O espiritismo retirou da mediunidade todo o aparato místico
e sobrenatural que sempre a cercou desde a Antiguidade, dignificou
a mulher colocando-a lado a lado com o homem, atribuindo-lhe direitos
que sempre lhe foram negados e resgatou a dignidade dos animais, situando-os
em um processo evolutivo onde o princípio inteligente, “do
átomo ao arcanjo”, se elabora e se autoconstrói.
Na cultura ocidental os animais não têm transcendência,
não têm alma a ser salva ou condenada. Nunca tiveram
o direito à imortalidade, atributo exclusivo dos seres humanos.
De um lado a ciência, que rejeita as emoções e
a espiritualidade e de outro, a religião, que não aceita
a sua transcendência e nega aos animais o direito à vida
pós-morte.
Já para o espiritismo os animais possuem uma alma, um
princípio inteligente ou espiritual individualizado, que reencarna,
evolui, progride e traz em si mesmo, como todo princípio inteligente,
as potencialidades intelecto-morais e psíquicas vindouras.
O espiritismo não aceita a metempsicose
— a reencarnação dos espíritos em corpos
animais — mas considera que há um fio evolutivo de continuidade
entre o reino animal e o hominal, chamado pelo cientista espírita
francês Gabriel Delanne de Evolução Anímica.
Gustave Geley, pensador metapsíquico,
simpatizante do Espiritismo, escreveu uma obra magistral, Do Inconsciente
ao Consciente, onde chama a alma dos animais de Dinamopsiquismo
Essencial, que entra em um processo evolutivo que ele denominou de
Evolução Dínamo-Genética, conceito que
o sociólogo espírita portenho Manuel S. Porteiro aplicou
na compreensão dos processos históricos à luz
do espiritismo.
Para o espiritismo, “os animais, também compostos
de matéria inerte e igualmente dotados de vitalidade, possuem,
além disso, uma espécie de inteligência instintiva,
limitada, e a consciência de sua existência e
de suas individualidades”. (O
Livro dos Espíritos, questão 585).
Segundo a filosofia espírita, a evolução humana
se inicia no nível da simplicidade moral e da ignorância
intelectual, mas é antecedida por estágios evolutivos
nos reinos inferiores da criação, do mineral às
plantas, das plantas aos animais e dos animais ao reino hominal. Como
dizia Léon Denis, o espírito dorme no mineral, sonha
no vegetal, se agita no animal e acorda no reino hominal.
“Querem uns que o homem seja um animal e outros que o animal
seja um homem.” Animal é animal, homem é
homem. “Os animais não são simples máquinas,
como supondes. Contudo, a liberdade de ação, de que
desfrutam, é limitada pelas suas necessidades e não
se pode comparar à do homem”. É o que vemos
em O Livro dos Espíritos.
606. Donde tiram os animais o princípio
inteligente que constitui a alma de natureza especial de que são
dotados?
“Do elemento inteligente universal.”
a) - Então, emanam de um único princípio
a inteligência do homem e a dos animais?
“Sem dúvida alguma, porém, no homem, passou
por uma elaboração que a coloca acima da que existe
no animal.”
607. Dissestes (190) que o estado da alma do homem, na sua origem,
corresponde ao estado da infância na vida corporal, que sua
inteligência apenas desabrocha e se ensaia para a vida. Onde
passa o Espírito essa primeira fase do seu desenvolvimento?
“Numa série de existências que precedem o
período a que chamais Humanidade.”
600. Sobrevivendo ao corpo em que habitou,
a alma do animal vem a achar-se, depois da morte, num estado de
erraticidade, como a do homem?
“Fica numa espécie de erraticidade, pois que não
mais se acha unida ao corpo, mas não é um Espírito
errante. O Espírito errante é um ser que
pensa e obra por sua livre vontade. De idêntica faculdade
não dispõe o dos animais. A consciência de si
mesmo é o que constitui o principal atributo do Espírito.
O do animal, depois da morte, é classificado pelos Espíritos
a quem incumbe essa tarefa e utilizado quase imediatamente. Não
lhe é dado tempo de entrar em relação com outras
criaturas.”
O cientista espírita italiano,
Ernesto Bozzano, de forma inédita, pesquisou dezenas de casos
de materializações de animais, demonstrando que a alma
desses seres sobrevive ao corpo e desfruta, momentaneamente, de uma
quase erraticidade. Esse quase significa um tempo bem inferior ao
dos espíritos, dotados de livre-arbítrio, com plena
consciência de si mesmos e com um fator diferenciado em seus
processos mentais, o que o espírito André Luiz denominou
de pensamento contínuo. O que nos leva a concluir que no mundo
extrafísico não há manadas de elefantes, matilhas
de cães ou uma alcatéia de lobos.
O princípio inteligente encarnado nos animais traz em si todas
as potencialidades morais e intelectuais. Tem, em estado rudimentar,
conforme o nível de progresso que haja realizado, a afetividade,
a inteligência e a moralidade em estado de gérmen, tanto
quanto o psiquismo desenvolvido de acordo com a necessidade. Quem
convive com eles sabe que demonstram, ainda que de forma rudimentar,
emoções que seriam próprias dos humanos. Expressam
ciúme, alegria, tristeza, medo e uma série de emoções
conforme o seu nível evolutivo.
A ciência admite que os animais têm uma inteligência
rudimentar, também conforme as suas necessidades. Mas rejeita,
ainda, a idéia de que possuam emoções. Há
um preconceito científico, paradigmático, em relação
a essa questão. A acusação de antropomorfismo
é inevitável em pesquisas que objetivem a evidência
de que eles possuam emoções semelhantes às humanas.
Portanto, a existência de um psiquismo, de uma transcendência
espiritual, de uma alma nos animais, ainda está muito longe
de ser admitida pela ciência.
Pesquisas recentes sobre a existência de emoções
nos animais tentam superar o preconceito acadêmico do antropomorfismo.
Essas pesquisas apontam para um caminho que possivelmente venha a
admitir a existência de espiritualidade nos animais. Espiritualidade
significa a posse de uma dimensão espiritual que sobreviva
e transcenda à matéria, que tenha um caráter
espiritual, relativo ao espírito, à existência
de um princípio espiritual. Isso a ciência rejeita de
forma radical.
Essa visão transcendental que o espiritismo oferece na compreensão
da vida animal tem um profundo sentido ético que deverá
ser aplicado não somente no convívio com essas belas
criaturas, no grande ecossistema terrestre, mas também na legislação.
Documentos como a Declaração Universal dos Direitos
do Animal, proclamada na Unesco em 15 de outubro de 1978,
apontam para um comportamento que dignifica os animais, atribuindo-lhes
direitos que sempre foram negados. O nível evolutivo de uma
civilização também se mede pelo tratamento dado
a esses bichinhos que nos encantam, nos seduzem e que contribuem para
tornar a nossa vida mais bela.