19/11/2020
A fé busca o poder - Dois mil anos de religião
e política
RESUMO
Das origens do cristianismo ao fundamentalismo religioso dos
nossos dias, três livros examinam a construção
do poder político pela igreja. Do imperador romano Constantino
ao ceticismo iluminista, o cristianismo buscou expandir seu
poder e, recentemente, trazer a fé de volta para o centro
da agenda política internacional.
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O fundamentalismo decorre de uma confusão entre
os campos da racionalidade e da mitologia que não existia
antes do século 18, quando a ciência passou a dar
as respostas mais afiadas às dúvidas do homem
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por OSCAR PILAGALLO
A INTERSEÇÃO ENTRE AS ESFERAS DA FÉ E DO PODER,
em desafio ao modelo predominante do Estado laico que ergueu um muro
de sensatez entre religião e política, tem criado áreas
de turbulência inimagináveis décadas atrás,
quando se chegou a dar como certa a prevalência da racionalidade
sobre o misticismo.
Às vezes, essa sobreposição de secularismo e espiritualidade
se dá apenas em retrospecto, através da lente de historiadores
que procuram no passado paradigmas que reforcem suas opções
ideológicas.
É o caso de Karl Kautsky (1854-1938), socialista que, em "A
Origem do Cristianismo" [Civilização
Brasileira, trad. de Luiz Alberto Moniz Bandeira, 560 págs.,
R$ 69,90], busca nas primitivas comunidades judaicas um precursor do
comunismo. O argumento é centrado na interpretação
de que os essênios, povo a que pertenceu Jesus, praticavam o que
ele denomina de comunismo de consumo, sistema que desconhecia o conceito
de posse individual.
Kautsky retrata um Jesus impregnado dessa noção coletivista,
rebelde, pregador da insurreição da Palestina contra o
domínio romano, crucificado como criminoso político. Esse
rastilho inicial, porém, logo se apagaria, lamenta o autor, transformando
o cristianismo numa seita submissa e servil que, três séculos
mais tarde, seria incorporada como religião oficial pelos imperadores
romanos.
Amigo de Karl Marx (1818-83), de quem editou manuscritos sobre a teoria
da mais-valia, e companheiro de Vladimir Lênin (1870-1924) até
romper com o líder da revolução bolchevique por
sacrificar a democracia na implantação do socialismo na
Rússia, Kautsky se interessa não pelo que vê como
deformação posterior do cristianismo, mas sim pelo aspecto
revolucionário que se perdeu com o tempo. O livro, escrito em
1908, é datado. No início do século 20, o autor
queria demonstrar que a social-democracia não seria vítima
das mesmas distorções do cristianismo oficial. Era uma
previsão que, além de não se concretizar (os social-democratas
também logo perderiam o caráter rebelde original), servia
menos ao rigor histórico do que à propaganda política,
ao buscar um paralelismo enviesado.
A obra não abre espaço para milagres, espiritualidade,
transcendência. Jesus "só pode ser historicamente
compreendido e racionalmente explicado fora da fé", afirma
na introdução o tradutor Luiz Alberto Moniz Bandeira.
São raros os governantes que, imbuídos de fervor religioso,
exercem o poder com complacência em relação aos
que não compartilham suas convicções. Um deles
foi Constantino (280-337), o grande construtor do cristianismo retratado
por Paul Veyne em "Quando Nosso Mundo se Tornou Cristão"
[Civilização Brasileira, trad. de Marcos de Castro, 288
págs., R$ 37,90].
Ao contrário de Jesus, ele pode ser explicado "dentro da
fé". O poderoso imperador romano tem a biografia marcada
por forte tempero místico. Na véspera de uma batalha decisiva
em Roma, lhe é anunciado, em sonho, que a conversão ao
cristianismo lhe garantirá a vitória. Criado no paganismo,
passa a aceitar publicamente o Deus dos cristãos, esmaga o inimigo
e faz uma entrada triunfal na cidade em 29 de outubro de 312, "a
data-limite entre a Antiguidade pagã e a época cristã".
Não há como exagerar o papel de Constantino. Sem ele,
diz Veyne, "o cristianismo teria permanecido uma seita de vanguarda".
Na época, a religião que se tornaria dominante em algumas
gerações atraía, no máximo, 10% da população
do Império Romano.
O que teria levado Constantino a se converter? Historiadores munidos
de instrumentos marxistas de análise creditam sua decisão
a um cálculo político. Veyne admite que a explicação
é tentadora: regimes políticos procuram a legitimação,
que é frequentemente oferecida pela religião. Sendo o
cristianismo monoteísta e universalista, maior a cobertura ideológica
para o Império. Ou seja, ao se converter, Constantino teria buscado
no cristianismo bases metafísicas para a unidade e a estabilidade
de seu poder.
