
Janaíne embarcou para Madagascar movida
por um chamado do coração
Ver as crianças nutridas motiva a médica a continuar
nessa caminhada de amor
Unir a ciência com a busca espiritual nem
sempre foi algo fácil ou até mesmo comum, mas, ao
ouvir um chamado do coração e buscar dentro de si
algo que respondesse à sua missão de vida, Janaíne
Camargo, Médica de Família e Comunidade, embarcou
para Ambovombe, cidade no sul de Madagascar, onde a Fraternidade
sem Fronteiras (FSF) mantém o projeto Ação
Madagascar em funcionamento. Há quase dois anos na ilha,
além de achar as respostas que precisava, ela viveu experiências,
teve aprendizados, fortaleceu sua crença na força
do amor e da união e, acima de tudo, conheceu uma cultura
rica de pessoas que buscam ser felizes e ter fé, apesar
de todo o sofrimento.
A própria médica resume de forma perfeita seu trabalho
de quase dois anos da ilha, quando cita a frase de Madre Tereza
de Calcutá: “O fruto da fé é
o amor, e fruto do amor é o serviço ao próximo,
e isso nos conduz à paz”. Servir ao
próximo com amor e dedicação a fim de que
seus pacientes tenham esperança em dias melhores e ver
as crianças malgaxes crescerem com saúde é
o que motiva nossa entrevistada a manter-se firme nessa causa
de amor.
Nesta entrevista, podemos conhecer melhor sua história,
seu trabalho e renovar nossa esperança no mundo e nas pessoas,
pois, quem se dedica ao próximo com fraternidade e amor
tem o dom de nos levar a acreditar novamente.
Confira abaixo, o lindo relato de Janaíne e algumas fotografias
que registraram seu trabalho na ilha.
FSF: Para começar, nos conte como conheceu a Fraternidade
sem Fronteiras.
Janaíne: Conheci em um congresso médico,
em 2014, quando o Wagner [Moura], estava com um stand divulgando
a Fraternidade. Na época, só existia o trabalho
em Moçambique, mas já tinham as caravanas e o apadrinhamento,
então, eu tive tempo de sentar e ficar conversando com
ele para conhecer e entender o trabalho, os propósitos
e os valores. Decidi apadrinhar naquele dia e só depois
fui entender a importância de ser madrinha. Hoje,
que tenho a oportunidade de estar na África, consigo entender
a importância de R$ 50,00: você consegue fazer a diferença.
Pra ter uma ideia, aqui um tonel de 150 litros de água
você encontra por R$10,00, então, com R$ 50,00 a
gente consegue abastecimento de água por uma semana mais
ou menos. Realmente, o apadrinhamento de R$ 50,00 é muito
valioso para nós.
Naquela época tive que esperar até fevereiro de
2017 para ir à minha primeira caravana, que foi para Moçambique.
Como caravaneira e estando in loco, a gente consegue abrir mais
nosso coração e entender melhor a necessidade de
trabalho, porque no Brasil a gente tem pobreza, dificuldade e
desigualdade, mas, realmente, a situação da miséria
extrema é muito mais tocante. Por exemplo, lá a
gente viu crianças desidratadas, que já chegavam
desfalecidas. Em Chimbembe (região de Moçambique)
eles tomavam uma água que parecia que tinha nata porque
era cheia de larvas, e a gente via que as crianças tinham
diarreia, desnutrição: naquele momento meu coração
começou a ser tocado e comecei a pensar na necessidade
de um trabalho contínuo que pudesse transformar as coisas
de uma forma sustentável.
FSF: Qual sua motivação para desenvolver
esse trabalho em Madagascar?
Janaíne: Pessoalmente, acredito que somos
seres espirituais, nossa essência provém do amor,
ela é espiritual e na Terra vivemos uma experiência
material, então, eu já buscava viver esse caminho.
A Fraternidade ajuda essa semente a germinar em nós para
que ela dê frutos e a gente pratique esse sentimento fraterno,
de amor, que vai além de uma ou outra escola religiosa.
Então, pra mim, houve muito forte essa motivação
que uniu minha busca espiritual com esse amor que toca nosso coração,
quando a gente tem aquele sentimento de amor ao próximo
e quer fazer algo.
Em fevereiro de 2017, tive dificuldade de me despedir de uma
criança, mas, justamente por me despedir dela e passar
algumas horas chorando, foi que eu percebi que não adiantava
ter o sentimento de querer levar ela embora porque isso seria
egoísta. Na verdade, o sentimento do amor mais puro me
mostrou que se eu quisesse o bem dela, eu deveria trabalhar para
que ela vivesse em condições melhores. Não
só ela, mas todas aquelas crianças que estavam ali,
só que a que gente se conecta mais é uma metáfora
daquele povo, uma portinha que Deus acha para abrir nosso coração.
