por Daniel Guanaes
Folha de SP
Harvard debate
como integrar fé ao tratamento de saúde mental
Evento reuniu 180 profissionais de 20
países para discutir como crenças atravessam o cuidado
clínico
Maioria dos profissionais não recebeu treinamento para integrar
espiritualidade ao tratamento
Daniel Guanaes
PhD em teologia pela Universidade de Aberdeen,
é pastor presbiteriano, psicólogo e autor do livro “Cuidar
de Si”
Durante muito tempo, religião e saúde
mental foram tratadas como mundos incompatíveis. Mas o que
pensar quando pesquisadores de Harvard e representantes das principais
associações de psiquiatria e psicologia do mundo começam
a afirmar o contrário?
A pergunta me acompanhou durante o 6º Fórum
Global sobre Espiritualidade, Religião e Saúde Mental,
realizado nos dias 14 e 15 de maio na Faculdade de Medicina da Universidade
de Harvard. O encontro foi organizado pela Associação
Mundial de Psiquiatria e pela Associação Americana de
Psicologia para discutir como crenças, busca por sentido e
experiências espirituais atravessam o sofrimento humano e o
cuidado clínico.
Uma frase dita no painel de abertura sintetizou o
espírito do encontro: se antigamente era considerado antiético
e anticientífico abordar religião e espiritualidade
no tratamento da saúde mental, hoje é antiético
e anticientífico ignorá-las. Quem disse isso foi Alexander
Moreira-Almeida, psiquiatra, coordenador do Nupes (Núcleo de
Pesquisa em Espiritualidade e Saúde), da UFJF (Universidade
Federal de Juiz de Fora), e vencedor do Oskar Pfister Award em 2025,
principal prêmio internacional na interface da psiquiatria,
espiritualidade e religião.

Não pude evitar lembrar da minha faculdade
de psicologia, no início dos anos 2000, quando declarar-me
religioso já foi motivo de piada. Certa vez, uma professora,
sabendo da minha fé, tentou me convencer em sala de aula de
que a carreira que eu escolhi era incompatível com a minha
crença. Embora pretendesse demonstrar intelectualidade, seu
motivo não era outro que não o próprio preconceito.
Duas décadas depois, 180 psiquiatras, psicólogos,
teólogos e capelães de 20 países estavam reunidos,
indo na contramão da experiência que eu vivi. Segundo
os organizadores, o evento recebeu mais de 170 propostas de apresentação,
e reuniu 71 palestras e painéis. Entre as plenárias,
nomes como David H. Rosmarin, professor da Faculdade de Medicina de
Harvard, e Alan Fung, presidente da seção de Religião,
Espiritualidade e Psiquiatria da Associação Mundial
de Psiquiatria.
Celebro o feito, mas penso que o tema ainda não
está pacificado entre os profissionais de saúde. Embora,
na academia, o debate já não gire em torno de "se"
a espiritualidade interfere na saúde mental, mas "como"
ela interfere, na prática clínica a maioria dos profissionais
não recebeu treinamento para integrar religiosidade e espiritualidade
ao cuidado de maneira ética e baseada em evidências.
Segundo Fung, um estudo publicado em 2003 no Joint Commission Journal
on Quality and Safety mostrou que, entre 1,7 milhão de pacientes
internados nos Estados Unidos, necessidades emocionais e espirituais
apareciam como a segunda maior prioridade. Para os que creem, a fé
está associada a melhores indicadores de saúde mental,
especialmente em áreas como depressão, abuso de substâncias,
prevenção do suicídio e resiliência. A
pesquisa também demonstrou forte relação entre
o cuidado dessas necessidades e a satisfação geral com
o tratamento.
Ouço relatos de pessoas que trocaram de médicos e psicólogos
porque tiveram a sua fé desrespeitada. Tenho pacientes que
já receberam conselhos de profissionais para fazerem coisas
que contrariam a sua moral —como iniciar um relacionamento extraconjugal
para superar uma crise.
Qual é a diferença entre o profissional
de saúde mental que transgride a ética porque tenta
catequizar o paciente com a sua própria religião e o
que transgride porque tenta desconstruir a crença de quem está
sob os seus cuidados?
Houve um tempo em que a religião se colocou
como tutora da ciência. Depois, veio o período em que
ciência e religião passaram a ser tratadas como inimigas
naturais. O que o 6º fórum de religião, espiritualidade
e saúde mental sugeriu é que, no cuidado humano, elas
podem deixar de disputar autoridade para colaborar na promoção
de saúde.