18/10/2020
Reportagem da DEUTSCHE WELLE
Entrevista com o antropólogo Juliano Spyer,
autor do livro "Povo de Deus: Quem são os evangélicos
e por que eles importam"
Juliano Spyer diz que elite brasileira tem visão
estereotipada e arrogante sobre evangélicos
DW
O Brasil vive o maior processo de transição religiosa
do mundo, com sua população migrando de forma acelerada
do catolicismo para o cristianismo evangélico. Se em 1970 os
evangélicos representavam 5% dos brasileiros, hoje são
cerca de um terço e, nesse ritmo, em 2032 serão a maioria.
Essa transformação tem impacto nas instituições
e na vida das pessoas, especialmente dos mais pobres, mas é ainda
pouco compreendida pela elite do país, afirma o antropólogo
Juliano Spyer, autor do livro "Povo de Deus: Quem são os
evangélicos e por que eles importam", que chega às
livrarias nesta semana pela Geração Editorial, com apresentação
de Caetano Veloso.
A ideia da obra surgiu quando Spyer morava numa vila de trabalhadores
na periferia de Salvador para a pesquisa de campo de seu doutorado,
sobre uso das mídias sociais pelas classes baixas. Lá,
fez amizade com famílias evangélicas, passou a frequentar
cultos e percebeu o impacto prático que as relações
construídas na igreja tinham na vida de pessoas vulneráveis
e sem acesso a direitos e serviços públicos.
"Essas igrejas produzem um serviço que o Estado não
dá conta ou para os quais a sociedade brasileira não se
mobiliza. Há uma rede de ajuda mútua: quando o marido
fica desempregado e se arruma emprego, o filho se envolve com drogas
e encontra um lugar para ser tratado, o marido que batia na mulher encontra
caminhos para negociar uma harmonia em casa. É um estado de bem-estar
social informal", diz.
Spyer afirma que a elite brasileira tem uma visão "estereotipada,
pouco esclarecida e muito arrogante" sobre os evangélicos,
que se reflete também em parte da classe política, inclusive
na centro-esquerda. Enquanto isso, o presidente Jair Bolsonaro, que
teve entre os evangélicos sua maior vantagem eleitoral em 2018,
adota uma estratégia "oportunista" de aproximação
desse grupo, sinalizando que "se as outras pessoas não se
interessam por eles, ele se interessa", diz o antropólogo.

DW Brasil: Como foi morar numa vila na periferia de
Salvador de abril de 2013 a agosto de 2014 durante o doutorado?
Juliano Spyer: Sou um brasileiro branco, de classe
média, ex-estudante da USP, a quem foi dada a oportunidade de
fazer um programa de doutorado [no Reino Unido]. Precisava escolher
um lugar [para a pesquisa de campo] e fui para um povoado no limite
da área metropolitana de Salvador, numa vila de trabalhadores
na Costa dos Coqueiros. Tive a oportunidade de encontrar um país
que, nos documentos, é o meu, mas no qual eu nunca tinha vivido.
A antropóloga americana Cláudia Fonseca, que vive no Brasil,
disse que a divisão racial e por classe no Brasil é semelhante
à da África do Sul no apartheid, mas se mantém
e é silenciosa.
E por que decidiu pesquisar os evangélicos?
A antropologia do cristianismo é um dos principais temas da
antropologia contemporânea. O Brasil pobre, principalmente na
área urbana, é predominantemente evangélico. Não
existe no mundo uma transição religiosa acontecendo como
a do nosso país, que é o maior país católico
do mundo e está se tornando um dos maiores países protestantes
do mundo.
Em 1970 havia 5% de evangélicos, incluindo protestantes. Em
2000 eram 22%, e no ano passado era um terço da população
acima de 16 anos. Os estatísticos preveem que em 2032 o cristianismo
evangélico se tornará a religião predominante no
país.
Isso afeta todo mundo. Por um lado, muitas igrejas evangélicas
se deram conta de que, para influenciar nas pautas de comportamento,
elas precisam se envolver com o governo. Mas existe um lado B, que é
o efeito da igreja na vida das pessoas. [Na vila em Salvador] a gente
convivia com a violência doméstica, ouvia gritos, e não
adiantava chamar a polícia. Uma das primeiras consequências
da conversão [ao cristianismo evangélico] era acabar com
isso. A conversão também é um ato inteligente,
e não apenas de fé, que traz benefícios à
vida do brasileiro mais pobre.
