Igrejas combatem 'papinho furado' de silenciar
sobre violência doméstica

por Anna Virginia Balloussier / Folha de SP
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Igrejas
combatem 'papinho furado' de silenciar sobre violência doméstica
Orar e perdoar parceiro violento é
uma das práticas pastorais postas em xeque
Evangélicas estão entre o grupo demográfico
que mais sofre agressão, diz pesquisa
Quando a bispa Isa Reis se disse farta "desse
papinho furado", muitos evangélicos sabiam do que ela
estava falando. Mas poucos diziam em voz alta.
O tema é familiar a muitos
irmãos de fé: como as igrejas muitas vezes se calam
ante agressões cometidas por atuais e ex-parceiros contra as
fiéis. "Se falar, vai escandalizar", diz Reis em
pregação viralizada em redes sociais cristãs.
"Escandalizar quem? Quem fez, a vítima nunca."
Mulheres são maioria no evangelicalismo brasileiro. E esse
grupo demográfico está entre os maiores alvos de violência
doméstica no país. Ainda assim, o tema ainda é
assunto proibido em muitos púlpitos.
Na prática, isso se traduz
em silêncio, aconselhamentos privados que priorizam a preservação
do casamento e uma pressão pelo perdão àquele
que a machucou.
O paradoxo está dado: templos
cheios de mulheres que sustentam a vida comunitária, mas encontram
resistência quando tentam nomear o abuso que sofrem.
"A maioria reconhece no pastor
uma figura de autoridade e tenta pôr em prática os
conselhos recebidos, encarando o desafio de se submeter ao companheiro,
ser mais ‘mansa’, dedicar-se mais a orações",
diz Marília de Camargo César, autora de "O Grito
de Eva - Violência Doméstica nos Lares Cristãos".
A recomendação para
não procurar a Justiça parte inclusive de pastoras,
"sob o argumento bíblico de que a mulher ganha o marido
com sua boa conduta, e seu exemplo de fé acabará levando
o agressor aos pés da cruz", diz César. Está
lá, afinal, no Novo Testamento: "Mulheres, sujeitem-se
a seus maridos, a fim de que, se alguns deles não obedecem
à palavra, sejam ganhos sem palavras, pelo procedimento de
sua mulher, observando a conduta honesta e respeitosa de vocês".
Reis, a bispa que verbalizou o dever
de não se calar nesses casos, conta que uma amiga delegada
não se dá ao trabalho de trocar de roupa após
voltar do culto dominical. Sabe que precisará correr para a
delegacia a qualquer instante. "Certamente tem algumas ligações,
porque alguma irmã apanhou depois que chegou em casa."

A bispa diz que as crentes são o grupo mais vulnerável
a ataques dos companheiros. Os números a corroboram.
São as evangélicas,
segundo dados levantados pelo Fórum Brasileiro de Segurança
Pública em parceria com o Datafolha, que mais se veem na condição
de vítima de violência de gênero. Ao longo da vida,
42,7% delas dizem ter sofrido algum tipo de agressão do parceiro
ou de um ex.
Entre fevereiro de 2024 e fevereiro
de 2025, escopo da sondagem, 39% relatam ter passado por alguma situação
de violência. E metade das evangélicas relata ter vivenciado
formas de controle excessivo nos relacionamentos amorosos, como checagem
de celular ou impedimento de trabalhar e estudar.
O pastor Yago Martins, do canal Dois Dedos de
Teologia, lançou "Igrejas que Calam Mulheres" para
tratar do tema.
"Há
alguma resistência a ele em certos ambientes cristãos,
onde se entende que conflitos assim deveriam ser tratados dentro
da família e da igreja, por meio de aconselhamento pastoral
e disciplina espiritual", diz.
Ainda que permaneça expressiva,
essa abordagem tem encolhido, segundo Martins. Cresce a parcela de
líderes que entendem a violência doméstica como
crime aos olhos da justiça divina, mas também da humana.
"Além do acompanhamento espiritual, espera-se que o pastor
encaminhe o caso às autoridades competentes, sob risco de acabar
encobrindo um ato criminoso."
Para Martins, há risco também
de uma linha cruzada ideológica: a pauta é tida como
progressista por muitos no segmento, e lideranças conservadoras
podem ter dificuldade em lidar com a questão por temerem serem
enquadradas à esquerda.
