19/11/2020
AllanKardec.online - Historiografia do Espiritismo
Documento inédito: Relatório da Sociedade
anônima indica o papel atuante de Amélie Boudet na S/A
e registra exemplares da 5a. e 6a. edição de "A Gênese"
de 1869 e da 4a. edição de "O Céu e o Inferno",
impressa com Kardec em vida
O museu AKOL – AllanKardec.online apresenta mais uma fonte histórica
primária que ajuda a entender um pouco melhor a historiografia
do Espiritismo, em especial os fatos históricos relativos à
5ª edição de A Gênese
e à 4ª edição de O Céu
e o Inferno: “Inventaire Général
de l'année 1873 - Composé de tous les ouvrages de fonds
et d'assortiments, brochés et reliés, existant dans le
magazins de la Société anonyme et fait par Madame Allan
Kardec - commissaire de surveillance et M. Leymarie – administrateur”.
Sobre o Estatuto da Société Anonyme à Parts
d'Intérêt et à Capital. Variable de la Caisse Générale
et Centrale du Spiritisme
Conforme os artigos 14, 15 do Estatuto da Sociedade Anônima (vide
fotos), datado de 22 de julho de 1869, que regula as funções
dos Auditores de Fiscalização (conhecidos como membros
do Conselho Fiscal), dois membros eram nomeados anualmente em assembleia
geral, para efetuar a fiscalização nas operações
da sociedade. Além disso, analisavam a situação
passiva e ativa da empresa, podendo convocar a Assembleia Geral da S/A,
possuindo, inclusive, voz deliberativa.
De acordo com o artigo 16 (vide foto) do referido Estatuto, ao término
do exercício anual (que se referia ao período de 1º
de abril a 31 de março - conforme previsão estatutária
em seu artigo 25), os Auditores de Fiscalização apresentavam
um relatório à assembleia geral sobre a situação
da sociedade, a partir do balanço e da prestação
de contas apresentadas pelos administradores.
Este mesmo artigo 16 tinha a previsão de que, quinze dias antes
da reunião da Assembleia Geral, fosse enviada uma cópia
do relatório a todos os sócios, bem como do relatório
do inventário resumido.
Conforme verificado no Estatuto, o fundo social - capital de fundação
- foi fixado em 40.000 francos (a informação também
constou na Revista Espírita de agosto de 1869). Podemos verificar
que Amélie Boudet detinha 62,5% deste, conforme está descrito
no artigo 7º do referido Estatuto (vide foto).
Ou seja, a senhora Kardec era a acionista majoritária da recém-criada
Sociedade Anônima.
Além disso, temos demonstrado a intenção, desde
o desencarne de Allan Kardec, da participação ativa da
viúva Kardec nos rumos do Espiritismo colocado no relato da sessão
da Sociedade de Paris de 16 de abril de 1869, publicada na Revista Espírita
de maio daquele ano, no artigo “Caixa Geral do Espiritismo
– Decisão da Senhora Allan Kardec”.
Neste artigo é informado que Amélie Boudet era a única
proprietária legal das obras e da Revista. E que resolveu doar
anualmente à Caixa Geral do Espiritismo o excedente dos lucros
provenientes da venda dos livros espíritas e das assinaturas
da Revista, bem como das operações da Livraria Espírita,
mas com a condição expressa de que ninguém, a título
de membro da Comissão Central ou outra, tivesse o direito de
imiscuir-se neste negócio industrial, e que os recebimentos,
sejam quais fossem, seriam recolhidos sem observação,
já que a senhora Kardec pretendia tudo gerir pessoalmente, programar
as reimpressões das obras, as publicações novas,
regular a seu critério os emolumentos de seus empregados, o aluguel,
as despesas futuras, numa palavra, todos os gastos gerais.
Conforme podemos verificar na ata da segunda Assembleia Geral, realizada
em 13 de agosto de 1869 (vide fotos), Amélie Boudet é
nomeada Auditora de Fiscalização, juntamente com Gustave
Achille Guilbert, para os anos civis de 1869 e 1870. O que demonstra
que além de acionista majoritária, ela exercia a fiscalização
das operações que eram desenvolvidas pela Sociedade Anônima,
mantendo as diretrizes propostas no relato da sessão da Sociedade
de Paris de 16 de abril de 1869, publicada na Revista Espírita
de maio daquele ano.
