28/09/2020
Igreja no abismo: cristianismo resiste em templo
milenar quase inacessível
por Felipe van Deursen
13/09/2020
O Reino de Axum surgiu no primeiro século da nossa era no território
que corresponde hoje ao norte da Etiópia e à Eritreia,
beijando o Mar Vermelho. Cerca de 400 anos mais tarde, um grupo de missionários,
vindos da Síria, Constantinopla, Anatólia e até
de Roma, foi fundamental para que o cristianismo fincasse os pés
naquela região.
Um desses missionários, que passaram à eternidade como
os Nove Santos, era Abuna Yemata (ou Abba Yem'ata). A igrejinha dedicada
a ele em Tigré, berço da civilização etíope,
não é uma igreja comum. Ela consegue a proeza de ter seus
mil quatrocentos e tantos anos de existência e isso não
ser sua característica mais marcante. Abuna Yemata Guh é,
possivela igreja mais inacessível do planeta.
A Etiópia tem diversas igrejas escavadas em rocha. As 11
de Lalibela, patrimônio da humanidade, foram esculpidas
há mais de 700 anos e atraem peregrinos até hoje. São
as mais famosas do país.
Já Abuna Yemata Guh não é tão impressionante
em termos arquitetônicos. O que a torna tão especial é
justamente a dificuldade de se chegar lá.
Fiéis, aventureiros e fiéis/aventureiros devem cruzar
uma ponte de pedra a 250 m de altura, depois uma ponte de madeira estreita,
seguida de uma caminhada extenuante até chegar a uma rocha vertical.
Após escalar a pedra, é preciso atravessar uma saliência
de 50 cm de largura sobre um precipício de 300 m. Tudo isso a
uma altitude de 2.580 m, sem uso de equipamento. E descalço,
como a tradição local cristã manda.
A vista compensa, mas não é só ela. A baixa umidade
do ar preservou os afrescos do interior do templo. Representando os
Nove Santos, além dos apóstolos, as pinturas são
um exemplo de arte cristã primitiva.
A igreja se sustenta em pilares de arenito resultantes do processo
de erosão que aconteceu nos tempos de Gondwana, explica Frances
M. Williams no livro Understanding Ethiopia: Geology and Scenery.
Esse megacontinente surgiu há uns 540 milhões de anos,
juntando América do Sul, África e grande elenco. Depois,
há 420 milhões de anos, com os movimentos do megazord
continental, uma grande cadeia de montanhas começou a se esfarelar
com a ação do vento, da água e do gelo. Rios daquilo
que hoje chamamos de Etiópia, que ficava bem no meio dessa antiga
cordilheira, levaram os sedimentos para o futuro Sudão e também
para a Arábia e a Índia, que depois se separariam de Gondwana,
formando o mapa que conhecemos hoje.
CRISTIANISMO NAS ALTURAS
As montanhas etíopes mostraram-se ideais para divulgadores e
praticantes dessa nova religião poderem se proteger de inimigos
e perseguidores. Deu certo, e o cristianismo vingou na Etiópia.
Enquanto muitos vizinhos se convertiam ao islamismo, o país
desenvolveu seu próprio ramo cristão, a Igreja Ortodoxa
Etíope. Com cerca de 50 milhões de fiéis, ela faz
parte do grupo das igrejas ortodoxas orientais, assim como os coptas
e os armênios, entre outros. Ainda no século 5, por terem
visões distintas sobre a natureza de Cristo, essas igrejas se
separaram dos católicos e ortodoxos europeus.

Nos últimos anos, ONGs vêm denunciando a perseguição
a cristãos em algumas áreas do país. No entanto,
hoje, o grande foco de tensão da Etiópia é entre
os seus dois maiores grupos étnicos, os oromos e os amarás.
Desde que o músico e ativista Haacaaluu Hundeessaa, jovem e proeminente
ídolo oromo, foi assassinado, no fim de junho, a Etiópia
tem vivido ondas de violência brutais.
A origem da rixa não está na religião, mas nas
visões conflitantes de país: de um lado os pan-etíopes,
de outro os nacionalistas étnicos. Porém, como muitas
vezes em contextos do tipo, qualquer diferença é desculpa
para treta. Houve casos de ataques entre cristãos e muçulmanos
até mesmo dentro da comunidade oromo, segundo a revista etíope
Addis Standard.

Diferentemente dos amarás, que em sua maioria são cristãos
ortodoxos etíopes, os oromos são um caldeirão de
sunitas, ortodoxos e seguidores de religiões tradicionais africanas.
O próprio primeiro-ministro etíope, o oromo Abiy Ahmed,
é protestante, filho de pai muçulmano e mãe ortodoxa.
O carismático Ahmed chamou a atenção do mundo
ao soltar presos políticos e montar um gabinete dividido meio
a meio entre homens e mulheres. No ano passado, ganhou o Nobel da Paz
ao assinar um acordo com a Eritreia, país que conquistou a independência
da Etiópia em 1993, gerando uma nova e conflituosa fronteira
no Chifre da África.
Mesquitas e igrejas têm servido de abrigo para as vítimas
da onda de violência atual. Uma realidade bem distante da vivida
em Abuna Yemata. Em 2018, a BBC exibiu a história do padre Haylesilassie
Kahsay. Sua rotina era a seguinte: acordar de madrugada, trabalhar até
as 6h, comer, caminhar por duas horas e, aí então, iniciar
o processo de subida para a igreja, daquele mesmo jeito que descrevi
há alguns parágrafos.
Lá no alto da montanha, dedicação à oração
e ao estudo de livros antigos. Todos os dias.
Talvez a fé não mova montanhas, só as placas tectônicas,
as mesmas que fizeram e desfizeram Gondwana. Mas que montanhas inspiram
a fé, isso 15 séculos de história etíope
estão aí para mostrar.