A explicação pode ser tentadora, mas, para Veyne, não
se sustenta. Ela revelaria a dificuldade de se aceitar que as crenças
possam "formar um domínio particular da realidade humana".
Políticas religiosas, diz ele, nem sempre ocultam funções
ideológicas. Especializado em Roma antiga, o historiador francês
se recusa a entrar no mérito da "razão profunda"
da decisão do imperador. Fala em "boa fé" e
"convicção sincera e desinteressada", mas não
de maneira que tais palavras soem ingênuas, pois atribui ao imperador
uma "piedade antropocêntrica", em que o fiel deposita
suas esperanças pessoais em Deus.
Argumenta ainda que as vantagens da conversão embutem uma falsa
questão. O povo o obedecia porque ele era um imperador, e não
porque, numa terra de pagãos, acreditava num único Deus.
Afinal, aquele "cérebro político não buscava
aprovação e apoio de uma minoria cristã desprovida
de influência, sem importância política e detestada
pela maioria".
Constantino não impôs o cristianismo à sociedade,
como tentariam fazer, séculos mais tarde, os promotores das Cruzadas
e da Inquisição. Em seu tempo, desde que os cristãos
deixaram de ser perseguidos, a religião era livre. O imperador,
é verdade, não perdia oportunidade de exercer o proselitismo
que é próprio dessa religião. Construía
templos cristãos e concedia benefícios ao exercício
da nova fé. O mundo aos poucos se cristianizou, mas não
porque alguém fosse obrigado a rezar por sua cartilha.
Veyne apresenta Constantino como um "profeta armado", um "revolucionário"
que protagonizou uma das maiores guinadas da humanidade, mas sobretudo
como um moderado. Apesar da fé exacerbada dos convertidos, não
era fanático. Se vivesse hoje, poderia ser descrito como tolerante,
sobretudo em contraste com o atual fundamentalismo.
Esse, sim, está na raiz da instabilidade política. O fundamentalismo,
diz Karen Armstrong no livro "Em Nome de Deus"
[Companhia das Letras, trad. de Hildegard Feist, 584 págs., R$
29,50], relançado em edição de bolso, decorre de
uma confusão entre os campos da racionalidade e da mitologia
que não existia antes do século 18, quando a ciência
passou a dar as respostas mais afiadas às dúvidas do homem.
Ela trata do fundamentalismo islâmico (no Irã e no Egito),
judeu (em Israel) e protestante (nos EUA). Ex-freira, ex-crítica
ferrenha do catolicismo, estudiosa do islamismo, ela é uma das
vozes mais ouvidas sobre o assunto. Embora o livro seja anterior ao
11 de Setembro, suas conclusões permanecem intactas.
O fundamentalismo, afirma a autora, ao deixar de lado os ensinamentos
da compaixão, cultiva uma "teologia de fúria, ressentimento
e vingança", e é por essa via que recoloca a fé
na agenda internacional.
Como chegamos a esse ponto? Armstrong explica: "Os fundamentalistas
transformaram o 'mythos' de sua religião em 'logos', fosse insistindo
na verdade científica de seus dogmas, fosse convertendo sua complexa
mitologia numa compacta ideologia".
Apesar da lógica, o surgimento do fundamentalismo surpreendeu.
A autora nota que "em meados do século 20 acreditava-se
que o secularismo era uma tendência irreversível e que
nunca mais a fé desempenharia papel importante nos acontecimentos
mundiais". Mais racionais, os homens restringiriam a religião
ao âmbito privado. A partir dos anos 70, no entanto, os fundamentalistas
se rebelaram, com sucesso, contra a hegemonia do secularismo.
Armstrong não gosta do termo fundamentalismo, cunhado para designar,
no início do século 20, os protestantes que se opunham
às correntes mais liberais. Não gosta porque passou a
ser usado para descrever outros comportamentos religiosos, cada qual
com uma dinâmica própria.
Ela usa a palavra consagrada com ressalvas porque, apesar das diferenças,
os fundamentalistas têm algo em comum, como o desprezo pela democracia
e pela liberdade de expressão e a intenção de ressacralizar
um mundo cada vez mais cético.
A razão, no entanto, não está de um só lado.
Os movimentos dos fundamentalistas, conclui Armstrong, "com frequência
se desenvolveram numa relação dialética com um
secularismo agressivo que demonstrava pouco respeito pela religião
e pelos devotos".
A combinação entre fé e poder talvez nunca tenha
tido tamanho potencial explosivo.