FSF: Como foi que surgiu essa ideia?
Janaíne: Em julho de 2017, conversei
com o Wagner sobre a situação daqui, porque eles
tinham feito uma avaliação inicial e estavam muito
necessitados. Por exemplo, na primeira avaliação,
de 1.400 crianças 36% eram desnutridas e, naquela época
a gente não sabia, mas a mortalidade infantil aqui é
muito alta: em setembro de 2018, a gente fez um levantamento e
a mortalidade infantil média era de 4,5%. Então,
Madagascar é uma região difícil no ponto
de vista de sobrevivência, a gente tem uma mortalidade infantil
muito alta, e a principal causa é a diarréia, infecções
respiratórias, anemia, desnutrição, são
causas evitáveis por um trabalho de mais longo prazo. Tudo
isso foi tocando meu coração, então, eu decidi
que viria. Vim numa caravana em fevereiro de 2018, já sabendo
que eu ia voltar pra ficar, então, vim pra conhecer, pra
me ambientar e encontrei a confirmação: cerca de
30 crianças que chegaram aqui numa situação
muito grave.
FSF: Teve alguma história nessa caravana que te
marcou?
Janaíne: Lembro que teve o Ângelo,
que chegou muito grave, inclusive achamos que ele já estava
morto, era um menininho de dois anos que chegou pesando cerca
de 4,5kg. A gente ficou aqui no período da caravana e,
depois de umas duas semanas depois do retorno, um bebê,
que tinha se tratado com a gente com desnutrição
severa, tinha falecido e, assim, se seguiu a notícia de
umas seis crianças que faleceram no intervalo de um mês
depois. Isso fortaleceu o sentimento da necessidade, porque naquele
momento era uma questão de sobrevivência a gente
auxiliar mais de perto as pessoas que adoeciam aqui.
FSF: Você tinha um emprego, tem família
no Brasil e diversas outras coisas. Como foi essa transição
entre decidir e viajar em definitivo?
Janaíne: Eu sinto que muita gente diz que gostaria
de fazer algo, mas as oportunidades a gente cria, então,
quando a gente canaliza nossa vontade, a gente se organiza pra
que isso aconteça. Eu tinha um bom trabalho, guardei dinheiro
por um ano pra estar aqui, fui me desfazendo dos meus vínculos
profissionais pra que outras pessoas fossem assumindo, fui organizando
isso com minha família porque é um sofrimento essa
distância, então eu fui me preparando nesse um ano,
de julho de 2017 a julho de 2018. Nunca teve um plano,
nunca teve o pensamento de que eu faria isso, mas a força
do amor, o chamado espiritual e a necessidade extrema que existe
aqui foi o que me chamou.
FSF: Como é a organização da área
da saúde para atender as pessoas?
Janaíne: As ações da clínica
têm sido contínuas desde julho de 2018 e a gente
pretende que continuem sendo assim. Pra isso, tem três enfermeiros
do local, temos uma clínica que oferece serviço
de atenção primária à saúde,
ou seja, realizamos cuidado integral com avaliação
dos aspectos da doença como os biológicos, emocionais,
sociais. Além dos aspectos espirituais e no sentido existencial,
porque a motivação diante da doença ou do
sofrimento acaba sendo aspectos do cuidado em saúde quando
a gente pensa nesse modelo de atenção primária.
FSF: Como foi o início do trabalho em Ambovombe?
Janaíne: Quando cheguei, tínhamos
uma clínica de madeira construída com uma sala de
espera, seis consultórios e uma sala de enfermaria, mas
não tinha nenhum serviço funcionando e as pessoas
dependiam exclusivamente da vinda das caravanas. No início,
foi tudo muito difícil porque para se comunicar trabalhávamos
com os tradutores, que não estão acostumados a usar
o vocabulário médico e compreender o que é
importante pra gente na tradução. Assim, fui compreendendo
e me ambientando em relação a tudo isso, foi bastante
desafiador.
Hoje, depois, de quase dois anos aqui, consigo atender a maior
parte das pessoas em malgaxe, mas, no início, era bem difícil
porque ainda não tinha funcionários da clínica,
e ficávamos eu, o tradutor e a pessoa da recepção.
