Nem todo mundo se sente confortável para falar sobre a morte.
Além das crenças populares dizerem que o tema dá
azar, obviamente ninguém gosta de perder alguém e é
dolorido tocar no assunto. Mas do mesmo jeito que gostamos de falar
da vida, é fundamental ter uma educação sobre a
perda e saber discutir o tema.
"Em uma sociedade em que a pauta é definida pela suficiência,
e as tristezas e impotências são vividas como doenças,
é fundamental ter essa discussão. Pensar somente no aspecto
da vida foge da realidade", diz Maria Cristina Guarnieri, psicóloga
clínica e autora do livro Do Fim ao Começo Falando
Sobre Perdas, Luto e Morte.
Discutir o assunto faz com que você trabalhe ainda mais o sentimento
e esteja preparado para a perda em algum momento da vida. Muitas vezes,
as pessoas sofrem muito por não saberem falar da morte e, quando
são surpreendidas pela perda de um ente querido, sentem-se desnorteadas.
"A morte é algo que não controlamos e que nos leva
para um lugar desconhecido, por isso ainda há uma certa resistência
em falar dela. Mas fugir é nocivo, contribuindo até para
a piora da saúde mental", diz Valeria Tinoco, psicóloga
especialista em luto, sócia-fundadora do Instituto Quatro Estações
de Psicologia.
A especialista explica que, se o indivíduo aprende que não
pode falar sobre o assunto, no momento em que realmente precisa, pode
evitar procurar ajuda e provocar uma reclusão e isolamento ainda
maior.
Olhar para o tema ao longo da vida também ajuda no desenvolvimento
de sentimentos individuais e na maior compreensão de si mesmo
e dos outros. "Se você sabe o quanto algo dói, é
mais fácil desenvolver o processo de superação
e até desenvolver a empatia em relação aos outros",
diz Guarnieri.

Relação com a finitude
Em 2018, um estudo encomendado pelo Sincep (Sindicato dos Cemitérios
e Crematórios Particulares do Brasil) e realizado pelo Studio
Ideias mapeou a percepção de brasileiros sobre o tema.
Os resultados mostraram que 74% das pessoas não falam sobre a
morte no cotidiano; falar sobre o tema foi visto como algo depressivo
(48%) e mórbido (28%).
Entretanto, mais da metade (55%) dos participantes concordaram que
"é importante conversar sobre a morte, mas as pessoas geralmente
não estão preparadas para ouvir". Para 57% o tema
pertence à esfera da intimidade e apontou amigos e parentes próximos
como pessoas mais procuradas para conversar sobre isso.
Em uma entrevista
à BBC naquele ano, Gisela Adissi, estudiosa do tema e presidente
do Sincep, disse que as condições da modernidade favoreceram
o afastamento do assunto das casas dos brasileiros: "É um
dado mundial que historicamente nos afastamos da morte com a hospitalização.
Antigamente, o doente ficava em casa, recebia visitas ali. Hoje, os
hospitais são uma baita negação da morte: tem horário
de visita, convívio limitado, a mediação da tecnologia.
O que se faz quando morre alguém no hospital? Onde fica o necrotério?
Lá na garagem, do lado da lavanderia".
Com a pandemia, então, piorou. É mais difícil
fazer uma cerimônia de despedida e velar da forma tradicional
algum familiar. Por isso, muitas vezes, a aceitação da
morte e o processo de luto se tornam ainda mais difíceis.
Segundo as especialistas, é fundamental concretizar a perda
para entender o processo do fim da vida. "Muitas vezes é
bem mais difícil entender o fim, se não vê o corpo
da pessoa ou se não consegue se despedir. Por isso é importante
fazer um ritual com ela mesma, para finalizar esse processo", sugere
Tinoco.
Embora a discussão sobre a morte seja tão importante,
a perda de alguém que se ama é bem dolorida. Entender
a finitude, entretanto, não é negar os sentimentos ou
não vivenciar o luto. Também não é saudável
dizer para alguém, em um momento de tristeza, que é preciso
entender que o fim da vida é um processo natural.
O ideal é respeitar a dor daquele indivíduo no momento
e tentar confortá-lo ao máximo. O diferencial é
tratar do tema sem a necessidade de um acontecimento do tipo. Falar,
por exemplo, o que algum familiar próximo gostaria de receber
ao morrer, saber suas escolhas, como se quer ser cremado, enterrado
ao lado de alguém, se deseja doar os órgãos. Apesar
de parecer mórbido, é uma maneira de fazer o tema presente.
Todos podemos nos beneficiar aprendendo a como reagir ao luto de uma
forma que não o prolongue, intensifique ou rejeite a dor.