jornalismo etc.,
na composição do arranjo teórico ou na conformação
do corpus empírico da investigação.
O segundo aspecto é o caráter eminentemente
empírico que precisa ter esse tipo de pesquisa. Em outras palavras,
a emergência de um conceito de comunicação que
não seja subalterno de conceituações outras,
vinculadas a outros campos científicos, demanda um esforço
de percepção do novo nas transformações
simbólicas concretas das sociedades contemporâneas.
O que demanda por um “especificamente comunicacional”
não é simplesmente um desejo político do campo
por uma definição de sua identidade teórica própria,
mas algo muito mais relevante do que isso: é a conformação
das sociedades contemporâneas a partir de ritos de midiatização.
O comunicacional, especialmente após a emergência
e a popularização da internet, tornou-se a chave para
a explicação das relações sociais como
um todo. E não como uma questão de “novas tecnologias”,
simplesmente, e sim como um problema de vivência, sobrevivência
e convivência humanas. Eis porque se trata de uma experiência
mais ou menos generalizada da espécie humana nestes tempos,
que demanda pesquisa empírica consistente para fazer emergir
teorizações que lhes sejam consentâneas.
MRS: É possível estudar
a comunicabilidade em todas as formas religiosas? Ainda que o problema
do dogma esteja presente em todas elas, pode-se falar em ação
comunicativa no fundamentalismo?
Signates: Sim, claro, porquanto,
como eu afirmei antes, o estudo comunicacional da religião
é a pesquisa de uma tensão simbólica altamente
interessante: a das tendências, típicas de qualquer religião,
entre a dogmatização, que expressa o controle da identidade,
tarefa das institucionalidades, e a divulgação ou a
conversão religiosa, que garantem a presença social
relevante e o crescimento da quantidade de fiéis.
Mesmo os fundamentalistas convivem com essa tensão,
malgrado reconheçamos que, no caso deles, o vetor da dogmatização
pareça imperar sobre o da divulgação. Apesar
disso, nem eles ficam ausentes por completo desse segundo vetor, caracterizando-se
o fundamentalismo pela submissão deste ao primeiro, isto é,
preocupa-se com a divulgação do dogma, da segurança
doutrinária e dos eventuais riscos (no mundo sagrado ou no
profano) da perda dessa segurança.
Penso que esse raciocínio pode ser uma chave
heurística da comunicação para incidentes como
os atentados terroristas praticados por religiosos fundamentalistas
no mundo inteiro. Um atentado, como o que vitimou redatores do Charlie
Hebdo na França, não é outra coisa senão
uma medida midiática pela qual o fundamentalismo expressa sua
condição conflitiva com o mundo. Pouco importa aos fundamentalistas
que se matem essas ou aquelas pessoas, e sim que todos percebam isso
como uma ação ou reação deles a um estado
de coisas contra a qual eles absolutamente se colocam. Como no caso
do atentado contra as torres gêmeas, em New York, os aviões
não foram lançados contra os edifícios para se
matarem aquelas pessoas, e sim para que o mundo visse e percebesse
o movimento terrorista.
MRS: Em sua tese de doutorado (Signates,
2009) sobre a comunicação social em Habermas, há
um movimento claro de desenrijecer o par teórico sistema/mundo
da vida. Para isso, você adotou Lefebvre e flexibilizou as noções
de institucionalização, valorizando o cotidiano. É
possível ver comunicação para além do modo
de funcionamento das diferentes configurações das institucionalidades
religiosas? Ou melhor, quais as noções basilares para
olhar a comunicação no cotidiano religioso?
Signates: É preciso que se
perceba a teorização que busquei fazer, a partir de
Habermas (2012), como uma tensão dialética. Sistema
e mundo da vida são estruturas em conflito, mutuamente dependentes
no contexto das sociedades capitalistas contemporâneas. De um
lado, temos um Luhmann relido por Habermas, demonstrando que os sistemas
sociais são feitos de comunicação (os seres humanos
são externos ao sistema da sociedade; para Luhmann (1998) são
outros sistemas – os orgânicos –, para Habermas
são as redes comunicacionais do mundo da vida); de outro lado,
temos um Lefebvre (1968), repensado por mim, para observar como o
cotidiano institucionaliza a comunicação para torná-la
vetor de dominação e como a comunicação
ultrapassa o tempo todo esse vetor, restaurando/recriando a história,
a cultura, a sociabilidade.