Foram seis meses trabalhando sem ter enfermeiros, mas, no primeiro
mês, foram contratados agentes comunitários, e eu
acho que isso fala muito sobre nosso serviço: nosso
foco a princípio era estar perto da comunidade, capacitar
pessoas daqui para auxiliarem no cuidado em saúde e, nesse
sentido, formar pessoas com informação e com compreensão,
que pudessem levar um pouco de informação de prevenção
de doenças para as famílias e também nos
auxiliar no mapeamento e compreensão de que região
é essa que a gente chegou para trabalhar.
FSF: Você falou sobre a ampliação
que teve no trabalho graças à ajuda que vem dos
padrinhos e outros voluntários. Qual a importância
do apadrinhamento para o desenvolvimento das ações?
Janaíne: A limitação de
recursos, a gente já sabe que é inerente à
região onde nós estamos, mas, graças a Deus
nunca faltou remédio, sempre conseguimos doações
e oferecer um tratamento, na medida do possível, adequado
pras pessoas, principalmente, em termo de medicações
adequadas para os tratamentos. Também conseguimos fazer
a recuperação de centenas de crianças desnutridas,
por exemplo, em fevereiro de 2018, eram 225 crianças desnutridas
sob supervisão nos quatro polos de atendimento aqui em
Madagascar, houve um período de diminuição
e estávamos com 80, mas, agora está voltando a receber
mais desnutridos por causa da época que não tem
colheita, então, estamos chegando a 100, mas, temos conseguido
cuidar delas e reabilitá-las.
Tudo isso é sustentado com o apoio das mãos
de cada pessoa; cada pessoa que se preocupa em conseguir uma amostra
de medicamento, que doa para que possamos comprar, cada doação
de um equipamento médico, cada pessoa que trabalha no envio
das doações, além das caravanas que vêm
para nos auxiliar e nos ajudar a implantar novas etapas dos serviços
aqui. Atualmente, recebemos uma média de 700 pessoas
na nossa clínica e, graças a Deus, esse trabalho
tem crescido e alcançado muitas pessoas.
FSF: Quais são os principais atendimentos feitos
por você e pela equipe de enfermagem?
Janaíne: Como médica, eu atendo
as pessoas que estão doentes, são tanto crianças
como adultos porque tem a preocupação com as crianças,
mas, é importante acolher os adultos também, porque,
se eles estão adoecidos e sem condições de
trabalhar, isso vai ter um impacto muito grande no sistema familiar.
Temos atendido adultos com lesões de pele graves, tuberculose,
hanseníase e também com dificuldades respiratórias
como enfisema pulmonar porque eles moram em casas pequenas e usam
carvão pra cozinhar e se aquecer do frio, então,
respiram aquela fumaça a vida toda e com 40 anos já
tem doenças respiratórias crônicas. Além
disso, muitas mulheres têm infecções ginecológicas
graves que chegam na região do útero, dos ovários
e isso é uma demanda importante também.
Temos uma ala de internação, com uma média
entre 30 e 40 internações por mês, tanto de
desnutridos e pessoas com infecções ou doenças
graves, pulmonar ou cardíaca. Então, hoje, temos
o centro de saúde de atenção primária,
um centro de internação, um de nutrição
e outro de reabilitação.
FSF: Está em andamento a construção
de uma clínica de alvenaria. Você pode falar um pouco
mais sobre essa conquista?
Janaíne: Conseguimos mobilizar doações
no Brasil e em outros países e agora estamos construindo
uma clínica de alvenaria. Isso é um marco de sustentabilidade
pra gente porque o governo de Madagascar e a Unicef vieram conhecer
nosso trabalho; avaliaram e aprovaram nosso tratamento de desnutrição,
o nosso protocolo e o funcionamento, então, hoje
somos reconhecidos e legalizados como parte do sistema de saúde
da cidade de Ambovombe, e isso é um marco muito importante
pra nós. Com isso, a Unicef já nos enviou
insumos de planejamento familiar, vacinações de
rotina, alguns tipos de vitamina e vamos conseguir ser reconhecidos
como centro de recuperação nutricional avançado
de casos de desnutridos muito graves.
FSF: Além da saúde primária e internação,
quais outras frentes existem neste trabalho?
Janaíne: Na nossa equipe tem várias
frentes. Tem uma equipe que compõe o centro nutricional,
que é responsável por preparar as fórmulas
de tratamento para os desnutridos, faz a supervisão dos
que estão vindo e a busca dos que estão ausentes,
monitora a pesagem e a medida, além disso, tem o enfermeiro
que acompanha as crianças adoecidas e precisam de algum
tratamento específico para melhorarem. Também tem
a Claudete, que é a nutricionista, que acompanha do Brasil
a supervisão de todo o tratamento nutricional.