O Livro de Inventário do Ano civil de 1873
Neste documento inédito que trata do Inventário Geral
do ano civil de 1873 da Sociedade Anônima, encontramos Amélie
Boudet - cujo nome figura na capa do documento (vide foto) - como integrante
do quadro de Auditores de Fiscalização daquele ano, juntamente
com P.G. Leymarie como administrador (vide foto). Este Inventário
é composto de 47 páginas e relaciona todo o estoque existente
na Sociedade Anônima ao fim do ano social de 1873.
Como vimos, o Auditor de Fiscalização tinha como função
a fiscalização das operações da sociedade,
além de ser responsável pela elaboração
do Relatório resumido do Inventário. E, como observamos,
uma das pessoas que ocupou este cargo, no ano civil de 1873, foi Amélie
Boudet.
Os Artigos 32, 33 e 34 da Lei de 24 de julho de 1867 da França
regulavam as funções dos Auditores de Fiscalização
- “commissaire de surveillance” [6]. Nestes artigos encontramos
que os auditores eram os responsáveis por reportar à assembleia
geral do ano seguinte a situação da sociedade, sobre o
balanço e sobre as contas apresentadas pelos administradores.
A deliberação que contém a aprovação
do balanço e das contas seria nula se não for precedida
de parecer dos auditores. Os auditores tinham o direito, sempre que
considerassem adequado do interesse social, tomar conhecimento dos livros
e revisar as operações da empresa. Podendo sempre, em
caso de urgência, convocar a assembleia geral.
Na página que consta os “Livres de Fonds – Ouvrages
de M. Allan Kardec” (vide foto), temos as seguintes informações
sobre alguns dos itens relacionados do estoque, naquela data:
- 1.048 exemplares (folhas dobradas e costuradas em cadernos) do livro
“Le Ciel et l’Enfer
– 4e edition” com um valor unitário de 1,00 franco,
totalizado 1.048,00 francos;
- 3 exemplares (encadernados) do mesmo livro e da mesma edição,
com um valor unitário de 1,80 franco, totalizando 5,40 francos;
- 195 exemplares (folhas dobradas e costuradas em cadernos) do livro
“La Genèse - 5e. edition” , com um valor unitário
de 1,30, totalizando 253,00 francos;
- 900 exemplares (em folhas grandes antes da dobra) do livro “La
Genèse - 5e. edition”, com um valor unitário de
1,00 franco, totalizando 900,00 francos;
- 1.000 exemplares (em folhas grandes antes da dobra) do livro “La
Genèse - 6e. edition”, com um valor unitário de
1,00 franco, totalizando 1.000,00 francos;
Na página que consta “Rectifications Diverses”
- Retificações diversas (vide foto), encontramos as seguintes
informações sobre estes respetivos itens do Inventário:
- Sobre o livro “Le Ciel et l’Enfer”
é informado que o mesmo custou 1.65 o volume, em fevereiro de
1869 (tiragem 2.200). E que seria necessário transportar além
do total de 1.048, 0,65 a mais por volume, totalizando 681,20 francos;
- Sobre o livro “La Genèse”
em folhas grandes antes da dobra, 900 volumes em 1869; 5ª e 6ª
edition – com impressão de 2.200, em 1869, seria necessário
transportar (porque custa 1,30) - mais 0,30 por volume. Totalizando
assim: Para a 5ª edição de 900 volumes, 270,00 francos,
e para a 6ª edição de 1.000 volumes, 300,00 francos;
Vale o devido esclarecimento sobre a que se referem estas “Retifications
Diverses” - Retificações diversas: os itens
do estoque (1.048 exemplares – folhas dobradas e costuradas em
cadernos - do livro “Le Ciel et l’Enfer – 4e edition”
e 900 exemplares - em folhas grandes antes da dobra - do livro “La
Genèse - 5e. edition”) tiveram seus custos reavaliados
e corrigidos no referido relatório. O livro (folhas dobradas
e costuradas em cadernos) “Le Ciel et l’Enfer – 4e
edition” passou a ter o valor unitário de 1.65 franco para
1.048 exemplares, totalizando, então 1729,20 francos (1.048,00
francos + 681,20 francos); o livro (em folhas grandes antes da dobra)
“La Genèse - 5e. edition” passou a ter o valor unitário
de 1,30 franco para 900 exemplares, totalizando 1.170,00 francos (900,00
francos + 270,00 francos); e, finalmente, o livro “La Genèse
- 6e. edition” passou a ter o valor unitário de 1,30 franco
para 1.000 exemplares, totalizando 1.130,00 francos (1.000,00 francos
+ 300,00 francos).