O problema não é só
que "muitas mulheres foram ensinadas a naturalizar o sofrimento
no casamento como parte da missão conjugal", diz a teóloga
Valéria Vilhena, fundadora do coletivo Evangélicas pela
Igualdade de Gênero.
Os laços comunitários
que a igreja proporciona servem como rede de proteção,
mas podem ter o efeito colateral de inibir denúncias.
"Romper com o agressor pode
significar também romper com a comunidade, enfrentar julgamento
moral e isolamento." Melhor aguentar calada, muitas pensam.
A preferência de Gislaine por
omitir seu sobrenome diz muito sobre como o tópico ainda é
tabu nesse círculo cristão. Ela conta que, casada por
mais de 20 anos, demorou para se ver como vítima de violência
psicológica.
O ex, diz, é o tipo de homem
que humilha e usa palavras que anulam a autoestima. Não batia,
mas usava outros recursos violentos para controlá-la, inclusive
patrimonial, que é mantê-la à sua mercê
por amarras financeiras. "Ele se sentia meu dono. No divórcio
ficou com quase tudo o que tínhamos."
Gislaine procurou o pastor para relatar
seu cansaço com a relação.
"Ele leu as passagens bíblicas
que falam de submissão [ao marido], que o divorciado perde
o reino dos céus."
Ela já sabia que o pastor não
havia apoiado outras mulheres em situação parecida.
Uma, por exemplo, que apanhava em casa.
"Ele foi favorável ao
homem. Sugeria que a esposa tem que orar pelo marido."
Rachel, outra
que não quer ser identificada pelo sobrenome, ganhou um olho
roxo no dia em que o então companheiro perdeu o emprego. "Ele
estava nervoso e descontou em mim. Eu estava com nosso filho no colo,
ele puxou briga porque não queria macarrão, queria carne
no jantar."
A reação do seu pastor
foi outra.
"Ele disse que perdoar meu
marido agradaria a Deus. Mas perdoar não era a mesma coisa
que continuar junto. Aconselhou que eu fosse a uma Delegacia da
Mulher, e eu fui."
O desembargador William Douglas coordenou
a produção de uma cartilha justamente para orientar
líderes religiosos sobre a violência doméstica.
O abuso é descrito como pecado
grave que não deve ser relativizado. Mas há barreiras,
como o sigilo pastoral. Legalmente, o pastor não está
entre os profissionais obrigados a denunciar uma agressão caso
tome conhecimento dela.
É preciso ponderar, segundo
o documento, que há uma confiança entre o líder
e a pessoa atendida. Se ela for quebrada, "isso pode atrapalhar
a liberdade de outras ovelhas se abrirem em momentos de aconselhamento".
Ele não poderia, portanto,
ir às autoridades por conta própria. A vítima
precisa querer. Seu papel seria informar caminhos disponíveis,
como telefones de emergência e delegacias. Também deve
alertar que a falta de medidas "que interrompam as agressões
favorece o aumento da sua quantidade e gravidade".
O pastor que pregava na igreja de
Gislaine não seguiu a diretriz do tipo, e ela acabou saindo
de casa. "Levei meus pertences pessoais, o carro que eu ainda
estava pagando, uma mesa com seis cadeiras, um fogão."
E foi recomeçar a vida.
Ela, que na infância apanhava
muito da mãe, hoje diz enxergar que o casamento só a
"mantinha nesse lugar" que ela "já estava acostumada".
Alvo fácil. "Quando um homem como meu ex se envolve com
uma mulher que nem autoestima tinha, fica fácil mantê-la
refém. Eu nem sabia ser feliz."
Quando mais precisou, Gislaine não
pôde contar com sua igreja. "É um ambiente machista,
que estimula o homem que domina a mulher. Se a gente coloca o basta,
é vista como descrente, louca. Tem que ficar solteira, tem
que pagar o preço."
É o tal do "papinho furado"
que a bispa Isa diz que precisa acabar, reflexão que vem se
espalhando pelas igrejas. Orar importa, mas não pode ficar
só nisso diante da violência doméstica, ela prega.
"A mulher tá caída e silenciada, não tem
mais ninguém para proteger. Por quê? Porque agora ela
tá morta."