Megaestudo analisa impacto da
prática da gratidão em 34 países
Agência
FAPESP* – Frances Jones | Agência FAPESP
– Práticas para
induzir o sentimento de gratidão – como enviar uma mensagem
de apreço a alguém ou fazer uma lista de itens pelos
quais se é grato – traz benefícios reais para
o humor e as relações sociais. Entre os efeitos positivos
estão o aumento do otimismo e a redução do sentimento
de inveja. Contudo, o impacto varia significativamente dependendo
da cultura do país e do tipo de intervenção adotada.
É o que revela um estudo global com mais de 10 mil participantes
em 34 países, publicado
em maio na revista científica PNAS, da Academia de Ciências
dos Estados Unidos. No Brasil, o projeto contou com a participação
de 598 voluntários, que responderam às propostas de
intervenção via ferramenta on-line.
Das seis estratégias testadas
nos diversos países, a que mais teve efeito foi a que sugeria
que a pessoa escrevesse e enviasse uma mensagem para alguém
a quem era grata. Por outro lado, a intervenção que
apresentou o menor impacto foi a que costuma ser mais popular: simplesmente
fazer uma lista de cinco coisas pelas quais se é grato. As
outras propostas foram: escrever uma carta a uma pessoa a quem se
é grato, mas não enviar; fazer a chamada reflexão
de Naikan (escrever sobre três coisas ocorridas na semana anterior,
refletindo sobre o que você recebeu, o que você deu e
o que mais você poderia fazer para ajudar); pensar e escrever
sobre cinco coisas ocorridas no dia anterior sobre as quais se é
grato e, em seguida, imaginar como seria a sua vida sem isso; escrever
uma carta a Deus, a uma força superior ou a algum tipo de entidade
espiritual reconhecendo o que lhe foi dado.
“Um dos principais resultados
a que chegamos é que, no geral, todas as intervenções
propostas funcionaram”, comenta o psicólogo Paulo Sérgio
Boggio, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie e coordenador
do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Neurociência
Social e Afetiva (INCT-Sani).
Segundo ele, porém, o maior
efeito se deu quando a conexão social explicitamente entrou
em jogo.
“A questão da conexão
social é central.”
Boggio e sua antiga orientanda Beatriz
Bezerra de Souza, que teve apoio da FAPESP no mestrado, são
os dois coautores brasileiros do artigo. Ao todo, 36 pesquisadores
assinam o paper, entre eles o psicólogo experimental
Michael McCullough, professor da Universidade da Califórnia
em San Diego, nos Estados Unidos. O trabalho foi coordenado pelo pesquisador
Nicholas Coles, da Universidade da Flórida.
De acordo com Boggio, todas as seis
intervenções para induzir gratidão produziram
mais impacto do que as três práticas de controle, que
consistiam em apenas responder a um questionário; escrever
genericamente sobre um evento passado; ou escrever sobre eventos recentes
interessantes.
“Para a intervenção
ser melhor, produzir mais efeito, ela tem de ser mais do que simplesmente
pensar em uma coisa boa”, diz.
Diferenças culturais
Os autores verificaram que as intervenções
de gratidão levaram a melhoras imediatas e mensuráveis
de estados psicológicos ligados ao chamado florescimento humano.
Foram observados um aumento no afeto positivo e no sentimento de reciprocidade
social, uma redução no afeto negativo, uma maior satisfação
com a vida e otimismo e uma redução no sentimento de
inveja.
Embora tenha havido variação
relacionada às diferentes intervenções, a oscilação
maior se deu na comparação entre os países. Enquanto
se registrou um impacto maior das práticas no México,
na Noruega o efeito foi quase nulo. O Brasil, de acordo com o estudo,
ficou no meio da escala. Rigidez ou flexibilidade cultural, distância
do poder – conceito que reflete o quanto uma sociedade aceita
e naturaliza a desigualdade hierárquica e social – e
religiosidade da população interferiram no grau de impacto
das medidas propostas. Alguns efeitos das práticas de gratidão
também se mostraram mais universais que outros. Sentir-se mais
positivo, por exemplo, foi um efeito quase universal das intervenções.
De acordo com Boggio, o estudo se
insere em uma discussão sobre por que, do ponto de vista evolutivo,
as pessoas sentem gratidão.
“A gratidão é
uma emoção com componente social muito forte. Sentir-se
grato aumenta a probabilidade de você ajudar outras pessoas
– e não necessariamente a pessoa que te ajudou”,
afirma.
“Isso gera uma espiral de
ajuda entre as pessoas, não obrigatoriamente porque há
uma expectativa de ganho direto.”
Um dos efeitos medidos no estudo foi
o do sentimento de reciprocidade.
“O nosso ‘obrigado’
pode ser entendido de várias formas. Uma delas é que
sou obrigado a ser recíproco, a fazer o bem para o outro,
a devolver”, comenta o pesquisador.
“Tanto que há pessoas
que, quando recebem algo pelo qual ficam muito gratas, vivenciam
a experiência positiva e, ao mesmo tempo, a sensação
de estar em dívida.”
De acordo com Boggio, a gratidão
ajuda a formar laços e conexões.
Agora os pesquisadores buscam entender
se a grande variação nas respostas entre os países
está ligada às características locais das normas
sociais ou se é preciso ainda encontrar uma forma de induzir
gratidão por meio de intervenções que funcionem
para determinado país. “Como podemos induzir gratidão
na Noruega? E no Japão?”, afirma, citando alguns dos
países onde se registrou pouco impacto das práticas.
Boggio ressalta que esse grande estudo
feito com a colaboração de diversos países é
importante para buscar escapar da concentração de dados
provenientes dos ditos países ocidentais, em geral dos Estados
Unidos. “Mais ou menos 50% dos estudos de gratidão têm
origem norte-americana. A ideia foi fugir um pouco disso e aplicar
o teste em países com uma grande variação cultural.”
Todos os dados brutos da pesquisa
podem ser encontrados no site da Open
Science Foundation.
O artigo A multinational megastudy
of the effects of gratitude practices on subjective well-being pode
ser lido em: pnas.org/doi/10.1073/pnas.2537789123.