Conclusão
Com a apresentação deste inédito documento, onde
estão relacionados os itens que compõe o inventário
do final do ano social de 1873, identificamos algumas importantes e
reveladoras informações, que nos permitem fazer algumas
observações:
1. A 4ª edição do livro “Le Ciel
et l’Enfer” teve o custo de 1,65 franco em
fevereiro de 1869 – Portanto, indicando que a 4ª edição
teria sido impressa antes de fevereiro de 1869, com uma tiragem de 2.200
exemplares;
2. A 5ª e a 6ª edição do livro “La
Genèse” foram impressas em 1869 (ou mesmo
em 1868) ao custo de 1,30 franco. Esta informação está
de acordo com o pedido feito na Declaração de Impressão
de fevereiro de 1869, e indica que este pedido possa ter sido utilizado
para essas duas edições. E, segundo as informações
constantes no inventário, foram impressas 2.200 exemplares no
ano de 1869;
3. Amélie Boudet era acionista majoritária na fundação
da Sociedade Anônima. Além disso, foi eleita em assembleia
geral para a função de “commissaire de surveillance”
– Auditora de Fiscalização (Conselho Fiscal) para
os anos civis de 1869 e 1870;
4. Amélie Boudet, no ano civil de 1873, continuava atuante e,
ainda, fiscalizava as operações da Sociedade Anônima,
ocupando o cargo de “commissaire de surveillance” –
Auditora de Fiscalização do Conselho Fiscal da S/A;
5. Amélie Boudet tinha conhecimento da 5ª edição
do livro A Gênese, impressa em 1869
(ou em 1868), pois este item, juntamente com sua descrição,
estava devidamente relacionado em duas páginas do Relatório
de Inventário físico do ano social de 1873, inclusive
com informações detalhadas sobre os custos de impressão;
6. Amélie Boudet tinha conhecimento de uma 6ª edição
do livro A Gênese, impressa em 1869
(ou 1868), pois este item, juntamente com sua descrição,
estava devidamente relacionado em duas páginas do Relatório
de Inventário físico do ano social de 1873, inclusive
com informações detalhadas sobre os custos de impressão;
7. Amélie Boudet tinha conhecimento da impressão da 4ª
edição de O Céu e o Inferno
em fevereiro de 1869, pois esta informação estava devidamente
detalhada no Relatório de Inventário físico do
ano social de 1873, inclusive com informações detalhadas
sobre os custos de impressão;
Algumas observações importantes que julgamos
necessárias, com relação aos itens acima:
- Na Revista Espírita de julho de 1869 temos a informação
de que a quarta edição de “O Céu e o Inferno,
ou a justiça divina segundo o Espiritismo”, estava à
venda em 1º de junho daquele ano. E informava que a parte doutrinária
desta nova edição, inteiramente revista e corrigida por
Allan Kardec, havia sofrido importantes modificações.
Alguns capítulos haviam sido inteiramente refundidos e consideravelmente
aumentados;
- A Revista Espírita de um determinado mês é elaborada
no mês anterior. Ou seja, a Revista Espírita de julho de
1869 foi elaborada em junho de 1869, com a total supervisão da
senhora Kardec, conforme informações que vimos na Revista
Espírita de maio daquele ano;
- Em junho de 1869 ainda não havia sido criada a Société
Anonyme à Parts d’Intérêt et à Capital
Variable de la Caisse Générale et Centrale du Spiritisme;
- Durante os anos de 1870 e 1871 tivemos a Guerra Franco-Prussiana.
Este fato prejudicou o funcionamento da Sociedade Anônima que
teve o seu quadro de funcionários administrativos reduzidos para
duas pessoas, em 1873 para uma, deixando Leymarie como o único
administrador. Amélie Boudet continuava diligente na preservação
da memória e das obras de Allan Kardec. O título que foi
originalmente dado à empresa, por influência da Sra. Allan
Kardec que o achava comercial demais, foi alterado em assembleia geral
realizada 18 de outubro de 1873. Em vez de “Societé anonyme,
à parts d’intérêt et à capital variable
de la caísse générale du Spiritisme” a denominação
da razão social da S/A passa a ser “Societé
pour la continuation des Oeuvres spirites d’Allan Kardec”
- Sociedade para Continuação das Obras Espíritas
de Allan Kardec [7];
Observações finais
Mais uma fonte histórica direta ou primária que se junta
a tantas outras que já foram apresentadas, e que estão
ajudando a elaborar a historiografia do Espiritismo.