Depois, tem a auxiliar de enfermagem que trabalha com os agentes
comunitários fazendo a supervisão das crianças
de zero a dois anos, realizando consultas de rotina com pesagem
e medida e avaliação da nutrição,
porque nosso objetivo é conseguir tratar das crianças
em risco de desnutrir para evitar que elas cheguem a desnutrição.
Uma outra frente de trabalho é a realização
do pré-natal com consultas, oferecimento de vitamina e
as medicações pra prevenir algumas infecções.
As consultas de rotina do pré-natal são feitas por
meio de testes rápidos como de HIV e sífilis, que
recebemos de doação. Além do pré-natal,
a gente realiza o planejamento familiar, quando oferecemos, para
as mulheres que desejarem, a contracepção, tantos
métodos mais pontuais como pílulas e injeções
quanto um implante que dura por três anos. Então,
tem um serviço completo voltado para esse ciclo materno-infantil
com o intuito de redução da mortalidade materna,
da melhoria da saúde durante a gestação quanto
do cuidado da criança até os dois anos de vida.
FSF: Quais são os próximos passos?
Janaíne: Agora, estamos nos preparando
em equipe para melhorar essa supervisão das crianças
até os cinco anos de idade para que a gente consiga interceptar
as adoecidas antes que elas se tornem desnutridas. Com a conclusão
da clínica, que já está na etapa final, vamos
conseguir nos tornar um serviço permanente aqui, então,
nossa perspectiva é conseguir a contratação
de médicos malgaxes, outros médicos brasileiros
que queiram vir passar um período menor ou ficar aqui de
modo mais permanente assim como eu. Nós temos conseguido
caminhar nesse caminho graças a Deus e com o apoio de todos:
padrinhos, mobilizadores, divulgadores da causa, de
O serviço do centro médico está devolvendo
a saúde de muitas crianças e a esperança
de famílias inteiras cada um que nos auxilia para que possamos
nos dar as mãos. Então, tudo isso que temos construído
é fruto de nos unirmos e acreditarmos em um sonho e construir
juntos, isso mostra a força do amor e a força que
o sentimento de fraternidade tem de transformar corações
e isso nos levar a transformar nossa realidade.
O serviço do centro médico
está devolvendo a saúde de muitas crianças
e a esperança de famílias inteiras
FSF: Como você se sente vendo tudo que foi realizado
nesses dois anos de trabalho?
Janaíne: Quando a gente olha para tudo
construído em dois anos, o sentimento que vem é
de muita gratidão, conseguimos ver a mão de Deus
guiando cada etapa porque essa obra vem Dele para nós e
só podemos agradecer a oportunidade de servirmos
essa obra que é maior que cada um de nós, mas que
não se concretizaria se cada um de nós não
estivesse disponível para auxiliar. Então,
um dos grandes aprendizados aqui é acreditar piamente no
potencial do ser humano e desenvolver minha fé na força
amor que constrói, que une e que realmente consegue transformar
uma das realidades mais difíceis do mundo.
Acho que não tem como dimensionar isso; hoje a gente não
tem ideia de quantas pessoas foram atendidas, mas, principalmente,
de quantas vidas foram transformadas e das perspectivas que foram
abertas para essas pessoas. O que é mais gratificante é
ver as crianças brincando saudavéis, ver o quanto
elas já conseguem se desenvolver, ver as pessoas pessoas
da própria equipe se desenvolvendo e se superando, não
tem preço.
FSF: O que essa experiência mudou em você
como profissional? E como pessoa?
Janaíne: Hoje, como profissional eu acredito
muito mais no trabalho da equipe, na competência do ser
humano o quanto a gente consegue se superar, crescer e aprender,
acredito muito na força da união, na soma dos corações.
No ponto de vista pessoal, me tornei uma médica que tem
muita fé e tento levar isso pra minha vida porque aqui,
diante de tanta dificuldade, de tantos poucos recursos, de tantas
vezes que eu me deparei com situações em que eu
achei que não teríamos saída, presencio verdadeiros
milagres todos os dias, então, a gente sente a
força do amor dando suporte incondicional.
Hoje percebo que a medicina é o exercício do cuidado
com amor e isso nos transforma como pessoas também. Cada
pessoa que esteve diante de mim e que enfrentava uma situação
difícil foi uma oportunidade de me compadecer do sofrimento,
mas compreendendo a força que tem cada alma que vive nesse
lugar, então, hoje eu tenho um sentimento de profunda
reverência por cada pessoa que vive aqui, o que causa um
sentimento de compaixão, de querer mudar e proporcionar
algo melhor porque eles merecem porque são fortes e merecedores
do nosso amor, da nossa compaixão.
