Zila van der
Meer Sanchez
- Doutora em Ciências pela Universidade Federal de São
Paulo (Unifesp). Pesquisadora do Centro Brasileiro de Informações
sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid).
Solange Aparecida Nappo
- Professora adjunta da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Pesquisadora do Centro Brasileiro de Informações sobre
Drogas Psicotrópicas (Cebrid).
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Resumo
Contexto: A religiosidade
e a espiritualidade vêm sendo claramente identificadas como fatores
protetores ao consumo de drogas em diversos níveis.
Objetivo: A presente revisão da literatura pretendeu
descrever os principais estudos científicos que tratam do papel
da religiosidade no tratamento e na prevenção do consumo
de drogas.
Método: As fontes citadas neste artigo de revisão
são indexadas nas bases de dados PubMed e Scielo, entre 1976
e 2006, tratando de questões relativas à religiosidade,
à espiritualidade e ao consumo de drogas.
Resultados: Estudos têm apontado para evidência
de que as pessoas que freqüentam regularmente um culto religioso,
ou que dão relevante importância à sua crença
religiosa, ou ainda que praticam, no cotidiano, as propostas da religião
professada, apresentam menores índices de consumo de drogas lícitas
e ilícitas. Além disso, os dependentes de drogas apresentam
melhores índices de recuperação quando seu tratamento
é permeado por uma abordagem espiritual, de qualquer origem,
quando comparados a dependentes que são tratados exclusivamente
por meio médico.
Conclusões: Devido ao forte papel de assistência
social das religiões no Brasil, a exploração deste
tema no contexto brasileiro seria de grande relevância para a
saúde pública.
Sanchez, Z.M.; Nappo, S.A. / Rev. Psiq. Clín. 34, supl 1; 73-81,
2007
Introdução
Diversos são os estudos científicos
que apontam a relevância da prática de uma religião
e da fé para a manutenção, assim como para a melhora
das condições de saúde (Moreira-Almeida et al.,
2006; Koenig et al., 2001). Já existe literatura científica
indexada, substancial e concreta, associando, positivamente, a religiosidade
ao bem-estar físico e mental do ser humano (George et al., 2002;
Miller e Thoresen, 2003).
Apesar de esses estudos terem enorme
dificuldade para estabelecer um padrão medidor da religiosidade,
ao longo dos últimos 30 anos dados quantitativos vêm apontando
para a relevância desta na prevenção do consumo
de drogas. As evidências apontam para a existência de uma
associação positiva entre o não-consumo de drogas
e os altos índices de religiosidade que, em particular, são
expressos pelas idas freqüentes à igreja e pela importância
dada à religião professada (Parfrey, 1976; Dalgalarrondo
et al., 2004).
Os estudos científicos publicados
em revistas indexadas apontam para o papel fundamental da religiosidade,
principalmente no tratamento de doenças crônicas e severas.
Os pacientes são beneficiados pela prática religiosa,
em especial nos períodos que estão sujeitos a mudanças
sociais e psicológicas estressantes oriundas das condições
geradas pela patologia (Koenig, 2003). Dentro desse perfil, encontram-se
os dependentes de drogas que, por serem portadores de patologia crônica,
vivenciam momentos estressantes e traumáticos ao longo do seu
processo de recuperação (Sanchez, 2006).
Booth e Martin (1998), analisando os
dados existentes na literatura científica até 1997, afirmaram
que se observa claramente uma relação inversa entre a
religiosidade e o uso de substâncias psicotrópicas, embora
não se possam descartar os diversos problemas derivados da eventual
mensuração dos índices de religiosidade, além
de um certo viés amostral de alguns desses estudos. Os autores
também apontam para um efeito positivo da religião na
recuperação dos dependentes, destacando o papel fundamental
desempenhado pela Igreja na área da prevenção e
do tratamento destes. Da mesma maneira, Koenig et al. (2001) afirmaram
haver, até o ano 2000, mais de 100 estudos interessantes no campo
da religião relacionados com o abuso de substâncias psicotrópicas.
A maioria desses estudos enfatizou a relação inversa da
religiosidade com o consumo de drogas, teorizando sobre os supostos
mecanismos de recusa das drogas quando em um cenário de contexto
religioso, baseados em dados obtidos por levantamentos epidemiológicos
com características estritamente quantitativas.
Vale destacar que os estudos dentro
do tema “religiosidade e drogas” tendem a enfocar mais o
papel da religiosidade para a prevenção primária
do consumo e, também, o da espiritualidade no que respeita ao
tratamento da dependência (Booth e Martin, 1998).
Os termos “religiosidade”
e “espiritualidade” costumam ser utilizados como sinônimos
nos estudos empíricos (Miller e Thoresen, 2003). No entanto,
existe um infindável debate epistemológico da utilização
desses conceitos. Para padronizar a informação, no presente
trabalho utilizou-se a conceituação de Sullivan (1993)
para a espiritualidade e a de Miller (1998) para a religiosidade. De
acordo com o primeiro, a espiritualidade é uma característica
única e individual que pode ou não incluir a crença
em um “Deus”, sendo aquela responsável pela ligação
do “eu” com o Universo e com os outros, a qual também
está além da religiosidade e da religião. Já
a religiosidade representa a crença e a prática dos fundamentos
propostos por uma religião (Miller, 1998).
Para o levantamento dos artigos citados
neste artigo de revisão, foi feita uma busca nas bases de dados
Medline (PubMed) e Scielo, procurando artigos, em inglês, português,
espanhol e francês, que tratassem de questões relativas
à religiosidade, à espiritualidade e ao consumo de drogas
psicotrópicas, entre 1976 e 2006, tendo-se utilizado as seguintes
palavras-chave: “religião”, “religiosidade”,
“espiritualidade”, “uso, abuso ou dependência
de drogas” e “drogas psicotrópicas”. Além
disso, também foram levantadas as teses de doutorado brasileiras,
indexadas pela Capes, que também refletissem estudos sobre o
tema.
As seções seguintes
apresentam a revisão dos dados já publicados na literatura
e que formam o corpo do conhecimento teórico do tema do presente
trabalho. Por questões didáticas, os achados foram divididos
em dois grandes grupos: Religiosidade e “epidemiologia”
do consumo de drogas e Religiosidade e “tratamentos” para
a recuperação dos dependentes de drogas.
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Fonte: http://www.hcnet.usp.br/ipq/revista
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