As pesquisas continuam e a cada descoberta apresentaremos o respectivo
documento juntamente com as nossas análises - sempre fundamentadas
nas fontes primárias - à disposição de todos
os estudiosos e pesquisadores para que estes possam analisar e aprofundar
os seus estudos relativos aos fatos históricos e à historiografia
do Espiritismo.
Como toda a análise de uma fonte histórica específica
não tem o condão nem a pretensão de ser definitiva,
mas sim fazer parte de um todo baseado em um conjunto documental maior,
visando nos aproximar da realidade histórica, recomendamos –
fortemente - a leitura de todas as etapas desta pesquisa que veem sendo
desenvolvida desde o início de 2020 para uma melhor compreensão
dos fatos históricos que envolvem a 5ª edição
de A Gênese.
Lembrando os pesquisadores Robson Nascimento da Cruz [4]
e Brozek e Massimi [5]: “o trabalho
do historiador assemelha-se à montagem de um quebra-cabeça
que nunca é totalmente montado, mas que provê uma imagem
passível de interpretação no presente.” -
“A recuperação dos documentos é uma valiosa
contribuição aos nossos conhecimentos...os documentos
constituem-se na matéria-prima, dado crucial da historiografia,
mas não se constituem propriamente na história. Tornam-se
história por meio da análise e interpretação”.
Esta pesquisa foi realizada em conjunto pelo museu AKOL – AllanKardec.online,
o CSI do Espiritismo e o site www.ObrasdeKardec.com.br, sempre se desenvolvendo
de forma colaborativa e sem personalismos.
Baixe os documentos e a análise completa
em: https://www.allankardec.online/search?q=inventario
Referências
1. Inventaire Général de l'année
1873 da Sociedade Anônima;
2. Revista Espírita de maio, julho e agosto de 1869;
3. Estatuto da Sociedade Anônima – Fotos de Charles Kempf;
4. História e historiografia da ciência: considerações
para pesquisa histórica em análise do comportamento -
Robson Nascimento da Cruz -http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext...;
5. Brozek, J. & Massimi, M. (2001). Curso de introdução
à historiografia da psicologia: apontamentos para um curso breve.
Memorandum, 1, 72-78;
6. LES SOCIÉTÉS - En Commandite par Action s, Anonymes
et Coopératives - Par J. Bédarride – Tome Deuxième
- https://odyssee.univ-amu.fr/.../RES-22980_Bedarride_Loi...;
7. Revue Spirite de janeiro de 1874 - https://www.retronews.fr/.../1-janvier-1874/1829/3285495/8;
clique nas imagens para ampliar








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Documento inédito - Parte 2: Relatório da Sociedade
anônima corrobora os depoimentos do tipógrafo Rousset e
de Desliens sobre a 5a. e 6a. edição de "A Gênese",
de 1869, e confirma que a 4a. edição de "O Céu
e o Inferno" foi impressa com Kardec em vida.
Sobre o processo de produção de livros
na França do século XIX
Uma vez rascunhado um livro, possivelmente estes manuscritos
precisavam ser passados a limpo para serem entregues ao tipógrafo
[1], que preparava então os caracteres
móveis juntando-os em linhas, e depois juntando as linhas nas
páginas [figura 1]. As provas eram impressas através do
prelo [4] [figura 2], que é uma
máquina de impressão mais simples, para que o autor pudesse
fazer a correções necessárias. Foi isso que aconteceu
em setembro de 1868 com a 5ª edição de A
Gênese (AG) [2], e
antes de fevereiro de 1869 com O Céu e o Inferno
(OCEOI) [3]. Uma vez aprovada a versão
final, podia se iniciar a produção, que usava então
frames (formas ou molduras) com caracteres móveis, mas com várias
páginas, por exemplo, no formato in-8 tínhamos 8 páginas
por frame [figura 3]. Tanto AG como o OCEOI utilizaram o formato in-18,
com 18 páginas por frame [figura 4]. Geralmente usava-se uma
folha de impressão (feuille) do tamanho jésus [figura
5], de 56 cm por 72 cm, que impressa frente e verso, garantia 36 páginas
do livro, no tamanho 18,67 cm por 12 cm. Após esta etapa as folhas
eram secadas, e armazenadas em pilhas, ou então dobradas e cortadas,
provavelmente com uma máquina apropriada [figura 6]. Depois,
para reutilizar os caracteres móveis, quando não se projetava
mais fazer revisões, mas ainda se desejava fazer reimpressões,
as matrizes (empreintes) eram feitas para posteriormente se produzir
as matrizes fundidas (empreintes fondues) e os clichês [figura
7], o que impossibilitava alterações a partir disso [4].