No final dos 18 meses, descobri que várias das pessoas da igreja
evangélica com quem me relacionava haviam participado de organizações
criminosas e sido presas. E eram ótimos pais, esforçados,
generosos. É a principal maneira para reinserir na sociedade
pessoas que estiveram envolvidas com violência.
Sem desprezar os muitos problemas de ordem moral, temos que considerar
o quanto essas igrejas produzem um serviço que o Estado não
dá conta ou para os quais a sociedade brasileira não se
mobiliza. A motivação desse livro é falar, para
as pessoas do meu círculo, que existe muito mais complexidade
e valores a serem levados em conta em relação a esse fenômeno.
No mapa das religiões, o que é o cristianismo
evangélico?
Evangélico é um termo disputado. Precisamos usá-lo
porque eles se reconhecem dessa forma entre si e em relação
aos outros. Agora, se você vai ao Nordeste, evangélico
é todo mundo que é protestante, inclusive do protestantismo
histórico, como os luteranos e os calvinistas. No Sul, esses
grupos se diferenciam. Mas há um grau de convergência,
são todos protestantes e vieram do mesmo movimento contestador
do Lutero.
São predominantemente conservadores no âmbito moral, mas
há igrejas que relativizam isso, como a Bola de Neve. O [ginasta]
Diego Hypólito, por exemplo, atleta brasileiro nas Olimpíadas,
se assumiu homossexual e é dessa igreja. O que diferencia o pentecostalismo
é ser uma religiosidade feita pelo povo, comunicada de uma maneira
simples e que trata das questões deles do dia a dia. Isso se
espalhou como fogo dentro do Brasil popular.
Por que o cristianismo evangélico teve tanta aderência
nas camadas populares?
Segundo o antropólogo Gilberto Velho, o principal fenômeno
social brasileiro do século 20 é a migração
de nordestinos em massa para as capitais ao sul. Ao chegar nessas cidades
do sul, eles ocuparam regiões periféricas, desprovidas
de tudo, inclusive de Igreja Católica. São originalmente
católicos, mas não têm garantias de trabalho, transporte,
vivem em condições ruins de moradia, se desprendem das
raízes familiares.
E nessa igreja você dá voz à sua religiosidade
profunda, é ouvido como pessoa, não como número
ou funcionário, põe para fora suas inquietações,
frustrações e dores. Além disso, há uma
rede de ajuda mútua: quando o marido fica desempregado e se arruma
emprego, o filho se envolve com drogas e encontra um lugar para ser
tratado, o marido que batia na mulher encontra caminhos para negociar
uma harmonia em casa. É um estado de bem-estar social informal.
Esse cristianismo tem consequência direta na estabilização
da vida de pessoas em situação de vulnerabilidade. Mas
hoje você encontra também igrejas evangélicas em
bairros mais luxuosos das capitais.
Como as classes média-alta e alta em geral veem os evangélicos?
Têm uma visão estereotipada, pouco esclarecida e muito
arrogante. Veem ou como o evangélico do mal, o sujeito manipulador
da fé que ganha dinheiro e se usa da ingenuidade popular, ou
como o evangélico do bem, o coitadinho que precisou se apegar
a isso. Mesmo quando se tem uma visão benigna, é prepotente.
Isso se reflete na cobertura da imprensa sobre os evangélicos?
Há uma disputa pelo acesso a camadas populares entre os grupos
que controlam a comunicação no Brasil, de grupos de um
mundo mais aristocrático, católico, em relação
a grupos pentecostais, sendo a TV Record o principal deles. Parte do
desinteresse ou falta de generosidade para tratar desse assunto se dá
por uma disputa no âmbito da indústria da comunicação.
No livro, cito como a data dos 500 anos da Reforma Protestante foi
anunciada no Jornal Nacional [em 2017]. Ele falam de Lutero, do Calvino,
da fundação da primeira igreja protestante no Brasil,
mostram uma celebração numa igreja protestante histórica,
predominantemente branca no Rio de Janeiro, e os luteranos no Sul do
país. Não entra um evangélico, como se o assunto
não existisse. Sendo que a Assembleia de Deus, maior igreja evangélica
do Brasil, foi fundada por missionários suecos batistas e eles
se consideram protestantes.
Os evangélicos são mais conservadores do que
o resto da população?