FSF: Tem algum ponto de diferença cultural que
te chama mais atenção?
Janaíne: Tem dois pontos da cultura que
quero carregar pra mim. O primeiro é como eles têm
uma noção da presença de Deus em tudo que
acontece: se deu certo é porque Deus permitiu e se algo
deu errado é porque era a vontade de Deus. Vejo pessoas
privadas de todos os tipos de recurso, mas vejo essas pessoas
agradecendo o tempo todo e não revoltadas, aqui tem pessoas
mansas e pacíficas, que não se revoltam diante da
situação que vivem e nos dão uma grande lição
sobre acreditar que tem uma força maior que organiza o
universo e que para nós muitas vezes parece não
fazer sentido, mas eles vivem isso como uma verdade, essa aceitação.
Outro ponto da cultura que eu amo é o modo como eles veem
a morte, inclusive quando eu estiver no final da vida, quero ser
tratada como os malgaxes olham pra morte. É interessante
porque a morte parece uma urgência maior que a vida, então,
quando está em risco de morrer eles não se mobilizam
tanto, mas, quando acontece é muito urgente pra eles. Aos
poucos fui entendendo que eles precisam se organizar para chegar
na casa da família paterna mais próxima que eles
tiverem e da família paterna eles vão pra materna
porque vão compartilhar do luto: ninguém vai tentar
ser forte porque aquele alguém morreu, todo mundo vai chorar
junto, vai sofrer junto, mas, pra isso, eles vão se reunir.
Cada vez que tem um falecimento é muito importante estar
junto: nessa hora, a equipe toda para o que está fazendo
para estar junto dessa família porque é o momento
de se unir. Esse momento é sagrado porque eles entendem
que o corpo é a própria presença de Deus,
aquele não é mais um corpo e, sim, a materialização
de Deus. É muito bonito quando a gente vai acompanhar as
pessoas em cuidados paliativos – quando não temos
condições de curá-las, mas vamos aliviar
o sofrimento – a gente vê que elas têm um sentimento
de paz e aceitação mesmo com a perspectiva da morte
porque eles caminham com a sensação de que é
a vontade de Deus e que Ele está permitindo o alívio
da dor enquanto eles estão aqui na Terra por meio da FSF
e dos cuidados que a gente oferece.
Independente de crença, aprendi a ver no momento da morte
a força da união e a força do amor: a gente
aprende a desejar que aquela alma vá em paz e quem fica,
também fica em paz. Inclusive, perceber a paz da família
e do ambiente nos momentos de velório foi o mais estranho
na adaptação cultural, mas, hoje vejo que faz sentido
porque demonstra muita sabedoria e muita simplicidade e eles fazem
isso com naturalidade.
FSF: Daqui um tempo você retorna para o Brasil.
O que fica desse período em Madagascar?
Janaíne: Esse aprendizado foi muito especial
no sentido de unir o amor e a ciência porque a medicina
e a técnica é o que temos de melhor para oferecer
a um paciente e isso precisa continuar crescendo, mas que se esses
recursos cheguem providos de amor e de cuidado porque é
isso que nos movimenta a viver a fraternidade. A gente
pode oferecer o recursos materiais, mas também transformar
e conectar nossos corações, pois, isso tem o potencial
de nos tornar profundamente humanos.
FSF: E qual a mensagem que você deixa para todos
que querem se voluntariar, mas precisam de uma motivação?
Janaíne: O primeiro passo é se
permitir ouvir os anseios da alma; ter a capacidade de olhar para
o nosso cotidiano e perceber o que nos traz alegria, motivação
pra viver, certamente esse é o caminho que temos reservado
em nossa vidas e é o que vai nos guiar à paz e à
sensação de dever comprido.
Outra coisa é: se a gente sente esse desejo de se doar,
que a gente confie e canalize toda nossa vontade porque ela é
como uma força, que concretiza as coisas quando a gente
realmente quer, então, pra quem pretende auxiliar, olhe
para o mundo interior e busque romper as amarras que nos afastam
de cumprir esse caminho que ansiamos e coloque essa energia a
serviço do que verdadeiramente queremos, assim, todos os
recursos necessários vão chegar. Que a gente se
lembre que tem uma força maior que rege nosso trabalho
e nós somos apenas instrumentos, servindo essa força
maior que é o amor, que é o sentimento de fraternidade
e isso que vai nos trazer a paz.
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