Ao regularmos a lente analítica sobre
a dinâmica do espiritismo se introduzindo, se estruturando e
se expandindo em solo brasileiro, salta-nos aos olhos o fato de que
por detrás das diversas instituições espíritas
nascentes e por detrás das diversas correntes espíritas
se proliferando, existiu na retaguarda desse adensamento, ao mesmo
tempo institucional e intelectual, um batalhão de trabalhadores
com qualificações diversas, logo, com funções
e pesos sociais também diversos. Defini-los somente como componentes
do segmento religioso espírita talvez esconda o fato de haver
uma série de diferenciações entre eles –
às vezes tênues, outras vezes nem tanto – em termos
de atributos, competências e habilidades.
A partir desse enquadramento, três questões se desdobram:
(1) como e (2) por quem são articulados os sistemas de crenças
espíritas e (3) quais são as fontes de autoridade em
jogo nesse processo? Responder a essas questões possivelmente
nos ajude a melhor compreender não só o processo de
produção da crença, mas, sobretudo, a particularidade
do espiritismo kardecista, tanto mais porque tal segmento religioso
tem como característica a ausência de uma cúpula
ou de um conjunto de pessoas e instituições detentoras
do poder legítimo, portanto socialmente reconhecido, de ditar
o que é ou não espiritismo.