A religião pode ser recortada nesse arranjo
teórico a partir da aplicação dessa dialética
à sua historicidade. Em geral, as religiões modernas
exsurgem de movimentos contestatórios ou proféticos
que, por alguma razão, não puderam ser assimilados pelas
institucionalidades tradicionais, e, nesse caso, observa-se como,
nas fraturas das estruturas sistêmicas, o mundo da vida religioso
cria e desenvolve sentidos novos, que, não assimilados, ganham
identidade própria.
Essa identidade, contudo, cedo clama por uma institucionalidade
que garanta sua perenidade, sua reprodução e, mais tarde,
sua segurança doutrinária, isto é, passa a se
proteger das inovações posteriores… O condicionamento
sistêmico acontece então, com o estabelecimento de ritos,
hierarquias, sacralidades específicas que restringem o discurso
e a prática dos novos fiéis e reencaminham a dogmatização,
até que novas rupturas aconteçam e tudo comece de novo.
O cristianismo tem milhares de denominações,
grandes e pequenas, por conta dessa prolífera forma de diferenciação,
urdida no conflito jamais resolvido entre as estruturas sistêmicas
em crise, desde o fim da Idade Média, e um mundo da vida de
vivências e experiências religiosas cada vez mais conformado
por relações comunicacionais, que insiste em produzir
bricolagens, diferenciações e contradições.
O estudo dessa comunicacionalidade cada vez mais complexa,
mas sempre conflitiva com as instituições religiosas,
da forma como acontece em cada contexto, é o ponto focal do
olhar da comunicação sobre a religião.
TEXTOS PARA APROFUNDAMENTO
HABERMAS, Jürgen. Teoria do agir comunicativo.
Vol. 1: Racionalidade da ação e racionalização
social. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.
LEFEBVRE, Henri. Critique de la vie quotidienne.
Vol. I. Paris : L’Arche, 1968.
LUHMANN, Niklas. Sistemas sociales: lineamentos para
uma teoria general. Barcelona: Anthropos, México: Universidad
Iberoamericana, Santafé de Bogotá: CEJA – Pontificia
Universidad Javeriana, 1998.
SIGNATES, Luiz. A sombra e o avesso da luz: Habermas
e a comunicação social. Goiânia: Kelps, 2009.
THOMPSON, John. Mídia e modernidade. Petrópolis:
Vozes, 2001.
SOBRE O ENTREVISTADO
Luiz Signates é professor associado I da Universidade Federal
de Goiás (UFG), junto ao Mestrado em Comunicação
e docente efetivo do Doutorado em Ciências da Religião
Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO).
Leciona também nos Cursos de Jornalismo de ambas as instituições.
É Pós-Doutor em Epistemologia da Comunicação
(Unisinos), Doutor em Ciências da Comunicação
(USP), Mestre em Comunicação (UnB), Especialista em
Políticas Públicas (UFG) e graduado em Comunicação
Social – Jornalismo (UFG). Fundador e membro das Academias de
Letras de Goiânia e de Aparecida de Goiânia, fundador
e Presidente do Centro de Soluções em Tecnologia e Educação
– CENTEDUC; e Sócio-Proprietário do Instituto
Signates Consultoria, Pesquisa e Editoração Ltda. Coordena
os Núcleos de Pesquisa em Comunicação, Cidadania
e Política (UFG) e Comunicação e Religiosidade
(UFG). É pesquisador nas áreas de Comunicação
e de Ciências da Religião. No campo científico
da comunicação, atua principalmente nas temáticas:
epistemologia e metodologia da pesquisa em comunicação,
comunicação e política, comunicação
e religiosidade, comunicação e cidadania, e comunicação
e teoria social crítica. Na área de ciências da
religião, dedica-se ao estudo do espiritualismo brasileiro,
com enfoques antropológico, sociológico e comunicacional.
SOBRE O ENTREVISTADOR
João Damasio da Silva Neto é mestre
em Comunicação (UFG), graduado em Jornalismo (Faculdade
Araguaia), técnico em Sistemas de Informação
(CEFET-Urutaí) e ator na Cia. Teatro Ser. Atualmente, é
jornalista na secretaria nacional da Comissão Pastoral da Terra
(CPT). Tem interesse em teoria e método da comunicação
e estuda na interface com a antropologia da religião, com foco
em espiritismo, urbanidade e mito.
Fonte: http://midiareligiaoesociedade.com.br/2017/06/13/o-especificamente-comunicacional-na-religiao-e-o-estudo-do-espiritismo-entrevista-com-luiz-signates-parte-1-especificidade-das-ciencias-da-comunicacao-no-estudo-da-religiao/
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