Matrizes não servem para impressão, mas apenas para fabricação
de clichês.
O tipógrafo Rousset disse em seu depoimento de
04/12/1884 que a fatura das matrizes de AG alterada foi emitida a Allan
Kardec no final de 1868 (afinal a revisão já estava concluída),
e que todas as matrizes foram fundidas para se fazer os clichês
em 04/1883 (e não derretidas para serem destruídas, o
que seria uma interpretação equivocada da declaração
dele). Acrescenta ainda que os clichês foram retirados pelo motorista
do Sr. Aureau no mesmo mês (o que faz sentido, pois o Sr. Aureau
é o dono da tipografia responsável pelas 7ª e 8ª
edições de AG de 1883) [5].
Comparando AG5 com AG6 vemos que foram usados caracteres móveis
em ambas, pois as falhas são as mesmas [6],
e não aparecem na AG7 [7], que usou
clichês [figura 8], por isso é mais provável que
as folhas de AG5 de 1872 também tenham sido impressas na tiragem
de 1868.
Já Desliens afirmou em 01/03/1885 que embora
a 1ª tiragem (das 1ªs edições não alteradas)
não tivesse se esgotado (isso significa que tinham exemplares
impressos em estoque), Allan Kardec dispôs que se fizesse uma
nova tiragem em 1868, da 4ª, 5ª e 6ª edições
(alteradas) (visto que a 4ª edição de 1868 é
idêntica às três primeiras, seria um engano de Desliens?...
ou seria má-fé ou displicência de Leymarie, confirmada
na alteração sem sentido que fez na comunicação
de 22/01/1868 em Obras Póstumas?... ou poderia ter existido
uma 4ª edição alterada ainda não localizada?)
(...), é essa tiragem que tem sido objeto das edições
publicadas de 1869 a 1871 e seguintes (não sabemos se AG6 saiu
em 1871 ou 1872). Ele também narra a utilização
das matrizes e clichês [8].
Ressaltamos que uma tiragem é a impressão
de uma quantidade de exemplares de uma obra pela tipografia, conforme
informado por ela ao governo em uma Declaração de Impressão
(DI). No caso, a primeira tiragem corresponde à DI de 1867, com
o conteúdo original e a segunda tiragem, à DI de 1869,
com o conteúdo atualizado. Tudo indica que a DI agora era usada
apenas para publicação, uma vez que o OCEOI4, já
impresso em fevereiro, teve a DI feita só em julho. Que dizer
então da DI de 1872 de AG5, cujo DL foi feito quatro dias depois
da DI, incluindo aí o fim de semana? Este fato nos leva ao forte
indício de que a obra já estivesse pronta para ser depositada.
O Livro de Inventário do Ano Civil de 1873
Já começamos a estudar este Livro de Inventário
na parte 1 deste artigo [3], onde vimos
que as folhas de OCEOI4 foram feitas em fevereiro de 1869.
Continuamos agora, observando na figura 9 a quantidade
em estoque de apenas 13 exemplares de AG3, enquanto para AG5 tínhamos
195 livros prontos e faltando incluir a capa (brochés, isto é
folhas dobradas e costuradas em cadernos) e 900 exemplares em folhas
de impressão (feuille) antes da dobra, além de 1000 exemplares
de AG6 também em folhas de impressão. Tudo isso é
consistente com o depoimento de Desliens.
Notamos ainda na figura 10 a existência de matrizes
(empreintes) de AG e de OCEOI. Lembramos novamente que matrizes não
servem para impressão, que são feitas ou em caracteres
móveis ou em clichês. As matrizes são guardadas
apenas para congelar o texto em uma espécie de forma e permitir
a posterior produção de clichês. Portanto, esta
informações também estão coerentes com os
depoimentos de Rousset e Desliens.
Vemos ainda a existência de matrizes fundidas
(empreintes fondues) de Caracteres da Revelação Espírita.
E finalmente na figura 11 vemos que as primeiras obras
fundamentais, como O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns
e O Evangelho segundo o Espiritismo já se encontravam com clichês,
mas não AG nem o OCEOI. AG, como Rousset havia mencionado, só
seria transformada em clichê em 04/1883.