Sim e não. Se você pensar nos bolsões de prosperidade
de pessoas que têm estudo superior, os evangélicos são
realmente mais conservadores. Mas se você considerar o Brasil
popular, há um senso de conservadorismo em relação
a valores. Nos primeiros 400 anos do Brasil não dá para
separá-lo do catolicismo, e de um catolicismo conservador. Esse
conjunto de valores em relação às pautas de gênero,
sexual, LGBT não é estritamente pentecostal, mas se desdobra
no catolicismo e no espiritismo.
O grupo religioso que mais deu vantagem de votos a Bolsonaro
na eleição de 2018 foi os evangélicos. Por que
isso ocorreu?
Concordo com um argumento levantado pelo cientista político
Mark Lilla, de Columbia, em que ele fala que o sucesso da eleição
do [Donald] Trump se deu pela incapacidade da adversária naquele
momento, a senadora Hillary Clinton, de conversar com diferentes.
No Brasil, de um lado você tem um governo que demonstra respeito
pelos valores dessa população [evangélica]. E do
outro lado tinha o outro candidato, Fernando Haddad. Não sou
antipetista e não falo isso como crítica pessoal, mas
ele cometeu um erro ao chamar o bispo Edir Macedo de charlatão.
Havia mulheres da Igreja Universal batalhando dentro dos seus espaços
de culto para defender um candidato que era alternativa ao Bolsonaro
que, com essa declaração, perderam essa possibilidade,
pelo argumento de "como votar em alguém que nos desrespeita".
A alternativa é entender mais sobre o assunto e fazer uma negociação
na qual não vai se concordar em todos os pontos, mas não
irá demonizar a pessoa. O fato de eu escrever um livro que é
empático [aos evangélicos] não significa que eu
concordo com a maior parte das questões que eles defendem em
relação a questões morais, mas quero dizer que
não é só isso que deve ser considerado.
Bolsonaro afirma que até o final de seu mandato nomeará
um ministro ao Supremo que seja "terrivelmente evangélico".
Como o senhor interpreta essa fala?
Há uma ação oportunista do Bolsonaro para se aproximar
de um grupo que é largamente desconhecido e rejeitado automaticamente
pelo outro campo. O presidente sinaliza para esse grupo que, se as outras
pessoas não se interessam por eles, ele, sim, se interessa.
A ministra da Mulher, Família, Direitos Humanos, Damares
Alves, é uma das vozes radicais no governo na pauta moral. O
quanto ela representa os evangélicos?
Há pessoas no meio evangélico simpáticas à
ministra Damares, mas também há pessoas no meio evangélico
simpáticas a pessoas como a [deputada federal pelo PT-RJ] Benedita
da Silva e a Marina Silva, que são da Assembleia de Deus. Assim
como a Damares, há outros evangélicos no governo que são
repudiados ou motivo de vergonha para alguns grupos evangélicos.
Além disso, o ambiente na igreja evangélica é
politizado, no sentido de questionar qual é o interesse do pastor
quando ele traz tal pessoa, ou por que o pastor propõe algo ou
está conversando com tal político. Foi aplicado um questionário
em 2018 durante a Marcha para Jesus e um dos achados foi que a maior
parte dos evangélicos ali não votava no candidato indicado
pelos líderes da igreja.
E a bancada evangélica, representa a diversidade do
cristianismo evangélico? Há instrumentalização
da religião para ampliar o poder político?
Ela é representativa de muitos evangélicos, conta com
representantes de muitas outras igrejas. Mas a Marina Silva não
fazia parte dessa bancada e é evangélica.
Isso não impede que se faça uma crítica justa
à utilização de estruturas da igreja para ter uma
presença cada vez maior dentro do Estado e, a partir dessa presença,
impor visões que são diferentes das visões dos
evangélicos. Até pouco tempo, o cristianismo evangélico,
como herdeiro da tradição protestante, sempre foi defensor
da liberdade de culto.
Neste momento há uma sobreposição de canais, em
que as igrejas são instrumentalizadas para eleger pessoas que
depois deixam de ter responsabilidade com seus eleitores, mas somente
com os donos dessas igrejas. É uma questão séria,
que precisa ser considerada enquanto se estabelece diálogo com
os evangélicos comuns, e não esperar até a eleição
para então fazer um acordo de conveniência com o dono de
uma igreja.