Conclusões
O relatório da Sociedade Anônima ora encontrado
corrobora os depoimentos dados posteriormente pelo tipógrafo
Rousset e por Desliens, salvo a menção à AG4, pois
até o presente, ainda não localizamos uma 4ª edição
de AG alterada.
Conforme documentos apresentados na parte 1 deste artigo
- e agora nesta parte 2 - o livro AG5 já estava com as matrizes
(empreintes) faturadas para Allan Kardec, possivelmente o mesmo acontecendo
para OCEOI4. Pelo exposto de todo o processo fabril, mostramos a grande
dificuldade e custos para se fazer possíveis alterações,
ainda mais que tais matrizes (empreintes) de AG revisada já estavam
prontas no final de 1868, o que impedia a alteração do
texto, a menos que se fizessem novas.
Ainda há espaço para uma hipótese
já levantada na monografia "Em respeito a Kardec, A Gênese
investigada", nos itens 6 e 20, e que foi questionada na errata
[9]: existiriam as tiragens "perdidas"
pela Livraria Internacional, conforme depoimento de Leymarie, que poderiam
ter sido aproveitadas nas impressões de AG5 e AG6 a partir do
final de 1872, ano da falência da Livraria Internacional? Como
as obras eram armazenadas também em folhas, esta hipótese
passou novamente a ser viável, mas precisaríamos de mais
documentos para corroborá-la também. Fato é que
desta forma, a colocação apenas da folha de rosto, com
o endereço da Livraria Espírita na Rua de Lille, bem como
das propagandas nas contracapas, na hora de transformá-las em
brochés, isto é folhas dobradas e costuradas em cadernos,
e depois em reliés (livro incluindo a capa), torna muito mais
factível nossa hipótese de aproveitamento.
Em outras palavras, considerando que a AG5 de 1869,
a AG5 1872 e a AG6 são idênticas e foram feitas a partir
de tiragens em caracteres móveis, e que há o depoimento
de que as matrizes (empreintes) foram feitas em 1868, após o
que, provavelmente, os caracteres móveis foram reaproveitados
para outras obras, é provável que a tiragem de todas essas
edições tenha sido feita já no final de 1868, e
que a Livraria Espírita conseguiu recuperar as folhas impressas
da Livraria Internacional que faliu em 1872, e onde trabalhava o Sr.
Bittard antes de começar na Livraria Espírita. E finalmente
a tiragem de OCEOI4 foi feita em fevereiro de 1869, com DI e DL em julho,
após "reliés" (confecção do livro
incluindo a capa).
Para baixar o pdf com a pesquisa e as fotos:
https://www.allankardec.online/search
Esta pesquisa foi realizada de forma colaborativa e sem personalismos,
conjuntamente pelo museu AKOL - AllanKardec.online, o CSI do Espiritismo,
o site www.ObrasdeKardec.com.br e o colega Charles Kempf.
Referências:
[1] https://espirito.org.br/.../nem-ceu-nem-inferno-carta-de.../
; acesso em 12/11/2020;
[2] https://espirito.org.br/.../nem-ceu-nem-inferno-carta.../ ; acesso
em 12/11/2020;
[3] https://www.facebook.com/HistoriaDoEspiritismo/posts/834545617309222
ou https://www.facebook.com/allankardec.online/posts/191193512494540;
acessos em 12/11/2020;
[4] https://medium.com/deadlines/uma-breve-introdução-a-tipografia-5ec4177cd8cc
, https://fr.wikisource.org/wiki/Guide_manuel_de_l ’ouvrier_relieur/1,
https://bit.ly/36tigu0
e https://bit.ly/35jzAlN ; acessos em 12/11/2020;
[5] https://www.retronews.fr/.../15-decembre-1884/1829/3285751/2 ; acesso
em 12/11/2020;
[6] item 16 de https://www.allankardec.online/search?q=gênese+investigada
; acessos em 12/11/2020;
[7] http://www.oconsolador.com.br/ano12/600/especial.html ; acesso em
12/11/2010;
[8] https://www.retronews.fr/.../15-mars-1885/1829/3285731/9 ; acesso
em 12/11/2020;
[9] https://kardecpedia.com/obra/81 ou
https://www.allankardec.online/search?q=gênese+investigada ; acessos
em 12/11/2020;










